BRUNO RIBEIRO/ESTADÃO
BRUNO RIBEIRO/ESTADÃO

Defesa Civil planeja demolir o que restou de Bento Rodrigues

O Ministério Público Estadual quer que a Samarco se comprometa a reconstruir o vilarejo; empresa deve se manifestar até quarta

Bruno Ribeiro, Enviado especial

04 de dezembro de 2015 | 20h04

MARIANA (MG) -  Técnicos da Defesa Civil e da Secretaria de Obras de Mariana (MG) estiveram nesta sexta-feira, 4, no distrito de Bento Rodrigues, um dos locais mais atingidos pelos rejeitos de minério de ferro que vazaram das barragens da empresa Samarco, para preparar um laudo que recomendará a demolição do vilarejo.

A ideia é determinar um "ponto zero", que será um dos cerca de 20 imóveis que resistiram à lama, entre os cerca de 200 que existiam ali, e condenar o distrito deste ponto em diante. O "ponto zero", até o momento, é uma pequena igreja evangélica, que chegou a ser usada como abrigo pelos sobreviventes na noite da tragédia.

A Secretaria de Comunicação de Mariana, entretanto, informa que a demolição não tem data, uma vez que ali ainda é um local de investigações. O Ministério Público Estadual quer que a Samarco se comprometa a reconstruir o vilarejo em outro endereço. A empresa tem até o dia 9 para se manifestar. 

Segundo os técnicos que estavam fazendo a análise nesta sexta, a demolição é uma questão de segurança. Moradores da localidade têm tentado voltar aos imóveis para tentar achar seus pertences. Há risco de desmoronamento das estruturas que ainda estão de pé e da própria lama, ainda mole em muitos pontos. Os escombros à mostra, com ferro e madeira expostos, são outro ponto de atenção.

"A lama descolou a laje das casas. Conforme a enxurrada desceu, algumas delas voltaram para o lugar, mas estão soltas, equilibradas nas paredes", diz um dos agentes. Por isso, as equipes só trabalham em grupo, com os agentes mantendo contato visual entre si.

Os imóveis que permaneceram intactos, embora não sejam demolidos, também deverão ficar isolados. "Para recomendar a demolição, é preciso o laudo que ateste que a estrutura traz perigo. Mas não dá para fazer o laudo falando para demolir se a casa não está condenada. O proprietário pode reclamar juridicamente", explica um dos agentes da Defesa Civil, afirmando que, mesmo assim, não podem mais servir de moradia. "Não tem água, não tem luz e tem essa lama toda."

Assim, além de por abaixo o que sobrou das casas atingidas, outra medida em análise na Secretaria de Obras é o isolamento a área. Os técnicos - um engenheiro e um estagiário - disseram que está sendo acordado com a Samarco (para que ela pague) a confecção de uma série de placas informando que o acesso ao local é proibido. "Vamos colocar até no mato", disse o engenheiro. Os acessos por estrada ao vilarejo já estão com portões de ferro e guaritas, operadas pela Polícia Militar, para impedir novas entradas no distrito.

Um trabalho que deve atrasar os serviços de demolição é uma escavação que está sendo feita na Igreja São Bento, nos limites da cidade. Os muros ao redor do ponto onde era a igreja estão isolados com telas plásticas à espera de peritos, que devem tentar localizar objetos históricos que haviam ali. A igreja foi construída no século XVIII.

Roubos. Em Bento Rodrigues, vilarejo rural, não sobrou nada verde. Na paisagem marrom, apenas insetos e aves se mexem no cenário petrificado pela lama. Os escombros, entretanto, também estão atraindo criminosos. "Tem roupas, panos, que não estão sujos de lama, mas estão em cima das coisas sujas. É sinal de que alguém andou revirando", conta um dos agentes. "Tem gente que vem aqui atrás de um álbum de foto, algo que não tem como recuperar. Temos tentado ajudar essas pessoas a chegar aqui com segurança. Mas tem gente que vem sozinha, atrás de qualquer coisa", continua.

O único trabalho de resgate ainda sendo desenvolvido no lugar é dos automóveis e motos que se perderam na lama. Uma pá escavadeira abre caminho até os veículos. As carcaças são necessárias para que os moradores tenham acesso ao pagamento de seus seguros.

Camargos. Último distrito de Mariana que permanecia isolado, Camargos teve o acesso por terra restabelecido na quinta. Bombeiros têm concentrado suas buscas ali, uma vez que, antes, o acesso era feito apenas por helicóptero. As chuvas fortes que atingem a região têm atrapalhado os trabalhos. "O solo com lama está mole como nos primeiros dias do acidente", disse o major Rubem Cruz, porta-voz da corporação. 24 agentes trabalharam ali nesta sexta.

Há ainda 8 desaparecidos, sendo 5 funcionários de empresas a serviço da Samarco e 3 moradores de Bento Rodrigues. 11 mortes já foram confirmadas e dois corpos ainda aguardam identificação no Instituto Médico-Legal (IML) de Belo Horizonte.

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