Dida Sampaio
Dida Sampaio

De volta ao que um dia foi lar

Marinalva dos Santos Salgado, 45 anos, agricultora, moradora de Bento Rodrigues, que teve sua casa soterrada

Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Marinalva dos Santos Salgado, 45 anos, agricultora, moradora de Bento Rodrigues, teve a casa completamente soterrada pela lama. Ao fugir da inundação, Nalva levou apenas a roupa que tinha no corpo. Dois anos depois da tragédia, ela não conseguiu recuperar nenhum objeto pessoal. Ainda tem esperança de achar um caderno deixado por seu marido três dias antes de morrer.

Nalva nos guia em silêncio pelas ruas do antigo vilarejo de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, destruído após o rompimento da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, há dois anos.

Na cidade fantasma, monocromática, cor de lama, o único barulho que se ouve é o dos passos. Uma rajada de vento faz farfalhar a vegetação. Uma folha de amianto bate contra uma janela quebrada, aumentando a sensação de desterro.

“Aqui era o bar do meu pai”, ela aponta para as ruínas de uma construção de esquina, com um balcão afundado. “Essa casa do lado também era do meu pai, pra aluguel”. Nalva segue pela estrada de terra. “Aqui era o posto de saúde e, logo ali depois, a escola”.

É difícil distinguir a vila descrita por Nalva entre paredes semienterradas na lama, ferro retorcido, eletrodomésticos abandonados e uma vegetação rasteira que se espalha descontrolada. O pouco que foi poupado pela lama não sobreviveu aos saques registrados nos dias subsequentes. Mas ela continua gravada em sua mente.

“Atrás desse tapume é a igreja”, conta ela, se referindo à Igreja de São Bento, construída originalmente em 1718 e destruída pela lama. “Aqui eu fui batizada, batizei meus filhos e meus netos.”

O acesso às ruínas do templo é restrito. Funcionários da Fundação Renova estão por ali, trabalhando. Nalva pergunta: “Já acharam o sino?”. Diante da negativa, ela prossegue: “E a Nossa Senhora?” Nada também. “Ela é toda de ouro, mas a gente pintou ela para não ser roubada. Se alguém levar, nem vai saber o valor que tem”, explica.

Nalva levou três meses para ter coragem de voltar a Bento Rodrigues depois do rompimento da barragem. O dia da tragédia, diz, não sairá nunca mais de sua mente. Não houve alarme, nem aviso antecipado, só a lama chegando e varrendo tudo.

“Eu estava ali, no ponto do ônibus, quando ouvi o barulho ”, ela mostra uma esquina empoeirada. “Sai correndo até a minha casa, que ficava ali adiante, mas, quando eu cheguei lá, a lama já entrava pelas janelas. Só deu tempo de sair correndo.”  Para ela, só não morreram mais pessoas por conta da interferência divina – foram quatro mortos em Bento. “Foi Deus”, constatou. “Não era pra ter ficado ninguém vivo aqui.”

No lugar onde ficava a casa de Nalva, existe apenas mato seco. Não sobrou mais nada. Nenhum vestígio da construção, onde ela viveu por décadas com o marido, os filhos e os netos, dividindo o quintal com mais duas casas, dos pais e do irmão. Hoje, vivem todos em Mariana, separados.

“Tem uma coisa que eu queria achar aqui, só uma coisa: uma agenda”, ela fala. “Nem te conto a história dessa agenda. Meu marido que deixou pra mim. Ele viajava muito a trabalho, estava doente, mas não me contou, não tinha coragem de falar por telefone. Mas ele sabia que ia morrer. Ai ia escrevendo na agenda o que estava acontecendo. Quando voltou pra casa, me deu a agenda. Morreu três dias depois.”

Por isso, explica, nenhum morador pretende ceder o terreno  à mineradora Samarco após o reassentamento, como chegou a ser proposto. “As ruínas são nossas”

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.