Delegado de bairro terá de cuidar de caça-níquel

Portaria responsabiliza titulares dos DPs; quem ignorar ou facilitar o jogo será processado

, O Estadao de S.Paulo

04 Julho 2009 | 00h00

Uma portaria do delegado-geral, Domingos de Paulo Neto, responsabiliza os delegados titulares de delegacias de bairros pelo combate às máquinas caça-níqueis em São Paulo. Quem fizer vistas grossas ou deixar as máquinas apreendidas sob a guarda de comerciantes contraventores será responsabilizado por ato de improbidade administrativa. A medida do delegado-geral ocorre uma semana após a Corregedoria da Polícia Civil indiciar por formação de quadrilha e corrupção dois delegados - um dos quais pertenceu à cúpula da Polícia Civil - e quatro investigadores que teriam montado esquema de arrecadação de propina da máfia dos caça-níqueis. Denúncias recebidas pela corregedoria apontam ainda que o pagamento de propina da jogatina ocorreria em diversas regiões do Estado, até mesmo na capital. Além disso, nos últimos meses a Polícia Militar intensificou o combate às máquinas. Entre 25 de junho e 1º de julho, apenas dois batalhões da PM em São Paulo - o 11º e o 12º - apreenderam 130 máquinas em funcionamento. Ao todo, 28 acusados de explorar e jogar nas máquinas foram detidos pelos militares e conduzidos ao 5º Distrito Policial (Liberdade) e ao 36º DP (Paraíso). Uma das apreensões ocorreu na Avenida Paulista, onde PMs encontraram 63 máquinas. Em sua portaria, o delegado-geral admite que a "deturpação das ideias a respeito do jogo de azar tem ocasionado graves danos à sociedade e lucros astronômicos a organizações ou indivíduos suspeitos e até mesmo a organizações criminosas". Ele ainda afirmou que "jamais" as máquinas apreendidas devem ser colocadas sob a guarda do contraventor. A partir de 2007, sob a desculpa de que a polícia não teria depósitos para guardar as máquinas apreendidas, vários delegados passaram a deixar os caça-níqueis lacrados, sob a guarda dos comerciantes que exploravam as máquinas. Para tanto, colavam apenas um papel a título de lacre na lateral da máquina, o que não impedia, segundo denúncias, que os caça-níqueis voltassem a ser utilizados pela máfia do jogo. Até mesmo um selo foi instituído pelos policiais corruptos parta identificar as máquinas que pagavam propina. A máquina que não tivesse o selo era apreendida. Um investigador-chefe de uma Seccional podia receber até R$ 30 mil por mês só para fazer vistas grossas ao jogo ilegal, conforme depoimento dado por um delegado à corregedoria. Pela portaria do delegado-geral, publicada ontem no Diário Oficial, os titulares de distritos terão de coordenar os agentes para investigar e apreender as máquinas e devem assegurar o êxito do trabalho. Devem ainda procurar fazer a doação das máquinas apreendidas para programas de inclusão digital. Será feita estatística mensal sobre apreensões em cada região do Estado e a corregedoria terá como prioridade a fiscalização da atuação dos delegados titulares dos distritos contra a máfia do jogo.

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