Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

Declaração de óbito de vítimas em Brumadinho cita 'evento' e parentes protestam

Palavra associada a festa causou revolta em pessoas que perderam entes queridos com o rompimento da barragem. 'Não era festa. Foi um colapso', ressalta pesquisadora

Renata Batista e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2019 | 03h00

Moradores do Córrego do Feijão denunciaram na tarde desta quarta-feira, 6, ao Ministério Público que o atestado de óbito de muitas das vítimas do colapso da barragem apresentava, como local da morte, a inscrição “evento em Brumadinho”. Na região, a palavra evento é usada apenas para festas e o termo magoou os parentes das vítimas.

“Já pedimos ao Ministério Público que nos ajude a resolver esse problema. Eles não estavam em um evento. Estavam em casa, trabalhando", disse Adilson Lopes, representante da comunidade na comissão que representa as vítimas.

Lopes conta que pelo menos cinco atestados de óbito de moradores da localidade vieram com essa declaração. Segundo ele, restam 14 moradores desaparecidos, entre os quais seu pai. Os moradores esperam que o Instituto Médico Legal (IML) altere essa informação.

“Já no primeiro dia em que os atestados foram expedidos a gente tinha recebido relatos assim”, contou a defensora pública do Estado Carolina Morishita Mota Ferreira. “As certidões mais recentes já estão vindo com uma adequação.”

A defensora explicou que o problema já tinha acontecido no rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, onde ela também atuou. “Ocorre que no interior de Minas Gerais a palavra evento está muito relacionada à festa e o uso desse temo já tinha sido discutido no caso de Mariana”, contou ela. “Lá, ficou acertado que usamos a palavra rompimento ou desastre, mas nunca evento.”

A defensora presenciou a reação fortemente emocional de moradores do Córrego que receberam atestados de óbito com essa inscrição. “Uma senhora, quando viu o atestado de óbito do marido, ficou num estado emocional muito delicado, ela ficou muito nervosa”, disse Carolina.

De acordo com a pesquisadora Karine Gonçalves Carneiro, do Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que também estava na reunião, o fato gerou muita dor e revolta. “Não tinha ninguém em evento nenhum, não era uma festa, nada disso. Foi o colapso de uma barragem”, explicou a pesquisadora.

 

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