Nelson Jr./SCO/STF
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Daniel Martins de Barros
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As profissões desenvolvem linguajar próprio, criando palavras e novos significados

Daniel Martins de Barros, colunista

02 de dezembro de 2019 | 03h00

Não deve ser fácil a vida dos repórteres e colunistas que, acostumados a cobrir a vida política do País, de repente sem veem obrigados a acompanhar votos de ministros do Supremo Tribunal Federal. É um dilema: para fazer isso deixam de cobrir a vida política propriamente dita - os lances partidários, as mudanças de cargo, as barganhas; mas se não voltam seus olhos para o STF também deixam de cobrir política, dado o teor das matérias que têm ido parar na suprema corte - decisões cruciais para o futuro de políticos, partidos e votações, hoje passam por ali.

O que mais me causa dó dos colegas da imprensa é imaginá-los diante da televisão, ou acompanhando in loco, sentados com bloco na mão, ouvindo por horas a fio a leitura dos votos dos ministros. Para dizer “a favor” ou “contra” eles gastam páginas e mais páginas, com um linguajar impenetrável, que os repórteres, por dever de ofício, são obrigados a traduzir em linguagem comum para reportar ao público o que está sendo ou foi dito.

A pena que tenho deles não se traduz em reprovação aos ministros em si, no entanto. Muitos criticam a forma desses herméticos discursos, que, cheios de jargão, tornam-se incompreensíveis para o cidadão comum. Eu não sou um deles. Os ministros não estão ali em princípio falando para o povo. Claro que as decisões interessam a todos por interferir com a vida nacional. Mas exatamente por isso elas - as decisões - têm que ser fundamentadas da melhor maneira possível, tecnicamente sólidas, embasadas na tradição do conhecimento jurídico, sob pena de não levarem seus efeitos a cabo. Nesse sentido eles falam muito mais aos seus pares do que ao público. É papel dos advogados, dos departamentos jurídicos, traduzir para seus clientes as implicações do que dali emana.

Claro que a sociedade tem direito de saber o que se passa nessas sessões. Mas não é dever deles facilitar a vida da audiência - sobretudo se isso implicar em perda de precisão. Nós que devemos dar nossos jeitos - mandando os pobres repórteres para lá, por exemplo.

Quando eu entrei na faculdade de medicina a professora Carla, que ensinava Geografia no ensino médio, disse uma frase que nunca esqueci: “Você vai ver como seu vocabulário irá mudar”. Ela estava certa. De saída: em anatomia existem mais de sete mil palavras descrevendo as estruturas do corpo humano - e essa é só uma das muitas matérias que precisamos aprender no curso médico. Toda profissão desenvolve seu linguajar próprio, criando palavras ou dando-lhes novos significados à medida que o conhecimento avança e deve ser transmitido entre quem atua na área. Imagine um cirurgião falando para ou outro “O corte tem que ser ali, mais para o cantinho. Não, aí não. Mais na ponta, quase naquela coisinha verde ali”. Ou psiquiatras e psicólogos discutindo um caso grave: “Acho que precisamos fazer algo. O paciente está lelé da cuca. Anda tristonho, assim meio borocoxô”.

O mesmo raciocínio serve para qualquer área do saber - quando se trata de comunicação entre os pares, a utilização de termos técnicos e do jargão é inevitável.

Claro que isso traz consequências. De tanto falar em “mediquês”, “juriquês” ou qualquer outra língua específica, muitos profissionais parecem incapazes de encontrar as palavras equivalentes na língua comum do dia a dia para explicar as questões de sua área. Quem nunca saiu de uma consulta médica sem entender exatamente qual o seu diagnóstico?

Mas não é só esse o problema. Na fogueira de vaidades que se acende em qualquer profissão, sobretudo entre os profissionais de elite, o jargão pode ser a lenha que alimenta o fogo. O uso dos termos técnicos facilmente escorrega para o abuso quando, em vez de informação, o que se quer é transmitir uma imagem de domínio da área. Quem falar mais difícil ganha.

Não sei se é o caso dos ministros do STF, até porque eu não entendo a maior parte do que é dito por eles. Mas o fato puro e simples de eu não entender não significa que eles tenham que falar mais fácil. Eu prefiro morar num prédio sólido cuja planta não consiga compreender do que numa compreensível e instável casinha esboçada em linhas simples. 

* DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA

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