''Deficiência de equipamentos na polícia é sempre um problema''

Entrevista - Ruy César Melo: Comandante-geral da PM de São Paulo entre 1999 e 2002; comandante-geral da PM na época do seqüestro de Sílvio Santos, ele diz que o problema ficou ?claro? com caso de Santo André

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

24 Outubro 2008 | 00h00

Comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo entre 99 e 2002, o coronel Ruy César Melo confirma que o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) tem "alguma deficiência" de equipamentos. "Acho que essa ocorrência em Santo André deixou isso muito claro", disse o oficial, referindo-se à condução do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, assassinada pelo ex-namorado na semana passada. Em depoimento, testemunhas dizem que os PMs utilizaram copos de vidro para tentar auscultar através da parede, por falta de aparelho adequado. Na reserva há seis anos, o coronel viveu de perto crises semelhantes à provocada pela malsucedida invasão ao apartamento de Eloá. Em agosto de 2001, Melo se envolveu na mais polêmica missão de sua carreira: a libertação do apresentador Silvio Santos, mantido refém dentro de casa pelo seqüestrador Fernando Dutra Pinto. O refém só foi libertado após a chegada do então governador Geraldo Alckmin. "Fui duramente criticado por ter utilizado o governador na negociação", relembra. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado: O Gate é considerado a tropa de elite da PM. Como funciona? O Gate é uma companhia vinculada ao 3º Batalhão de Choque. Foi criado na década de 80 para atuar em situações-limite, desde ocorrências com reféns até rebeliões em presídios, que na época eram muito comuns. Funciona 24 horas por dia, em turnos de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso. Há equipes de negociação e equipes táticas. Os homens da área tática são especialistas em invasões. Quem fica com a parte de negociação costuma ter formação ou treinamento em Psicologia. Também temos um soldado atirador de elite. Como são recrutados? O nosso curso de formação de soldados é o mais exigente do País e tem duração de um ano. Na época em que eu estava no comando, de cada 100 candidatos, aproveitávamos oito. Depois dessa fase de estudo, o praça vai para um batalhão de área onde fica mais um ano em estágio supervisionado. Se aprovado, ele passa para soldado de 1ª classe. Só então ele pode se candidatar a servir no Comando de Policiamento de Choque. A seleção é feita por meio de uma prova. Se a pessoa quiser ir para o Gate, é submetida a um novo exame. Ou seja: para chegar lá, tem de passar por pelo menos três testes. Que treinamento recebem? O Gate funciona como o Corpo de Bombeiros, com treino e prontidão. Se eles não estão em missão, ficam no quartel treinando educação física, tiro, técnicas de salvamento. Também há cursos de reciclagem com especialistas, geralmente da Swat, das polícias de outros Estados ou do Exército. Os equipamentos à disposição da polícia são adequados? As microcâmeras, que poderiam ter auxiliado o Gate no caso da Eloá, por exemplo, estão sucateadas. Tem alguma deficiência sim. Acho que essa ocorrência em Santo André deixou isso muito claro - dizem que os policiais usaram copos para escutar através da parede. Faltam equipamentos de escuta e outros de tecnologia mais avançada. Equipamento é sempre um problema porque depende de orçamento. Na minha época de comandante, não tínhamos a roupa especial para quem vai mexer com explosivos. Fiz questão de comprar isso para o Gate. O robô comprado de Israel no passado e usado em ocorrências de suspeita de bomba também estava quebrado, tivemos de mandar para o conserto. Mesmo que você tenha determinado equipamento, é preciso renová-lo. Essa questão é sempre complicada. Quem é: Ruy César Melo É coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Foi comandante-geral da corporação entre 1999 e 2002 Atuou no caso do seqüestro de Silvio Santos

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