Da rotina ao horror em só 24 segundos

Transcrição mostra que tudo ia bem até computador avisar: ''''retardar''''

João Domingos, , Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2002 | 00h00

A transcrição da caixa-preta de voz do Airbus 320 mostrou que do momento em que a aeronave tocou a pista de Congonhas até o choque com o prédio da TAM Express passaram-se 24 segundos apenas. Revelou também o drama dos que estavam na cabine, com tentativas sem êxito de controle dos instrumentos por parte dos pilotos, e, sobretudo, deixou chocados os integrantes da CPI do Apagão Aéreo, que tiveram acesso à transcrição.Em 24 segundos, o avião atravessou a pista principal do Aeroporto de Congonhas, passou sobre a Avenida Washington Luís, bateu no prédio da TAM Express e explodiu.A degravação da caixa-preta que registrou os últimos 30 minutos do vôo 3054 mostrou que tudo corria tranqüilamente a bordo do avião, que saiu de Porto Alegre com destino a São Paulo. Faltando 30 minutos para o pouso, uma comissária revelou aos pilotos que nem sabia onde a aeronave desceria. O comandante respondeu que seria em Congonhas. Ela se mostrou alegre e disse: ''''grande''''.Também pela transcrição da caixa-preta ficou claro que os pilotos foram avisados pela torre de controle de que havia chuva e a pista estava molhada e escorregadia. O comandante Kleyber Lima pareceu fazer uma reflexão ao ser informado. ''''Molhada e escorregadia!'''', comentou, em tom de exclamação.O texto da degravação está em inglês. Os deputados Rocha Loures (PMDB-PR) e Luciana Genro (PSOL-RS) fizeram o papel de tradutores. O brigadeiro Jorge Kersul Filho, do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), deu as explicações técnicas. Por exemplo: a voz que pede que o pouso seja retardado é de um computador de bordo.Luciana deu tom dramático à sua narração, a parte que se refere ao acidente, os gritos, o desespero. Quando terminou, houve silêncio geral. O presidente em exercício da CPI, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) suspendeu a sessão por 15 minutos.Ficou claro também que os pilotos sabiam que o avião tinha só um reverso. Lima pediu ao co-piloto, Henrique Stephanini Di Sacco, que não esquecesse. ''''Lembre-se de que temos apenas um reverso'''', disse, ao longo do vôo. ''''Sim, nós só temos o esquerdo'''', respondeu o auxiliar.Ao se aproximar, já sobre Diadema, o comandante avisou que estava tudo pronto para a descida. Logo em seguida, recebeu a autorização para pousar na pista principal, chamada de 35. Pediu ao co-piloto para checar seu estado. Este perguntou e a torre respondeu que estava molhada e escorregadia. A aeronave foi mantida no curso.Logo antes de o avião tocar a pista, o computador de bordo advertiu: ''''Retarda. Retarda. Retarda.'''' Quando a aeronave já se encontrava na pista, o co-piloto voltou a lembrar que havia apenas um reverso. E deu o alarme de que o sistema de freios (spoilers) não funcionava. A partir daí, houve terror.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.