''''De brincadeira, virou negócio''''

Entrevista[br]Rafael, ex-traficante[br]Após três anos vendendo ecstasy, estudante foi preso e acabou em CDP; hoje diz que só ganha dinheiro honesto

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

Apesar do nome fictício, Rafael não tem vergonha de contar como começou a vender lança-perfume a amigos do colégio, depois a traficar ecstasy e abastecer raves no interior de São Paulo, até ser preso. "Foi uma experiência de vida, que vale a pena apenas para crescer e nunca mais fazer. Ganhar dinheiro eu ganhava, uns R$ 2 mil por semana. Comecei a vender ecstasy por brincadeira, até que virou negócio. Mas também tem todo o dinheiro que gastei com advogado e o tempo que passei na cadeia."Hoje na faculdade, ele entrou aos 17 anos para o grupo dos traficantes de classe média alta. Ainda estudava em um colégio da zona sul da capital com mensalidade de R$ 1 mil, era amigo de todo mundo, morava com os pais. Em apenas um ano, já vendia dezenas de caixas de lança-perfume e revendia "balas", como o ecstasy é conhecido. "Antigamente era uma coisa mais elitizada, só a molecada que tinha grana usava e vendia", conta. "Hoje em dia tem bala na favela."Como você começou?Estava numa festinha, quando um moleque veio: "quer comprar tubo de lança-perfume por R$ 20?" Falei que não. Daí logo depois veio outro e disse: "não sabe quem tem tubos de lança para vender?" Pensei: pô, um quer comprar, outro quer vender... Aí falei: "sei sim, é R$ 25! Quer quantos?" Vendi seis. E daí começou. Quando fui ver, já tinha quatro folhas com números de telefones de pessoas que queriam comprar lança. Vendia 30 caixas por semana, 12 tubos por caixa. Comecei pela situação do acaso, não pensava nisso nem tinha má índole de querer prejudicar alguém por causa de droga. De uma hora pra outra, acabou o canal de tubo de lança (o fornecedor) e ofereceram cem balas pra ele comprar, para revender aos outros. Bala nessa época era uma coisa meio nova. Eu usava bala e também vendia.Quanto conseguia faturar? Seus pais não notaram?Dava uns R$ 2 mil por semana. Gastava em jantares caros, baladas, bebida, roupas. Gastava mesmo, até para não perceberem. Sempre fui independente. Acho que meu pai até desconfiou um pouco, mas nunca rolou nada além disso.Você vendeu ecstasy por quanto tempo até ser preso?Dois, três anos. Foi em uma operação da polícia. Tipo, o que eles queriam era dinheiro, pediram propina. Conheço uma pessoa que pagou R$ 30 mil e foi solta. Fiquei um dia no Denarc, estava sozinho e não consegui dormir. Depois fui para a delegacia. Achei que estava ferrado, que ia apanhar. Passou um tempo e fui para o CDP (Centro de Detenção Provisória). Fiquei alguns meses lá, até ser solto pelo meu advogado. Como sua família passou a te tratar depois disso?Minha família nunca me abandonou, nem os amigos, nem a namorada. Não era bandido. Fazia aquilo para ganhar uma graninha e me divertir. Nunca pensei que estivesse afetando alguém com bala, porque bala era uma droga que dava felicidade. Mas eu nunca mais quis saber de drogas. Hoje ganho minha grana fazendo o meu trabalho honesto.

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