Defeito impediu caixa-preta de registrar diálogos do vôo

Essa foi só uma das irregularidades apontadas pelo Cenipa na Team, que culpa piloto e controle

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

Depois da coleta dos destroços e das caixas-pretas do bimotor da Team Linhas Aéreas acidentado em março de 2006, peritos da Aeronáutica descobriram uma série de irregularidades cometidas pela empresa. Ao tentar ouvir os diálogos registrados no gravador de voz do avião nos laboratórios do National Transportation Safety Board (NTSB), nos Estados Unidos - os mesmos que decodificaram há três meses a caixa-preta do Airbus A320 da TAM -, eles perceberam que as conversas se referiam a outro vôo, anterior ao acidente. Os equipamentos, então, foram enviados para a Let Aircraft Industries, fabricante do avião, com sede na República Checa. Os laudos encaminhados ao Cenipa mostram que a correia usada para o acionamento do gravador de voz deveria ser da cor laranja e metálica. A encontrada pelos peritos era preta e de borracha. Além disso, o compartimento da fita metálica de gravação dos dados não estava girando adequadamente. Mais: os sensores ópticos apresentavam pane desde 2003. A análise das autorizações e certificados exigidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) trouxe novas revelações. Descobriu-se, por exemplo, que as tripulações da Team não lançavam no livro de bordo (onde fica registrado todo o histórico da aeronave) as panes ocorridas com o bimotor prefixo PT-FSE. Numa comparação entre as folhas de bordo e as ordens de serviço de manutenção, constatou-se incompatibilidade no número de horas de uso dos motores. Também foi observado, segundo o relatório do Cenipa, que a empresa não tinha um setor de treinamento organizado e estruturado. A Team contesta a versão final do documento. A empresa afirmou desconhecer o porquê de os componentes da caixa-preta de voz não seguirem as especificações exigidas pela Aeronáutica. "Não havia nenhuma indicação nos painéis de que a caixa-preta havia deixado de funcionar", argumentou David Faria, diretor do Centro de Serviços Técnicos e de Engenharia e Manutenção da Team. Sobre as supostas irregularidades na documentação da empresa, Faria afirmou que são todas improcedentes. "Não sei de onde tiraram isso, estamos questionando o Cenipa a esse respeito. Só este ano fomos auditados seis vezes pelos inspetores da Anac." O diretor, porém, não soube dizer quantas ações de fiscalização a Team havia sofrido antes do acidente. Faria disse ainda que as tripulações da Team continuarão liberadas para cancelar o plano de vôo estabelecido previamente sempre que julgarem necessário. "Uma coisa é preciso ficar clara: voar visual não é ilegal. Tudo continuará sendo feito dentro das regras", disse. "O que aconteceu nesse acidente é que o piloto descumpriu regras de vôo visual, com o aval do controle de vôo." Procurada pelo Estado, a Anac informou que não teria como responder às perguntas sobre a fiscalização feita na Team.

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