Da enxada à moda de viola, eles são caipiras, com muito orgulho

A 200 km de São Paulo, um povo avesso à modernidade mantém as tradições da roça

Valdir Sanches, LAGOINHA (SP), O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2008 | 00h00

"Trabaiá é gostoso, o corpo da gente se deslancha." Por isso, Francisco Marcos, de 67 anos, uma vida passada na lavoura, não encosta a enxada. "Se pará, discostuma." Nesse lugar, ainda se diz "vô passiá na Laguinha". É que Lagoinha, no Vale do Paraíba, a 200 quilômetros de São Paulo, é lugar de gente caipira. Os que são mesmo, com muito orgulho. E os que prezam essa cultura. Na cidade de 5.900 habitantes, táxi é Fusca, "pra guentá a estrada de chão". Muitos moradores falam português com estranhos, e "caipirês" entre si. Quase toda a população (96,5%) é católica. As grandes festas religiosas têm uma atração especial: os violeiros caipiras. A maior delas é a Folia do Divino Espírito Santo, surgida no Brasil Colônia. No ano passado, o encerramento da festa reuniu 10 mil pessoas. Estudiosos como o professor José de Souza Martins, da Universidade de São Paulo (USP), esclarecem que a cultura caipira não é coisa de gente atrasada - mas um importante bem cultural brasileiro. "Não é um defeito, é uma virtude", diz Martins.CASA TÍPICA- Bença, pai.- Deus abençoe, fio.Na casa de pau-a-pique, depois da porteira, Francisco Marcos recebe o filho, Amarildo, com visitantes. A casa, com telhado alto, sem forro, é fresca. Tem três quartos. Na sala há uma TV, modernismo recente. Seis anos atrás, não havia luz. Na cozinha, destacam-se o fogão a lenha e as panelas de ferro. Mas há um a gás, e utensílios de alumínio. Os primeiros são os preferidos de Maria Helena, de 62 anos, mulher de Francisco.O professor Martins ensina que na roça ninguém passa fome. As pessoas se ajudam e dão de comer a quem precisa. Café e bolacha são logo colocados sobre a mesa da cozinha, para os visitantes (Amarildo prefere o habitual, farinha de milho com café e leite). Passa das onze. Maria Helena começa a mexer nas panelas. Os visitantes sabem que não sairão sem almoçar. Francisco está falando de outros tempos. - Eu saía na madrugada por esses altos pra trabaiá e escutava os munjola (monjolos) batendo pra fazê paçoca e farinha. A falaiada de muié torrando farinha. Tinha uma cachoeira aqui perto, um barulhão. Faz 18 anos quietô o barulho.Há dois meses foi "atacado de cobra". Uma carinana picou seu braço. "O braço ficô feio pra levar a breca." A vizinha Elisa Maria vem ajudar a preparar o almoço (no fogão a gás, mais rápido). Proseia-se sobre costumes da roça. A mãe de Elisa pôs nos filhos, assim que nasceram, um lacinho vermelho contra o mau-olhado. Pela mesma razão, não tirava o nenê do quarto (onde vinha ao mundo, pelas mãos da parteira) por sete dias.Maria Helena, por sua vez, sempre teve uma ferradura de sete furos atrás da porta de entrada, também contra mau-olhado (em muitas casas há um crucifixo). "Um dia achei que era bobeira e tirei." E o jeito de pôr a cama no quarto do casal? "Tem que dormir o contrário do defunto", diz Maria Helena. O defunto, depois do velório (na casa), é retirado com os pés apontados para a porta de saída. Portanto, é prudente dormir no sentido contrário - com a cabeça na direção da porta. O almoço, saboroso, está pronto. Frango inteiro, com pescoço e pés , lingüiça com cebola, chuchu (da horta), arroz e feijão. Os visitantes comem em uma mesa, em prato fundo. Amarildo, em outra. O pai, Francisco, fora da casa. Quando sai para o trabalho, leva o "emborná" (embornal), uma sacola de pano. Dentro vão o almoço num pequeno caldeirão, e a garrafa de café. Tem sua "lavorinha" (lavoura com milho, feijão...) mas também trabalha para outras pessoas. "E inda cuido de um alqueire de terra da fia (filha), e da criação (galinhas e porcos) dos netos." Nas horas de folga, pega o violão. "Onde tem dois ou três companheiros pra cantar e divertir, é muito de gostoso.''Francisco ficou lá na roça, mas muita gente que veio para a cidade continua em sua vida caipira. Maria Benedita de Godoy, de 71 anos, vive no centro, em uma pequena casa. A porta da rua fica sempre aberta. As paredes estão cheias de imagens de santos. No quarto, dois oratórios. A cozinha tem um fogão a gás, e outro a lenha. Maria só usa o de lenha. Prepara a quirela (feita com milho moído), a abóbora, cozinha a mandioca para comer com café. Só passa a roupa com "ferro de brasa", pesado. "Não costumo com outro." Tem saudades da roça. "Era muito mió qui aqui."Não são poucos, na cidade, os que falam duas línguas. Amarildo Pereira Marcos, filho de Francisco lá da roça, fala o português comum. Mas, quando se distrai, ao atender o celular, pode sair um "caipirês": "Eu tava pá roça, ce tá naonde?" As senhoras do grupo Orgulho Caipira de Lagoinha, criado por Amarildo, têm seus problemas. "Meus filhos brigam comigo porque eu digo ?ô criança, vai fechá a poortera do currá?", diz Benedita Maria de Jesus. Isso nos fins de semana, quando vai para a casa de uma filha, na roça. "Digo pra eles: ?Nasci na roça, gosto da roça, sou caipira e quero ser até morrer?.?" Outra reclamação são seus CDs de Tonico e Tinoco.Algumas mulheres do grupo procuram se corrigir. Uma diz que falava "tratar dos porco", e agora fala "dos porcos". Outra, mudou "fechá a jinela" para "fechar a janela". E uma terceira diz que não fala mais "vamu lavá os pé pra nóis dormi", porque agora fala com o jeito da cidade, e, além disso, esse antigo hábito está em desuso. Amarildo criou o Orgulho Caipira há sete anos. A banda tem viola, violão sanfona, bumbo. Os dançarinos usam a roupa colorida das festas caipiras. O professor Martins, da USP, diz que a música caipira "tem uma matriz musical rica, que nasceu erudita, criada pelos jesuítas". Uma das músicas, o cururu, "surgiu das mãos do padre Anchieta". São cantorias rituais, como as da Festa do Divino. O grupo de Amarildo canta e dança essas músicas. O catira (ou cateretê) do folclore brasileiro, o lundum, da época do Brasil colonial, a dança do sabão - esta criada pelo grupo. Os violeiros aprenderam a tocar "uns com os outros". A cidade vizinha, São Luiz do Paraitinga, com o casario tombado pelo Condephaat, o conselho estadual do patrimônio histórico, também zela pela cultura caipira e faz a Folia de Reis. Lá, um administrador de empresas que largou tudo para ser folclorista e artista plástico, Benito Campos, faz saraus e se apresenta vestido de caipira. Um dos versos que recita começa assim: "Engraçado este mundo/ de fundo tão profundo/A gente nasce, véve e tira as cria/fáis Maria, fáis Raimundo/morimbundo a gente vórta/presses zóios raso/sete parmo bem fundo/vão de terra nuchão/nestes continentes dos mundos."

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