‘Defendo alianças, mas quem vai definir é o partido’, diz Alckmin sobre 2012

Governador prega fim do 'caciquismo' e diz que respeitará PSDB sobre coligações; combate às enchentes será prioridade

Entrevista com

Alberto Bombig, de O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2011 | 03h04

Enquanto aguarda a definição do cenário eleitoral, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), tenta reforçar a imagem de sua gestão em pontos sensíveis aos paulistas da região metropolitana da capital, como as questões das enchentes e do transporte público.

O governador evita falar publicamente sobre a disputa de 2012, mas ele e seus assessores diretos sabem que mais um verão com a combinação de alagamentos e trânsito caótico na capital e no entorno dela pode esfriar as pretensões eleitorais do PSDB. Por isso, antes mesmo de definir quem será seu candidato à sucessão de Gilberto Kassab (PSD), Alckmin afirmou ao Estado que o saneamento básico, incluindo o combate às enchentes e a limpeza do rio Tietê, serão as "prioridades" de sua administração.

Ele reconhece, contudo, que a execução orçamentária ainda está longe do ideal (menos de 10% do previsto). O governador diz que pretende desassorear 1,6 milhão de metros cúbicos de lixo do rio Tietê até dezembro próximo. "O Orçamento para este ano era de R$ 409 milhões. Nós suplementamos. Foi para R$ 658 milhões."

Em outra frente, a gestão tucana tentará reverter o eventual desgaste em consequência dos recentes acidentes com mortes provocados pelo consumo de bebida alcoólica, já que a responsabilidade pela fiscalização da Lei Seca é da Polícia Militar. Alckmin diz que, a partir deste mês, 2.100 novos policiais passarão a integrar as blitze.

Em entrevista publicada no domingo, 23, pelo Estado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) disse que não "tem sentido ter uma aliança em 2012 se não tiver discussão sobre 2014". Quanto ao tema, Alckmin afirma que delegará ao seu partido a decisão.

Segundo ele, o "caciquismo" (centralização das decisões partidárias nas mãos dos caciques) na política precisa acabar. Diz que irá respeitar o que o PSDB paulistano, hoje com quatro pré-candidatos a prefeito de São Paulo, definir.

Leia a entrevista que ele concedeu ao Estado no Palácio dos Bandeirantes para falar sobre as obras na capital.

O senhor criou uma Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano nesta gestão. O governo do Estado mudou de papel, terá um função mais semelhante com a das prefeituras no entorno da capital e outras regiões?

Somos a terceira metrópole do mundo, com quase 20 milhões de habitantes, atrás apenas de Tóquio (Japão) e Nova Deli (Índia). O planejamento não pode ser local. Para combater enchentes no Mercado Municipal de São Paulo nós vamos fazer piscinão no município de Mauá. As soluções são sempre metropolitanas.

Como o governo está se preparando para o verão, que tanto medo traz aos paulistanos por causa das constantes enchentes?

A responsabilidade do Estado é com o rio Tietê, o grande desaguadouro da macrodrenagem da metrópole. Quando assumi, nos primeiros 15 dias, a primeira suplementação que eu fiz foi de R$ 24 milhões, até tirei esse dinheiro da área da comunicação, para o desassoreamento do Tietê. Nós já retiramos até agora 1,5 milhão de metros cúbicos de material assoreado do rio. Em dezembro, chegaremos a 1,6 milhão. Isso equivale a dez piscinões. A capacidade de armazenamento do Tietê será maior.

Quando o senhor fala em material assoreado, está se referindo especificamente a que?

Todos os verões, os afluentes trazem areia e muita sujeita: pneu, sofá, plástico. Tudo cai no Tietê. Em média, 500 mil metros cúbicos você tem de tirar (de material assoreado) todos os anos. Então, o rio vai estar com mais capacidade. Além disso, assinamos em julho com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) uma obra de R$ 200 milhões para o Parque Várzeas do Tietê (entre a Penha e Salesópolis). Já licitamos e as obras começam em abril. Serão cinco anos de reforma, um piscinão natural de 2,8 milhões de metros cúbicos.

Mas e no curto prazo?

Além do desassoreamento, piscinões. O piscinão é a várzea moderna. No pico da chuva ele armazena a água e depois devolve. Dos 30 piscinões (da região metropolitana), a prefeitura da capital faz a manutenção de cinco. Os outros não vinham tendo a manutenção necessária. Nós assumimos. Serão R$ 40 milhões para recuperar bomba, segurança e limpeza.

A gestão anterior falhou na manutenção da calha do rio?

Não foi falha. É um trabalho que tem de ser contínuo.

