De marchand a dona de escola pop

Isabella Prata dirige centro de cursos livres que virou sucesso nos Jardins, apesar da fachada de lojinha de rua

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

11 Julho 2009 | 00h00

Há quem faça tudo ao mesmo tempo. Exemplo: falar ao telefone, dar entrevista, bisbilhotar no computador e ainda dar instruções a assistentes. Isso sem conseguir manter os olhos longe do relógio. É exatamente esse o ritmo, quase irritante, da paulistana Isabella Prata, dona de um dos centros mais descolados de ensino livre da cidade, a Escola São Paulo, que funciona despretensiosamente numa portinha da Rua Augusta, nos Jardins. Com uma fachada que mais parece vitrine de loja, a escola reúne destacados profissionais das artes, da moda e do cinema, que administram cursos ali, como a estilista Glória Coelho, o cineasta Philippe Barcinski e a chef Andrea Kaufmann. "Os que ensinam na escola não são catedráticos, mas profissionais que passam a experiência prática, as dificuldades e as necessidades do mercado no momento", diz Isabella. "Os jovens não precisam trabalhar 20 anos para descobrir certas coisas. Essas experiências podem ser passadas já." A escola virou um sucesso. Tem 2 mil alunos por ano, o que não é pouco para um local de apenas quatro salas, uma biblioteca pequena e uma salinha de exposição. "Há outros centros de cultura na cidade, como a Casa do Saber e o Espaço Gafanhoto, mas nenhum deles tem uma linguagem tão pop como a Escola São Paulo", explica Antonio Prata, escritor, filho de outro escritor, Mário Prata, primo de Isabella. "Ela transmite o conhecimento sem pompa ou reverência." E a escolha do endereço para a sede da escola, a Rua Augusta, tinha tudo a ver com isso. "Queria um ponto democrático, perto de metrô, com ônibus passando na porta", diz Isabella, que sobe e desce a Rua Augusta como se fosse uma garota de uma das tribos da região. E se ela fosse de uma tribo - a julgar pela bota flat de cano curto, a pulseira de couro, a calça legging e o vestido, tudo preto - estaria mais para punk. MARCHAND Mãe de Ivan, de 22 anos, e Luiza de 20, é casada com o economista Idel Arcuschin, de 49 anos, diretor da empresa Carta Editorial. "Estamos juntos há 25 anos", orgulha-se Isabella que, apesar da aparência despojada e fashion, vira sempre foco dos fotógrafos das colunas sociais. "Isabella é uma das grandes colecionadoras de arte contemporânea da cidade", diz a galerista Luisa Strina, conselheira da Escola São Paulo. "Ela tem olhar especial. Sabe tudo que é on the edge", diz o mecenas e também colecionador Kim Esteves, ao se referir à qualidade da moça de antecipar as tendências. Antes de abrir a escola, Isabella dedicava-se exclusivamente às artes. "Tinha uma produtora de eventos culturais. Foi uma das primeiras na cidade", conta. "Na época não havia internet e o mundo não era globalizado. Viajava - sempre viajei muito - e via que muitas coisas que estavam fazendo sucesso lá começavam a surgir aqui." Foi assim que trouxe artistas que nunca tinham feito exposições no Brasil, caso de Mario Testino, Richard Prince, Matthew Barney, Felix Gonzales Torres, Cindy Sherman, Mapplethorpe. "Desde muito jovem, ela sabe identificar um bom trabalho. Percebi isso na primeira vez que ela entrou em minha galeria", diz Luisa. "Com uma carinha ainda de criança, ela comprou de cara uma das minhas melhores obras. Era uma quadro do Cildo Meireles (artista conceitual com fama internacional), na época só conhecido pelas pessoas da área." Pouco depois, Luisa convidou Isabella para trabalhar numa feira de arte na Suíça. Lá, ela fez muitos contatos. Isso foi na década de 1980. Juntas, organizaram exposições inéditas como a de Matthew Barney e Félix Gonzales. "No dia em que Félix morreu (9 de janeiro de 1996, de complicações provocadas pela aids), as obras dele estavam aqui em exposição." ANO SABÁTICO Há seis anos, Isabella achou que estava na hora de mudar o foco. Tirou dois anos sabáticos, para se dedicar a ioga, meditação e ao terceiro setor. "Não foi a primeira vez que mudei o rumo da minha vida", conta. Isabella começou a trabalhar aos 13 anos, ensinava flauta doce a crianças carentes, e continuou até os 20, quando, depois de muitos anos de música, achou que não queria seguir carreira. Pensou então em Pedagogia, prestou vestibular para Comunicação Visual, na Fundação Armando Álvares Penteado, largou o curso e foi para o mercado das artes. "Meu sonho sempre foi ter uma escola", conta. "Isabella tem uma vasta cultura. Colocou na escola tudo o que ela gosta para a vida dela", diz a estilista Glória Coelho, que duas vezes por ano dá um curso na Escola São Paulo de como desenvolver uma coleção para uma fábrica. "Arte, cinema, fotografia, moda e atualidade é tudo que ela gosta e entende. Por isso, a escola faz sucesso." Sabe por que ela sempre está plugada, fazendo mil coisas ao mesmo tempo? "Ela não quer perder nada que acontece. Quando fica sabendo que tem uma exposição na Europa imperdível, pega o avião e vai", conta Glória. Ela não quer estar por fora de nada que se passa no exterior, no Brasil e principalmente na sua escola. "Estou sempre em contato com os alunos. Quando surge um assunto que lhes interessa, abro um curso aqui na escola." Foi assim que surgiu o de sustentabilidade. "Ela tem um pique incrível", diz o primo Antonio. "Ela faz uma espécie de rock-and-roll do conhecimento." Talvez seja por tudo isso que Isabella Prata hoje é membro da comissão de aquisições de obras do Tate Modern, a mais importante galeria de arte moderna do Reino Unido.

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