Delação premiada à cubana

Cuba está inovando na repressão política com um novo formato intimidatório: na série de televisão As razões de Cuba, agentes secretos saem das sombras e, de cara limpa e apresentados como heróis, contam como se infiltraram em grupos de dissidentes, de blogueiros de oposição, e até das Damas de Branco. Arrá! Sabemos quem vocês são, inimigos da Revolução a soldo do Império, é o recado dos espiões de crachá. Mas ninguém se intimidou, muito pelo contrário.

Nelson Motta, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2011 | 00h00

"Ele se mostrou tão solidário e curioso, que logo desconfiamos que poderia ser um espião. Temos grande know how na matéria", contou em vídeo uma blogueira cubana, às gargalhadas, ao identificar um "amigo" no programa. "Ninguém ligava para ele, não havia nada a esconder, afinal, nós não queremos o poder, mas apenas viver dignamente do nosso trabalho, expressar nossas opiniões em liberdade, viajar, ter acesso a novas tecnologias. Quem não quer ?"

O programa Ciberguerra foi sensacional - para os blogueiros de oposição. Nem se tivessem encomendado o serviço a um marqueteiro seria melhor: um "comercial" de uma hora em horário nobre, contando quem são e o que fazem esses inimigos do povo - os combatentes da liberdade que estão rompendo a cortina de chumbo da informação em Cuba. Deram os nomes, fotos e links dos contrarrevolucionários para a execração pública e - como no episódio em que Collor pediu verde e amarelo e a população saiu de preto - a delação premiou os delatados: no dia seguinte, os blogs explodiram com mensagens de apoio.

O telefone de Yoani Sanchez, estrela da nova mídia independente, não parou, e ela quase não pôde andar na rua, de tantos cumprimentos. Novos tempos. Antes, ela seria cercada por um "comitê de repúdio", as brigadas de militantes ferozes que gritam, xingam e agridem quem tem opinião diferente da oficial.

Mas velhos slogans e palavras de ordem patrióticas já não conseguem conter a ofensiva da realidade: o comunismo tropical faliu. Quando chegar o cabo de fibra ótica da Venezuela e os cubanos tiverem amplo acesso à internet, como prometeu o governo, a ditadura estará com os megabytes contados.

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