Da autonomia com Roriz à cassação de Arruda

Cidade nova, que pratica o que há de mais velho na política, faz aniversário com governante ''tampão'' eleito indiretamente

Leandro Colon, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Os moradores do Distrito Federal demoraram 30 anos para ter o direito de eleger seu governador, em 1990. E comemoram 50 anos de inauguração com um governante "tampão", escolhido por eleições indiretas na Câmara Legislativa. A contradição e o retrocesso expõem a natureza da autonomia conquistada: uma cidade nova, mas que pratica o que há de mais velho na política.

A capital riscada por Lucio Costa, e de concreto moldado pela modernidade arquitetônica de Oscar Niemeyer, foi marcada, no nascimento da autonomia política, por uma decisão de ninguém menos que o então presidente da República, José Sarney. Foi ele quem escolheu Joaquim Domingos Roriz, um homem de português arrastado, baixíssima intelectualidade e instinto populista sem amarras, para o comando do DF, em 1988. Foi nomeado como governante tampão.

Dois anos após a nomeação biônica, Roriz foi eleito governador pela população do DF. Venceu novamente em 1998 e foi reeleito em 2002. Do primeiro ao último dia de governança - e agora na condição de pré-candidato mais uma vez -, Roriz foi fiel à política de transformar as cidades satélites em feudos da base aliada, onde se pratica o mais explícito escambo eleitoral: a troca de votos por lotes habitacionais.

As gestões de Roriz sempre foram marcadas por denúncias de corrupção, grilagem de terras, favorecimentos a familiares e empresários. A distribuição de lotes favoreceu o crescimento periférico do DF. Um bolsão miserável, mas rico em votos. Um filão para os deputados distritais.

Eleito senador em 2006, Roriz ficou menos de um ano no cargo. Renunciou em meio ao escândalo de ter usado o Banco de Brasília (BRB) para simular uma transação e sacar cheque do empresário Nenê Constantino. Afirmou que os R$ 270 mil eram empréstimo para comprar uma bezerra.

Mas Roriz voltou ao cenário político e aparece como favorito nas eleições de outubro ao governo do DF. Retorna em meio a mais um escândalo de corrupção em Brasília, desta vez, no entanto, de proporções jamais vistas na política brasileira: vídeos com o governador e os deputados distritais embolsando dinheiro vivo oriundo de empresas contratadas pelo governo. Surge aí uma cria de Roriz: José Roberto Arruda, uma das três pessoas que foram eleitas para o governo desde 1990 - a outra é Cristovam Buarque (PDT), que conseguiu manter sua gestão distante das páginas policiais.

Arruda passou dois meses presos numa cela da Polícia Federal. É acusado de comandar esquema de corrupção no governo do DF. Foi cassado pela Justiça Eleitoral. O esquema começou na gestão anterior, de Roriz. Hoje, os dois estão rompidos. Mas os deputados - a maioria sob suspeita - continuam mandando e desmandando no Legislativo do DF.

No último sábado, elegeram o advogado Rogério Rosso (PMDB) para governador até o fim do ano. Dos 13 votos que lhe deram a vitória no primeiro turno, pelo menos 10 são de parlamentares investigados por irregularidades.

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