Delator de esquema no Esporte afirma que negociou silêncio com ministro 'Estado' revelou série de fraudes

Em entrevista exclusiva ao Estado, antecipada no estadao.com.br, o policial militar João Dias Ferreira contradisse a versão do ministro do Esporte, Orlando Silva (PC do B), sobre o encontro entre os dois e deu mais detalhes do esquema de corrupção na pasta. Ferreira afirmou que o ministro propôs pessoalmente, numa reunião em março de 2008 na sede do ministério, um acordo para que os desvios de verba envolvendo o Programa Segundo Tempo não fossem denunciados. O ministro havia dito que eles se encontraram uma única vez entre 2004 e 2005.

LEANDRO COLON / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2011 | 03h03

"O encontro foi na sala de reunião dele, no sétimo andar do ministério", detalhou o policial. Ontem, ao saber das novas declarações de Ferreira, o ministro Orlando Silva manteve a versão do único encontro com o policial e ex-militante. "É mais uma calúnia. Ele não tem como provar isso (a reunião em 2008)", disse Orlando ao Estado.

O ministro afirmou ter se encontrado com Ferreira quando era secretário executivo de Agnelo Queiroz - hoje governador do Distrito Federal pelo PT e então o ministro do Esporte - para discutir convênios das entidades dirigidas pelo policial com o Ministério do Esporte. "Foi a única vez que encontrei essa pessoa", disse Orlando Silva.

O policial militar, porém, garante que esse encontro quase protocolar mencionado por Orlando jamais ocorreu. Segundo Dias, o "verdadeiro" encontro ocorreu em outro momento. "Não existe essa reunião. O ministro faltou com a verdade. Ele esteve comigo uma vez para fazer um acordo com o pessoal dele para eu não denunciar o esquema", afirmou ao Estado.

Ferreira deu detalhes do encontro que diz ter tido com o ministro do Esporte em março de 2008 para negociar o sumiço de R$ 3 milhões dos convênios do governo com sua entidade.

"O acordo era para que eles tomassem providências internas, limpassem meu nome e eu não denunciaria ao Ministério Público o esquema", afirmou.

Cúpula. Na entrevista, o policial contou que, além do ministro, membros da cúpula do ministério estavam presentes nesta reunião. "O Orlando disse para eu ficar tranquilo, que tudo seria resolvido, que não faria escândalo. Eu disse que se isso não fosse feito eu tomaria todas as providências e denunciaria o esquema", afirmou Ferreira. "E eu disse na reunião que descobri todas as manobras, a ligação dos fornecedores do Programa Segundo Tempo com o PC do B."

Segundo ele, as entidades tinham que dar 20% dos recursos para o PC do B, partido de Orlando Silva.

O policial reafirmou as acusações de desvio da pasta e contou um pouco mais sobre o esquema: "Você protocola o projeto, passa para análise, depois passa por um diretor no ministério, e nesse termo a primeira negociação é feita. Em seguida, vai para o jurídico, e é outra negociação. Volta e aí tem o partido para negociar".

O policial disse que, no encontro com Orlando Silva em março de 2008, negociou com ele a produção de um documento falso para selar o acordo com o governo. "Nessa reunião com o Orlando, eles falaram em produzir um documento sem data. Ele foi pré-produzido e consagrado. A reunião foi em março, mas eles colocaram um documento com data de dezembro de 2007 dizendo que eu encerrava o convênio. É um documento fraudado", disse João Dias.

Duas semanas depois do encontro com Orlando, uma nova reunião foi realizada, segundo o policial, também no ministério, numa sexta-feira à noite, após o horário do expediente. Participaram da conversa, segundo ele, três dirigentes da pasta, Wadson Ribeiro, Fábio Hansen e Júlio Filgueiras. Neste encontro, voltaram a discutir um acordo, que, segundo o policial, nunca foi cumprido. João Dias Ferreira afirma que essa reunião foi gravada por ele.

ONGs. O policial é dono de duas organizações não governamentais (ONGs) que fecharam convênios com o Ministério do Esporte entre 2005 e 2007. Em entrevista publicada pela revista Veja na edição desta semana, ele incluiu o nome do ministro no esquema de desvios de verba no Programa Segundo Tempo, confirmando as fraudes reveladas pelo Estado em fevereiro.

Segundo o policial, o ministro recebeu dinheiro do esquema. Na entrevista ao Estado, ele reafirmou que Fredo Ebling, dirigente do PC do B, representava o ministro nas negociações. "O próprio Fredo relatou para mim que entregou dinheiro, por diversas vezes, para o Orlando."

Investigação do Ministério Público Federal mostra que cerca de R$ 4 milhões foram desviados pelas entidades do policial militar. João Dias chegou a ser preso em 2010 sob acusação de envolvimento no esquema. Ao Estado, ele disse que sofreu retaliação do ministério porque se recusou a pagar propina de 20% a fornecedores do PC do B. Por outro lado, o ministério cobra dele a devolução dos recursos supostamente desviados.

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