Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Debandada de vereadores do PSDB fragiliza Alckmin e dá força a Kassab

Saída de pelo menos cinco tucanos foi anunciada ontem, reduzindo bancada que era de 13 ao menor número desde 2001; grupo alega perseguição no PSDB por ter apoiado o prefeito na eleição de 2008, quando governador sequer chegou ao segundo turno

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2011 | 00h00

Cinco vereadores do PSDB de São Paulo anunciaram ontem a saída do partido. Dois ainda estão em dúvida se tomarão o mesmo caminho. Numa movimentação que fortaleceu o prefeito Gilberto Kassab e agravou a crise dentro do grupo político liderado na capital pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), os tucanos deixaram de ter a maior bancada na Câmara Municipal pela primeira vez desde 2001.

Além de passar das atuais 13 para 8 cadeiras no Legislativo paulistano, o PSDB também assistiu seu principal adversário político na cidade, o PT, a tornar-se a maior bancada: 11 parlamentares. A saída dos tucanos foi marcada por críticas às lideranças do diretório municipal da sigla. Eles se disseram perseguidos por terem apoiado Kassab na eleição municipal de 2008 - Alckmin, sem apoio da bancada tucana à época, não conseguiu nem disputar o segundo turno.

"O PSDB tem hoje um projeto de poder que foge dos princípios que nortearam a fundação do partido", argumentou o presidente da Câmara, José Police Neto. Aos 37 anos e filiado ao PSDB desde os 15, Police Neto deve aderir nos próximos dias ao PSD, o novo partido criado por Kassab. A sigla também deve ser o caminho de pelo menos outros três ex-tucanos com cargos na administração municipal - Juscelino Gadelha, Ricardo Teixeira e Dalton Silvano adiantaram ao prefeito, durante o fim de semana, que devem se filiar à nova sigla.

No anúncio ontem, compareceram cinco vereadores. Adolfo Quintas e Souza Santos não puderam ir, segundo Police Neto. Mas o líder do PSDB, vereador Floriano Pesaro, disse ter esperanças de mudar a posição da dupla ausente com o auxílio do governador Geraldo Alckmin, que tem se empenhado na negociação (leia texto abaixo).

"Oficialmente perdemos cinco. Estamos conversando com o Quintas e com o Santos para tentar reverter essas duas saídas", afirmou Pesaro, ligado ao ex-governador José Serra.

Indignação. Um dos fundadores do PSDB, o vereador Gilberto Natalini diz ter sido transformado em um político "de segunda classe" pela atual direção do partido, comandado pela ala alckmista ligada ao ex-secretário estadual de Gestão Pública, Julio Semeghini.

"Um partido não pode ignorar uma bancada com 13 vereadores. Mas foi isso que o PSDB fez com a gente. Essa facção que comanda o diretório municipal tem destratado os vereadores desde 2008. Nos tratam como moleques, muitas vezes nos tratam até como se fôssemos sem caráter", disparou Natalini.

Segundo o ex-tucano, o estopim da crise foi um vídeo gravado dentro da Câmara, durante uma reunião na quinta-feira entre vereadores tucanos e lideranças do diretório municipal. Nele apareceriam o secretário estadual de Energia, José Aníbal, e outros integrantes do diretório xingando os vereadores que pleiteavam a presidência do partido em São Paulo. "Não vamos divulgar o vídeo, ele vai ser nosso argumento jurídico para a desfiliação", falou Natalini.

Para Silvano, que ocupou a vice-presidência da Câmara, indicado pelo PSDB, entre os anos de 2008 a 2010, o partido se afastou das causas populares e dos movimentos sociais. "Estou muito chateado, fomos forçados a tomar essa decisão. Não estamos felizes hoje, tentamos de todas as maneiras evitar essa saída."

Serra em 2012. Com a debandada de vereadores tucanos e o consequente aumento na musculatura política do partido fundado por Kassab, lideranças do PSDB já dizem que José Serra precisa ser o candidato a prefeito na eleição de 2012. "Os vereadores são importantes e decisivos cabos eleitorais numa eleição para a Prefeitura. Se não for o Serra, vamos assistir de camarote, de novo, a um segundo turno entre o PT e o candidato do Kassab", admitiu ontem um secretário alckmista.

A mesma opinião tem o líder do PSDB na Câmara. "Sem dúvida, hoje o nosso melhor nome seria o Serra", afirmou Pesaro. A amigos e líderes do partido, porém, Serra tem dito que não quer concorrer. Ele prefere esperar o rearranjo das forças de oposição para se viabilizar como presidenciável novamente em 2014.

Com uma base governista formada hoje por 31 dos 55 vereadores, Kassab diz ter algumas opções para sua sucessão, entre elas o atual vice-governador Afif Domingues, o próprio presidente da Câmara e o secretário Eduardo Jorge (PV).

Apontado como um dos pivôs da crise com a bancada, Semeghini divulgou nota na qual acusa os vereadores de usarem "desculpas pessoais" para deixar o PSDB. "Fica claro, agora, não ser apenas coincidência que o anúncio coletivo de debandada aconteça simultaneamente à criação de um novo partido. É uma pena", informou. Reitera, porém, que está mantido o acordo de ceder a secretaria-geral do partido ao grupo de vereadores. Procurado, José Aníbal afirmou que não comentaria a saída.

Acordo

JULIO SEMEGHINI

PRESIDENTE DO PSDB MUNICIPAL

"O acordo feito atende 100% de suas reivindicações (dos vereadores) - o cargo de secretário-geral continua valendo - e, independentemente das saídas dos vereadores do PSDB, será ratificado"

PARA ENTENDER

Sem Serra, rompimento já era esperado

A saída dos cinco vereadores do PSDB - que podem ir para sete - rumo ao PSD do prefeito Gilberto Kassab é apenas mais um capítulo do esfacelamento do campo político antipetista de São Paulo, que orbita desde 2004 em torno do ex-governador José Serra.

É natural supor, assim, que somente uma nova candidatura de Serra a prefeito poderá unir automaticamente o PSD de Kassab e os tucanos, agora liderados pelo governador Geraldo Alckmin.

O movimento desses cinco vereadores, diz um secretário de Alckmin, significa que "Kassab levou o que já era dele desde 2008". Naquele ano, a bancada da Câmara deixou de apoiar Alckmin na disputa eleitoral com Kassab, e ficou com o prefeito. Em fevereiro, quando Kassab negociava sua ida para o PMDB, sete vereadores (justamente o número inicial anunciado ontem) já pareciam dispostos a segui-lo.

O rompimento não se deu antes porque em 2009 e 2010 havia Serra instalado no Bandeirantes para manter os dois grupos no mesmo lado.

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