Breno Pires/Estadão
Breno Pires/Estadão

Decepção com Bento XVI deixa comércio de Aparecida indiferente à visita do papa Francisco

Comerciantes dizem que arrecadação é melhor em fins de semanas sem atrações especiais

Breno Pires, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2013 | 14h36

APARECIDA  - Bento XVI ainda não saiu da lembrança dos comerciantes de Aparecida, em São Paulo. Muitos reforçaram os estoques de artigos religiosos e alimentos na visita do então papa ao Santuário Nacional em 2007. Em vão. A multidão de fiéis e romeiros não consumiu o esperado, e o investimento não foi compensado. Por causa dessa decepção, muitos lojistas e vendedores locais não acreditam que a vinda do papa Francisco, no dia 24 de julho, proporcionará um boom nas vendas. O papa participará no Rio de Janeiro da Jornada Mundial da Juventude.

O ceticismo entre comerciantes contraria a esperança de que o primeiro papa latino-americano possa atrair mais fiéis do que o seu antecessor, por ser mais carismático e identificado com os pobres. A Prefeitura de Aparecida trabalha com perspectiva de receber até 400 mil pessoas, mas a administração da Basílica de Aparecida estimou o número em cerca de 200 mil.

Houve desperdício de alimentos na passagem do último papa, segundo o gerente de uma franquia internacional do ramo alimentar, Anderson Fabiano, de 35 anos. "As lojas jogaram toneladas de frango e carne fora. Houve prejuízo para muitos", disse.

As garrafas de água compradas por Ida Marcondes, de 53 anos, para a sua lanchonete na visita de Bento XVI levaram meses para serem vendidas. Ela diz que há publicidade excessiva e pessoas, com medo de tumulto, desistem da viagem. "É muita propaganda feita e as pessoas sabem que terão dificuldades como o congestionamento da (Rodovia Presidente) Dutra", afirma.

 

 

"As pessoas vêm mais para ver o papa, e não para comprar", afirma a gerente de um quiosque de venda de alimentos, Dora Diniz, de 38 anos. "A pessoa pensa que vai vender uma coisa absurda, mas não vai."

Entre lojas e barracas que vendem artigos religiosos, a imagem do papa Francisco já é explorada, mas ainda de forma tímida, em variedade e quantidade pequenas. "A gente trouxe alguns produtos, medalhas e terços relacionados. Esgotaram, mas estão vindo mais", diz a lojista Fátima Cristina. Ela admite, porém, que os produtos são vendidos naturalmente, e não por causa da vinda do papa. "Não vai ser preciso aumentar o estoque especialmente para isso", diz, apesar de torcer por mais público.

 

 

Vendedora do sorvete "Itu", comercializado aos montes na cidade, Renata Sampaio, de 23 anos, diz que não trocaria os lucros da vinda do papa pelos de um fim de semana normal. "Ainda bem que o papa vem em uma quarta-feira, para não afastar os clientes do domingo", diz.

Para o comércio, a elevação natural do fluxo de turistas no mês de julho devido às férias é um fator favorável mais concreto do que a presença do papa. "Julho é sempre muito bom para a gente por ser um mês de férias, é certeza de mais lucro", afirma Dina Souza, gerente de um restaurante próximo ao santuário.

Independência. Por trás da indiferença alegada por alguns comerciantes quanto à vinda do papa Francisco, existe um outro aspecto: a constatação de que a economia de Aparecida já é sustentada pelo turismo religioso, que atrai um número enorme de visitantes independentemente de ocasiões especiais. Em 2012, o número de turistas saiu da casa dos 10 milhões e chegou a 11,6 milhões, cerca de 1 milhão por mês.

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Aparecida, Angelo Reginaldo Leite, afirma que, só no fim de semana do Dia das Mães, houve 180 mil visitantes – e maio ainda não é um mês de pico de comparecimento. "Aqui não precisa vir papa nem celebridade. A imagem (de Nossa Senhora de Aparecida) sempre está lá para ser louvada", afirma Leite. "Como a visita do papa vai ser um dia só, a gente acha que vai ser uma invasão, mas será como um fim de semana", diz.

Segundo o Sindicato de Bares, Hotéis e Restaurantes da cidade, 65% das 33 mil vagas de hotéis da cidade já estão reservadas para o dia 24 de julho. Há cinco mil novos leitos em comparação com 2007, ano da última visita papal. O número atual de leitos é quase o mesmo do de habitantes, 36 mil.

Um dos novos hotéis, o Rainha do Brasil, construído pelo próprio Santuário Nacional e inaugurado em setembro passado, tem reservas esgotadas de 18 de julho até o fim do mês. São 330 apartamentos, que podem comportar uma, duas ou três pessoas. Já o Hotel Central, na Praça Nossa Senhora de Aparecida, onde fica a antiga Igreja de Aparecida, ainda não faz reservas para a data, segundo um recepcionista.

"Fazer uma crítica em termos comerciais a Aparecida é até pecado", afirma Ernesto Elache, presidente do Sindicato de Bares, Hotéis e Restaurantes da cidade. "Você não tem que investir para o turista vir e consumir. Ele vem espontaneamente. A única coisa necessária é abrir o comércio e ganhar em cima", argumenta.

Anticlímax. Existe uma ideia recorrente em Aparecida de que as datas especiais inibem muitos visitantes por medo de superlotação. Até o 12 de outubro, dia de Nossa Senhora de Aparecida, estaria sujeito a isso.

O secretário de Administração de Aparecida, Domingos Léo Monteiro, reconhece: eventos chamativos podem gerar o que ele descreve como "anticlímax". No entanto, afirma, a prefeitura espera um público bastante elevado.

"Pode acontecer o que aconteceu nas outras vezes, um anticlímax, as pessoas imaginam que muita gente vai e desistem, mas a prefeitura está trabalhando para receber até 400 mil pessoas", disse Domingos.

Quatrocentas mil pessoas em um único dia seria um número acima da média, mas não superaria um fim de semana agitado, quando a cidade recebe entre 400 e 500 mil pessoas, segundo o secretário de Administração de Aparecida. Com relação ao prejuízo alegado por comerciantes na última visita papal, Domingos diz que o número esperado de visitantes pode ter sido superestimado e que os estoques consideraram a presença papal por mais de um dia.

 

 

Um dos dois prefeitos de igreja da Basílica de Nossa Senhora de Aparecida, Irmão Viveiros, diz que a expectativa da igreja é receber por volta de 200 mil pessoas. A basílica tem capacidade para, no máximo, no aperto, 40 mil fiéis, segundo Viveiros. Por isso, o Santuário Nacional espera que a missa a ser realizada pelo papa Francisco aconteça no pátio externo. "Se a missa for na Tribuna Bento XVI, teríamos muito espaço e poderíamos receber um número infinitamente maior", disse.

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