Marcelo Camargo/Agência Brasil via AP
Marcelo Camargo/Agência Brasil via AP

Defesa de João de Deus só deve apresentar habeas corpus na segunda

O líder espiritual é suspeito de ter abusado sexualmente de mulheres e teve prisão preventiva decretada pela Justiça de Goiás

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2018 | 15h37

ABADIÂNIA - A defesa de João Teixeira de Faria, o João de Deus, deve apresentar na próxima segunda-feira, 17, o habeas corpus para tentar suspender os efeitos da prisão preventiva decretada pela Justiça de Goiás contra o médium. Suspeito de ter abusado sexualmente de mulheres durante consultas particulares realizadas na Casa Dom Inácio de Loyola, centro onde presta atendimento espiritual, ele é considerado foragido e teve o nome incluído na lista da Interpol.

O advogado Alberto Zacharias Toron afirmou que o habeas corpus deverá ser formalizado somente depois de João de Deus se entregar. A expectativa é de que a defesa explore o que classifica como "pequeno  número de depoimentos" usados pela Justiça para fundamentar a decretação da prisão preventiva, o que poderia indicar fragilidade de provas. 

Há a possibilidade, ainda, de a espiritualidade atribuída a João de Deus seja usada na argumentação. Para a defesa, a intolerância religiosa poderia incentivar o grande número de denúncias, muitas das quais ainda não formalizadas.

A tendência é de que os advogados procurem mostrar João de Deus como um homem rústico, simples, de personalidade multifacetada e que, muitas vezes, seria guiado por recomendações de guias espirituais. Em suma, viveria com uma lógica pouco convencional.

O momento em que o País vive também deverá ser incluído. Para advogados, depois de quatro anos de operação que trouxe denúncias contra uma série de pessoas públicas, um crime contra um candidato à presidência seriam fatores para aumentar a tendência de "denuncismo" e "polarização".  

Dois dias depois que os primeiros relatos de abuso sexual vieram a público, o Ministério Público (MP) formou uma força-tarefa encarregada de investigar os casos. Já foram coletados mais de 330 depoimentos. Desse total, 30 mulheres formalizaram até o momento as acusações.

Coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal, Luciano Miranda Meireles afirmou que vídeos e gravações dos relatos coletados em outros Estados estão sendo enviados para Goiás, onde as investigações estão centralizadas. A Polícia Civil também está registrando relatos.

Nesta semana, somente na cidade de Abadiânia, onde funciona a Casa Dom Inácio, foram iniciados três inquéritos. Eles se juntam a outros três que já haviam sido abertos antes de os depoimentos contra João de Deus serem divulgados no programa Conversa com Bial, da TV Globo.

João de Deus não é visto publicamente desde quarta-feira, 12, quando visitou a casa Dom Inácio de Loyola e, em pronunciamento rápido, se declarou inocente e disse estar a disposição da Justiça. Depois de a prisão preventiva ser decretada, a Polícia Civil já percorreu mais de 20 endereços em busca do médium. Sua casa em Abadiânia, no entanto, ainda não foi alvo de buscas.

O delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, disse estar em contato com a defesa de João de Deus para negociar os detalhes da apresentação. Ele acredita que o médiu não esteja em Goiás.

Na tarde deste sábado, o MP divulgou uma nota rebatendo as afirmações feitas pela defesa de João de Deus. Na sexta, advogados do médium se queixaram da demora em ter acesso aos depoimentos e, principalmente, à decisão da Justiça que determinou a prisão.

De acordo com a promotoria, o pedido feito por advogados para ter acesso á investigação foi concedido. "Mas, até o momento, o requerente não procurou o Ministério Público para retirar a cópia dos autos".

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