Delação revela novo escândalo na Segurança

Justiça decretou prisão de mais 4 PMs, acusados de arrecadar propina

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

Uma delação premiada revela novo escândalo de corrupção na Segurança Pública de São Paulo. Desta vez, as acusações envolvem oficiais da Polícia Militar, a maioria do 31º Batalhão, que patrulha parte da região de Guarulhos. Os militares teriam montado um esquema de arrecadação de propina de perueiros clandestinos e da máfia dos caça-níqueis e dos bingos em Arujá, Itaquaquecetuba e Santa Isabel. A Justiça Militar decretou ontem a prisão preventiva de quatro policiais, entre eles o major Altair do Carmo Silva. Outros cinco PMs foram presos no dia 6 - todos estão no Presídio Militar Romão Gomes, na Água Fria, zona norte.O major, um sargento, um cabo e um soldado foram acusados pelo primeiro-tenente Antônio Domingos de Souza Neto, que aceitou fazer a delação premiada. Ele afirma que Altair, então capitão, e os demais acusados arrecadavam dinheiro de um contraventor chamado Jair. Ele bancaria festas no quartel do 31º Batalhão. O tenente afirmou que os acusados e a tenente-coronel Elizabete Soliman, então comandante da unidade, recebiam propina mensal da máfia do jogo.Os acusados negam as denúncias. As investigações sobre o suposto esquema de corrupção, que funcionaria desde 2006, foram feitas sob as ordens do coronel Wagner Cesar Gomes de Oliveira Tavares Pinto, comandante do Policiamento de Área Metropolitano-7 (CPA-M7). O coronel designou o major João Carlos Pelissari para presidir o inquérito policial militar. Ele usou o serviço reservado do CPA-M7 para buscar provas contra os acusados.Em seu relatório, Pelissari escreveu que o tenente "trouxe à baila como funcionava tal esquema e quem eram os outros envolvidos". O tenente Souza Neto afirmou que ganhava R$ 1,5 mil "para não interferir na atuação" dos caça-níqueis. Pelissari pediu a nomeação de um coronel para apurar as suspeitas contra a tenente-coronel.Segundo a delação do tenente - a primeira de um oficial para crimes ligados à corrupção -, o major Altair e outros policiais chegaram a fazer uma operação para apreender os caça-níqueis de um concorrente de Jair, o contraventor que alimentaria o esquema de propina. A operação teria sido paga.No caso do transporte coletivo clandestino, uma cooperativa teria ganhado a concorrência pública em Santa Isabel. Um dos sargentos acusados seria ligado à empresa - ele cuidaria da segurança. Isso teria motivado a perseguição a perueiros não filiados à cooperativa. Quando a cooperativa contratou os serviços de uma empresa de segurança, os militares teriam deixado de apreender as peruas clandestinas e passado a exigir propina de seus donos.CONFIRMAÇÃOAlém do tenente, três testemunhas confirmaram as denúncias de corrupção. Elas estão sob proteção e suas identidades são mantidas sob sigilo. Segundo o major, "as testemunhas arroladas acusam os interessados (policiais) de vários delitos e se sentem ameaçadas, motivo pelo qual a segregação preventiva (a decretação da prisão) torna-se necessária e indispensável".O tenente e outros cinco dos acusados foram denunciados em um primeiro processo pelo promotor Alexandre Demetrius Pereira, da 1ª Auditoria Militar, no dia 6 - como o tenente está colaborando, ele é o único que não teve a prisão decretada. Ao todo, a promotoria apresentou 19 testemunhas. Já a prisão do major, que recentemente passou para a reserva, foi decretada pela 3ª Auditoria Militar em outro inquérito. É que as denúncias de Souza Neto, que comandava a companhia de Santa Isabel, levaram o coronel Cesar a abrir outro inquérito, sobre corrupção em Itaquaquecetuba e Arujá. Além dos presos e da tenente-coronel, são investigados um capitão e cinco soldados. A Corregedoria da PM informou que "tudo será apurado". A tenente-coronel deixou o 31º Batalhão e está num cargo burocrático no Comando de Policiamento da Capital (CPC).O novo escândalo surge pouco depois de o conselho da 1ª Auditoria Militar ter condenado a nove anos de prisão o primeiro-tenente Edson de Almeida Fernandes. A decisão, por votação unânime, foi a primeira contra um oficial acusado de achaques à máfia dos caça-níqueis. Fernandes, que trabalhava na Lapa, na zona oeste de São Paulo, não terá o direito de apelar em liberdade.

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