Dançarino foi atingido por bala antes de morrer

Laudo de necropsia aponta que DG, como era conhecido, levou um tiro nas costas, na região lombar, que saiu pelo ombro

Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2014 | 16h30

Atualizada às 22h10

RIO - Laudo do Instituto Médico-Legal (IML) atestou que o dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, de 26 anos, foi baleado antes de morrer. A informação foi confirmada nesta quarta-feira, 24, pelo delegado Gilberto Ribeiro, da 13.ª Delegacia de Polícia, em Ipanema, zona sul do Rio. O corpo do rapaz foi encontrado anteontem no pátio de uma creche no Morro Pavão-Pavãozinho, em Copacabana.

O tiro teria atingido o rapaz pelas costas, na região lombar, e saído pelo ombro, depois de perfurar um pulmão. Segundo o laudo, havia no corpo "uma ferida com orla de escoriação e zona de enxugo, compatível com ferimento de entrada de projétil de arma de fogo", e "uma ferida com bordos irregulares e evertidos, compatível com ferimento de saída de projétil de arma de fogo".

Já a declaração de óbito do rapaz afirma que a causa da morte foi "hemorragia interna decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante do tórax".

Para Levi Inimá de Miranda, ex-chefe de Medicina Legal do Exército e perito legista aposentado da Polícia Civil, não há dúvidas de que a causa da morte foi o tiro. "O disparo foi de trás para frente e debaixo para cima, o que comprova que ele estava em um nível acima do atirador. Isso corrobora as declarações dos moradores, que disseram que a vítima estava em cima de um muro, pulando de uma laje para outra. Ao cair de uma altura de dez metros, ele provavelmente bateu a cabeça no chão, o que explica o afundamento no crânio", disse Miranda.

O entendimento do perito, o laudo de necropsia e a declaração de óbito contradizem a versão da Secretaria Estadual de Segurança. Durante o protesto de moradores do Pavão-Pavãozinho que terminou em tiroteio e confusão nas ruas de Copacabana, o órgão divulgou no Twitter que "o laudo de local apontou que as escoriações de Douglas são compatíveis com morte ocasionada por queda".

Depoimento. Após depor, a auxiliar de enfermagem Maria de Fátima Silva, de 56 anos, mãe do dançarino, disse ter certeza de que o filho foi torturado e morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). "A UPP é uma farsa, uma mentira. Meu filho não morreu de queda. Tenho certeza de que (os policiais) torturaram e mataram ele."

Maria de Fátima disse que o corpo de Douglas e seus documentos estavam molhados. "Não choveu entre a noite de segunda e a madrugada de ontem (terça-feira)." Para ela, a cena do crime foi adulterada. Moradores teriam visto PMs com luvas cirúrgicas. "Lavaram a cena do crime. E para que os PMs estavam com luva cirúrgica? Desde quando PM é perito?"

A PM abrirá um procedimento para verificar a conduta dos policiais. Segundo o coronel Frederico Caldas, coordenador das UPPs, ainda não é possível estabelecer ligação entre o tiroteio na madrugada de terça-feira entre PMs e traficantes e a localização do cadáver do dançarino na creche. Participaram do confronto oito PMs, que prestarão depoimento. Suas armas foram apreendidas.

O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) disse, em nota, que "determinou empenho total à Policia Civil". Afirmou também que "aguarda o resultado das investigações para tomar as medidas cabíveis".

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