Decisão pacifica DEM, mas campanha ainda procura um rumo

Os mestres da política ensinaram que não se exerce o ofício com o fígado, mas com inteligência e estratégia. Tudo o que faltou ao PSDB nesse contexto de escolha do vice de José Serra. A começar pela tentativa de os tucanos armarem um casamento de conveniência, no qual a noiva não aparece em público, não priva da intimidade do parceiro, mas entra com o patrimônio - no caso, eleitoral.

Análise: João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2010 | 00h00

A definição que poderia ter saído antes, de forma discutida e estratégica, surge tardiamente, com a marca do improviso e com um só efeito palpável, pelo menos por ora, que é o de sacramentar a aliança com o DEM.

Não saiu antes por duas razões: a divisão interna do DEM, que jamais propusera um candidato a vice, e a rejeição do PSDB ao parceiro. Desde a saída de cena do ex-senador Jorge Bornhausen, em favor de uma estratégia de rejuvenescimento do partido, o DEM não encontrou mais unidade.

Ungido presidente da legenda, o deputado Rodrigo Maia (RJ), filho do ex-prefeito do Rio, César Maia, é porta-voz de apenas uma ala do partido e não obteve consenso em torno de um nome para levar ao PSDB. Além disso, desenvolveu uma aversão - que é recíproca - com José Serra, inviabilizando uma interlocução do partido com o candidato. Por sua vez, José Serra - para quem o vocábulo "direita" é o mais feio do dicionário político - agiu como quem encontrou numa relação indireta com o DEM, exercida através de interlocutores comuns, uma zona de conforto com a qual se satisfez.

Foi nesse contexto que um grupo do PSDB emplacou uma chapa puro-sangue que contraria a lógica das alianças, que é a de somar forças. Assim, impôs ao DEM, no vácuo de poder que se instalou na campanha, um nome anunciado no Twitter pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson. A despeito do envolvimento de Jefferson no mensalão do PT, o PSDB abrigou o petebista na aliança sem o constrangimento que demonstrou ter com o DEM.

A crise aberta com a indicação do senador Álvaro Dias (PR) despertou no PSDB o instinto de sobrevivência que superou a notória submissão do partido, e de seu candidato, ao patrulhamento ideológico que o PT - que desfila escancaradamente com Sarney, Renan, Collor e outros - cobra aos demais, mas não aplica a si próprio. Jovem, Índio da Costa não teve tempo de construir uma biografia política. Tem no seu currículo o mérito recente da relatoria vitoriosa do projeto da Ficha Limpa, que já diz algo positivo sobre ele. Mas é duvidosa a afirmação de que possa agregar votos a Serra fora do Rio, sua base eleitoral.

Muita coisa tem de ser arrumada ainda na estratégia do PSDB, mas o fim da novela do vice deixou claro que o candidato precisa assumir o comando da sua campanha e o passado positivo de seu partido, que construiu a estabilidade da economia. Já há quem esteja convencido de que Lula disse o que não queria ao anunciar uma disputa comparativa de seu governo com o do PSDB.

Ao aceitar a provocação, os tucanos excluíram de sua campanha o que têm de melhor - a paternidade dos fundamentos econômicos, mantidos pelo governo do PT, e, por extensão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de cujo poder debatedor Lula está poupado. Renegar feitos, ou admiti-los constrangidamente, é uma escolha equivocada que pode fazer de Serra "o melhor presidente que o Brasil jamais teve", como brincou a revista britânica The Economist.

É DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

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