Das ruas à honra de expor na Pinacoteca

Mostra tem obras feitas por sem-teto

Mônica Cardoso, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2009 | 00h00

Vera Regina Correa, de 59 anos, nunca tinha ido a um museu. Como mora em um apartamento com os filhos no bairro da Luz, na região central, ela gosta de passear no Parque da Luz, mas jamais havia entrado na Pinacoteca, que fica bem ao lado. Ela conheceu o museu quando foi conferir a exposição com seus trabalhos em xilogravura, técnica de fazer gravuras em relevo sobre madeira. "Fiquei muito contente. Gente por quem você não dava nada fez desenhos lindos." Vera se refere a moradores de rua ou pessoas que já estiveram nessa condição. Ela própria viveu assim por quase 15 anos. "Morar na rua é barra pesada." Nos seus trabalhos, ela desenha flores, muitas flores. Ao assinar as obras como "artistas", pessoas consideradas invisíveis pela sociedade ganham identidade com seus desenhos. E é justamente a ruptura dessa barreira o que propõe a exposição Convivência - Ação Educativa Extramuros, da Pinacoteca, que vai até 26 de abril. Por meio de uma parceria com duas casas de convivência - Casa de Oração do Povo da Rua e a Casa Porto Seguro - vizinhas ao museu, 30 participantes integraram oficinas semanais e visitaram regularmente a Pinacoteca. A artista plástica Maria Bonomi acompanhou os alunos em uma visita. Como resultado, cerca de 130 obras estão expostas na Pinacoteca. Assim como Vera, Valdemir José da Silva, de 59 anos, também nunca tinha frequentado uma exposição. Ele chegou da Bahia há dois anos, em busca de trabalho. Depois de uma experiência frustrada, sem dinheiro e moradia, foi viver nas ruas. Há seis meses, dorme no albergue Boraceia. "Fiquei surpreso quando entrei na Pinacoteca. Era um outro mundo. Até chorei quando vi nossos trabalhos. Não imaginava que a gente pudesse expor num museu", contou."A ideia é aproximar essas pessoas que estão perto do museu, mas longe da realidade dos frequentadores", avalia Gabriela Aidar, coordenadora do Programa de Inclusão Sociocultural da Pinacoteca. Na exposição, é possível acompanhar o desenvolvimento dos alunos por meio de trabalhos e de fotos. Foram várias etapas preparatórias até chegar à xilogravura. A técnica foi escolhida porque muitos alunos são migrantes nordestinos e têm familiaridade com as ilustrações de cordel, feitas desse modo. Nas primeiras aulas, os alunos fizeram imagens com recortes e colagens. Dali, passaram para desenhos e autorretratos. Aos poucos, técnicas como serigrafia e monotipia foram introduzidas até chegar à xilogravura. "É possível ver o crescimento dos participantes de forma visível, pelas obras. Mas há também o crescimento intangível, como a melhoria na sociabilidade e comunicação", analisa o professor das oficinas, Augusto Sampaio. O resultado foi tão positivo que o Banco Santander, que apoia financeiramente o projeto, vai continuar a parceria por mais um ano. Os alunos também sentem as mudanças provocadas pela arte. "Se eu não tivesse essa oportunidade, nunca saberia que poderia desenhar", diz Silva. Ele gosta de criar casas. "A casa não sai de minha cabeça. Queria muito estar junto da minha mulher e de meus filhos na Bahia."

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