Polícia Civil
Polícia Civil

Declarações de Bebianno sobre ação de milícia na saúde causam estranheza entre especialistas

Futuro ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República afirmou que pessoas que precisam de tratamento têm de 'pegar senha com milicianos, que determinam quem vai ser atendido ou operado'

Roberta Jansen / RIO e Tânia Monteiro / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2018 | 20h40

Autoridades de Segurança do Rio e especialistas na área estranharam as declarações feitas pelo futuro ministro da secretaria-geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, sobre uma intervenção em hospitais federais do Estado por conta de uma suposta atuação das milícias. Não há nenhum registro oficial da ação de grupos paramilitares em unidades de saúde. O futuro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, porém, reiterou a existência do problema.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Bebianno afirmou na quinta-feira, 20, que o governo de Jair Bolsonaro pretende fazer uma “intervenção imediata”  nesses hospitais. “Chega ao ponto de as pessoas que precisam de tratamento terem de pegar senha com milicianos, que determinam quem vai ser atendido ou operado”, disse. 

Bebianno não citou o nome de nenhum hospital nem apresentou relatos ou provas sobre a denúncia. De acordo com o Ministério da Saúde, existem três institutos nacionais no Rio (de Cardiologia, do Câncer e de Traumatologia), além de seis hospitais federais: Hospital Federal da Lagoa e Hospital Federal de Ipanema, na zona sul, Hospital Federal do Andaraí, na zona norte, Hospital Federal dos Servidores do Estado, no Centro, além de Hospital Federal Cardoso Fontes e Hospital Federal de Bonsucesso, na zona oeste - tradicionalmente, a área de atuação da milícia. O ministério informou que desconhece a ingerência de milícias nessas unidades.

“Temos informações oficiosas de que, como tudo no Rio de Janeiro que se deteriorou nos últimos anos, com corrupção, prisões e ações indevidas, até mesmo o acesso a determinados hospitais e serviços, passa por algum tipo de intermediação, de atravessadores entre o cidadão e o hospital”, declarou Mandetta nesta sexta, 21, sem saber especificar se essa atuação era comandada por milícias.

Mandetta afirmou ainda que pediu informações à equipe de intervenção sobre o caso. “Como lá (Rio), o governo federal tem seis hospitais e três importantes institutos de seria de muito bom tom que se nós começássemos mostrando a vontade de mudar, agindo dentro da própria estrutura da União”, declarou o futuro ministro. Até as 20h30 desta sexta, o Gabinete da Intervenção não havia dado resposta sobre a questão.

A Secretaria de Segurança do Rio informou que nunca teve conhecimento da atuação de milícias em hospitais. A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), que investiga as milícias, disse que jamais recebeu qualquer denúncia neste sentido. A Draco, inclusive, fez um apelo a quem tiver evidências nesse sentido, que procure o Disque-Denúncia.

Especialistas

A cientista política Sílvia Ramos, do Centro de Estudos da Violência da Universidade Cândido Mendes, ressaltou que “desconhecimento não é prova de nada”, mas que também nunca ouviu falar desta atuação. “As acusações são muito graves e envolvem o sistema de saúde”, sustentou. “Mas nunca soube de atuação de milícias nessa área.”

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) e o delegado Vinícius George, que coordenaram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias, tampouco têm conhecimento dessa área de atuação das milícias. Autores do livro No Sapatinho: A Evolução das Milícias no Rio, Thais Duarte e Ignacio Cano também revelaram desconhecimento sobre o tema. “Eu nunca ouvi falar disso”, afirmou o sociólogo do Laboratório de Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que também é autor do livro Segurança, Tráfico e Milícias no Rio. “Me parece algo muito sofisticado para os milicianos”, acrescentou. 

O que são as milícias?

As milícias atuam tradicionalmente na zona oeste. Recentemente, começaram a expandir seus domínios para a Baixada Fluminense. Os grupos paramilitares são formados, em geral, por policiais, bombeiros e agentes carcerários. As atividades englobam a exploração de gás, transporte pirata, cobrança de taxas para camelôs e comerciantes. Eles também, reconhecidamente, atuam na grilagem de terras e na exploração do saibro. Há uma forte suspeita de que milicianos estejam por trás da morte da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.