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De que lado você está?

Defendemos um ponto de vista não por considerá-lo o certo, mas por ser o nosso

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2018 | 03h00

Não é preciso que as pessoas admitam infringir as leis de trânsito para nós sabermos que praticamente ninguém as respeita totalmente. Uma faixa de pedestres queimada aqui, um farol amarelo (meio laranja, de tão perto do vermelho) ali, uma ultrapassagem pela direita acolá. Nada muito imprudente, coisas que, as estatísticas mostram, quase todo mundo faz. A gente sabe que faz essas coisas erradas. O curioso, e que sempre me intrigou, é como no momento em que algo dá errado e acontece um acidente, por mais tolo que seja, parece que os infratores automaticamente esquecem que não estavam andando na linha. A briga está armada.

Cada um acusa o outro de estar errado e na tentativa de ganhar a discussão distorcem a realidade, tentando defender o indefensável. 

Com a idade – e com acúmulo de horas de voo – percebi que era a mesma coisa que acontecia nos relacionamentos. Observe de fora (ou de dentro, se conseguir manter o sangue frio no calor da hora) uma discussão de casal. Um dos dois, ou frequentemente ambos, pisam na bola e se põem a conversar sobre a situação. Mas, no exato momento em que o diálogo assume um ar de debate, automaticamente qualquer tom conciliatório cai por terra e é cada um querendo provar que estava certo. Sempre senti que isso era feito de forma meio inconsciente, quase que como uma reação de defesa automática – parecia-me que independentemente do lado em que estamos, sempre conseguimos argumentar a favor dele. 

Pois é exatamente isso que acontece. Quando você está acaloradamente discutindo não defende seu lado por achar que ele é o certo. Ao contrário, acha que é o certo por estar desse lado. Se parece estranho, vale a pena conhecer os experimentos sobre o tema. Há pouco mais de uma década, dois pesquisadores de Harvard bolaram um experimento engenhoso para testar se isso era verdade. Eles apresentavam duas fotos para que voluntários escolhessem qual era mais atraente. Uma vez feita a escolha, os cientistas a entregavam nas mãos do sujeito para que ele olhasse novamente e explicasse o porquê de sua decisão. Sem saber, contudo, eles recebiam a outra foto, que não haviam escolhido. Quantos notaram a troca? Menos de 20%. A maioria absoluta não notava a mudança e passava a argumentar por que aquela pessoa era mais atraente em sua opinião.

Incrível? Mas a coisa não para por aí. O mesmo tipo de truque foi realizado anos mais tarde com geleias e chás. Os voluntários provavam o alimento e escolhiam seu preferido. Em seguida era-lhes dada uma nova amostra, para que degustassem com atenção e defendessem sua escolha. Nessa etapa o sabor era trocado sem que eles soubessem, e dois terços das pessoas não sentiam a diferença de sua escolha original, passando a argumentar a favor do sabor que não haviam preferido.

Agora mais inacreditável ainda foi o resultado de uma pesquisa feita esse ano por cientistas suecos, testando posturas políticas. Os voluntários respondiam a questões sobre sistema de saúde, educação e meio ambiente, dizendo se concordavam ou não com afirmações de inclinação liberal ou conservadora. Da mesma forma que nas outras pesquisas, a resposta era manipulada, e pedia-se para que explicassem as razões de suas escolhas. Metade dos voluntários notou o truque. Mas a metade que não notou acabou realmente mudando de opinião. Sobretudo quando – sem saber – defendiam uma postura oposta da que originalmente escolheram, as novas opiniões se mantiveram ao longo de uma semana, quando foram entrevistados novamente.

Antes que você diga que estaria nas minorias que perceberam tais manipulações, pense em suas últimas discussões. Em casa, no trabalho, ou – tomara que não – no trânsito. Hoje, com a cabeça fresca, considere o outro lado da questão. Será que seus opositores não tinham um ponto? Será que você tinha tanta razão como defendeu no auge da querela?

Não é um exercício fácil. Mas vale a mensagem. Na próxima discussão em que entrar lembre-se que estar de um lado não significa que ele é o certo. Às vezes ele só parece certo por ser o nosso. 

*É PSIQUIATRA

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