A execução orçamentária para os trabalhos contra as enchentes está muito baixa. Por quê?

O Orçamento para este ano era de R$ 409 milhões. Nós suplementamos. Foi R$ 658 milhões. Empenhado, tem R$ 346 milhões. Liquidado, R$ 155 milhões. Mas o grosso do pagamento vai ser agora, no final do ano, e o Parque Várzeas do Tietê, por exemplo, que serão R$ 133 milhões, não vai ser pago este ano. Para mim é prioridade absoluta o saneamento básico e o Tietê. É o rio de São Paulo. Tenho verdadeira paixão por ele, que nasce aqui do lado da capital e, em vez de desaguar no mar, atravessa o Estado interior. Nós vamos limpar o rio.

O governo vai conseguir concluir o que prometeu para a zona leste da capital por conta da Copa do Mundo de 2014?

Eu entendo que sim. As obras da região da zona leste que nós somos responsáveis são permanentes, como o alargamento da Radial Leste, o entroncamento com a Jacu Pêssego. Além das obras de mobilidade urbana, que nós esperamos que estejam prontas em dezembro do ano que vem. Nós vamos diminuir o intervalo entre os trens do metrô. Vamos passar de 64 mil passeiros por hora para 88 mil usuários por hora bem antes da Copa. No caso do trem, o intervalo também será menor e passaremos de 26 mil para 40 mil passageiros. Estaremos, então, com 120 mil passageiros hora/destino, mais do que a exigência da Fifa. Também vamos fazer o monotrilho da linha Congonhas, a linha 17.

O Estado agora tem uma lei recrudescendo as penas para quem vende bebida alcoólica para menores de 18 anos. Já não era proibido?

Nós estávamos verificando que a eficácia da lei federal não segurava a tendência do adolescente, de começar a beber cada vez mais jovem. Hoje, começam a beber com 13. Nós fizemos uma lei que agora proíbe, além da venda, o consumo. Antes, o dono do bar dizia que o menor havia trazido a bebida, que ele não havia vendido. Agora, o estabelecimento é responsável também pelo consumo. Até o dia 19 as blitze serão educativas. Depois, punitivas.

Mas e a Lei Seca? Por que tanta gente diz que ela não funciona em São Paulo?

As ações agora vão vigorar, às sextas e sábados, até as 6h, não mais até as 4h. No final deste mês, passaremos a ter 2.100 policiais a mais. A partir de agora, a operação Direção Segura também será realizada às quintas-feiras. Só neste ano, já interceptamos 138 mil veículos e 1.160 motoristas estavam embriagados, contra 842 do ano passado. Além disso, nós estamos interpretando que atropelamento e morte por alcoolismo são homicídio doloso.

A polícia de São Paulo está orientada para tipificar como doloso e, imediatamente, prende, recolhe. Só o juiz pode liberar, mediante fiança.

O senhor gostaria de ver um candidato do seu partido defendendo as ações de seu governo na capital paulista?

Eleição é em ano par, nós estamos em ano ímpar. Mas claro que todo partido gostaria de ter o seu representante. Agora, independentemente de quem for o prefeito, nós temos o dever republicano de trabalhar juntos. Aliás, como temos feito com a presidente Dilma Rousseff, no âmbito federal, e com os prefeitos dos 645 municípios. E aqui em São Paulo vamos assinar um convênio de R$ 40 milhões para a prefeitura da capital abrir vagas em creches, com o prefeito Gilberto Kassab. O ensino infantil é de responsabilidade dos municípios, mas nós fizemos esse projeto que vai dar R$ 128 milhões para as cidades do interior e R$ 40 milhões para a capital do Estado.

O que senhor está dizendo é que existe a possibilidade de a parceria que governa a cidade de São Paulo ser mantida?

Nós defendemos as alianças. Elas são importantes. Agora, como ela é ou deixa de ser, é responsabilidade dos partidos.

E com a presidente Dilma? A boa relação que o senhor destaca irá continuar no ano eleitoral?

Dinheiro público não pode ter cor partidária, ele é do povo que paga impostos. A presidente tem de governar para todos os brasileiros. Ela tem sido muito correta com São Paulo. Na eleição, cada um terá um candidato e vai lutar por ele. Espero conseguir manter ao longo de todo o meu mandato uma relação de grande cooperação administrativa.

O senhor continua defendendo prévias para a escolha dos candidatos do PSDB?

As prévias são instrumento democrático, uma forma de ouvir as bases. O que o partido decidir, eu serei o primeiro a defender. Não tem mais "caciquismo". Nós precisamos estimular a participação. Quanto mais a gente ouvir, menos vamos errar e mais vamos acertar. Sou a favor das primárias.

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