D. Paulo amenizou texto de manifesto

Cardeal disse 'seguir por veredas da ética e da dignidade da pessoa e da pátria'

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

O cardeal d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, afirmou em mensagem aos organizadores do Movimento em Defesa da Democracia que, ao assinar o manifesto que seria lido, em ato público, no Largo de São Francisco, estava agindo como religioso, "seguindo por veredas da ética e da dignidade da pessoa e da pátria".

O cardeal sugeriu pequenas alterações, de forma e de conteúdo, no texto do Manifesto em Defesa da Democracia, antes da leitura do documento, em ato público, na tarde de quarta-feira. Em mensagem enviada por e-mail a um sobrinho do cardeal, que havia sido o intermediário no contato com os organizadores do Movimento em Defesa da Democracia, o ex-ministro Clovis Carvalho, chefe da Casa Civil no governo Fernando Henrique Cardoso, informou que seria divulgada na praça a versão alterada, em substituição à original, cuja integra havia sido publicada pelo Estado.

É a versão corrigida por d. Paulo que está no site do movimento. As mudanças propostas por d. Paulo eram pequenas, mas importantes, na avaliação do sobrinho que o acompanhou na análise do texto.

O cardeal sugeriu, por exemplo, a substituição do verbo fingir por valorizar, quando se dizia que "uma das mais importantes democracias do mundo (o Brasil)... já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade". No parágrafo em que se denuncia o apoio do governo à "ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa", propondo "mecanismos autoritários de submissão das empresas de comunicação", d. Paulo escreveu "submissão de jornalistas e de empresas de comunicação".

Ele substituiu também a palavra escárnio por deplorável quando se afirma que "é um escárnio que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário".

Saída. A adesão ao Movimento em Defesa das Instituições foi, segundo seu interlocutor, uma saída que d. Paulo encontrou para se manifestar sobre a situação política do País. "Até dois meses atrás, ele não queria se envolver em nada, mas sua angústia foi crescendo, pois se sentia incomodado com a maneira com que Lula está conduzindo o processo eleitoral e com a possibilidade de Dilma Rousseff ganhar", revelou o interlocutor.

O cardeal externou sua preocupação na manhã do dia 14, quando um grupo de amigos e parentes, entre eles alguns bispos, foram cumprimentá-lo pelo seu aniversário - 89 anos - em Taboão da Serra, onde mora numa residência de freiras.

Quem pediu o apoio de d. Paulo, figura de destaque na luta pelos direitos humanos e em defesa dos presos políticos, entre eles o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, durante o regime militar, foi Geraldo Biasoto, que se apresentou como participante do grupo que coordena o programa de Serra e diretor executivo da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), órgão do governo do Estado de São Paulo.

Biasoto informou que movimento que estava criando em defesa das instituições lançaria o Manifesto em Defesa da Democracia, "com 30 assinaturas de pessoas de grande inserção social e política (notadamente juristas)", citando entre elas os nomes de Hélio Bicudo, Sidney Sanches, Paulo Brossard, Carlos Vereza, Milton Pereira, José Artur Giannotti, (Francisco) Weffort, Everardo Maciel e Marcos Villa.

"Grato pelo documento que vocês enviaram. Estava esperando por ele", respondeu d. Paulo por fax, acrescentando no texto duas afirmações que, segundo seu interlocutor, justificam o apoio do cardeal. A primeira: "Em todo caso, vocês merecem a gratidão dos que respeitamos a história e defendemos a democracia em nossa terra." A segunda: "Religiosos, estamos seguindo por veredas da ética e da dignidade da pessoa e da Pátria."

O arcebispo emérito só aderiu ao manifesto depois de se certificar de que não era partidário. "Como é um documento não partidário, embora o pessoal que está por trás tenha um partido definido, d. Paulo amenizou alguns adjetivos mais fortes, ainda que tenham ficado fortes, e resolveu assinar", revelou o sobrinho que intermediou o contato com os organizadores do movimento.

Como d. Paulo se encontra de repouso e em tratamento de saúde em Taboão da Serra, onde as visitas que recebe se limitam a parentes e a um grupo de amigos mais próximos, todos os contatos foram feitos por e-mail, fax ou telefone, sempre por intermédio de um sobrinho. "Nem conheço pessoalmente Geraldo Biasoto", observou o intermediário que fez os contatos com os coordenadores do Movimento.

Satisfeito com a acolhida dada às mudanças feitas no texto por ele, o cardeal mandou informar, na quinta-feira, que só voltaria a se manifestar, se necessário, depois de avaliar a repercussão do documento.

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