Delegado diz que militar confessou ter entregado jovens no Rio

Segundo titular da 4.ª DP, tenente afirmou ter levado jovens para rivais para aplicar um corretivo pelo desacato

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2008 | 19h34

Um corretivo para não perder o prestígio diante da tropa. Esta foi a justificativa que o jovem tenente capixaba, com cerca de 25 anos, deu ao delegado-titular da 4.ª Delegacia de Polícia, Ricardo Dominguez, para levar os três jovens moradores do Morro da Providência, no centro, até traficantes rivais do Morro da Mineira, no Catumbi, na zona norte do Rio. "Não há dúvidas que eles entregaram os jovens. A explicação do oficial é que foi um corretivo, porque houve um desacato. Os jovens teriam ofendido os militares e ele os levou a um superior, que teria ordenado a liberação dos rapazes. Por conta própria e com medo de ter a moral abalada, o tenente ordenou a tropa que entregassem as vítimas ao traficantes", revelou o delegado. Segundo ele, os militares aparentavam tranqüilidade e tenente "não demonstrou arrependimento".     Veja também: Cabral condena 'atrocidade' cometida por militares no Rio Moradores protestam em frente sede do comando militar no Rio Justiça decreta prisão de militares que ocupavam morro no Rio Moradores queimam ônibus em protesto contra Exército no Rio Polícia quer prisão de 11 militares que ocupam morro no Rio   Os onze militares estão presos temporariamente por dez dias no 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca. O estudante Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, e os pedreiros Wellington Gonzaga Costa, de 19, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24, foram enterrados nesta segunda-feira. No velório, a única civil que sobreviveu à abordagem contou uma versão diferente da dos militares. "Voltamos de táxi do baile da Mangueira. Na praça no alto do morro fomos parados e um soldado meteu a mão na cordão do Wellington. Ele reagiu e foi agredido. Reclamamos e eles disseram que estávamos presos sem nenhum motivo. Levaram eles e me liberaram dizendo para eu ir para casa", disse M.S.O., de 16 anos.   O tenente, o sargento e um soldado disseram em depoimento à polícia que Wellington reagiu com palavrões a abordagem a um amigo e por isso os jovens foram detidos. O motivo da abordagem era o volume na cintura de um dos jovens, que era apenas um celular.   O delegado tem a informação que houve um contato prévio entre os militares e os traficantes do Morro da Mineira, um dos mais violentos da Zona Norte do Rio,dominado pela facção Amigo dos Amigos (ADA), onde a polícia entra apenas em megaoperações com mais de cem homens. Os moradores afirmam que pelo menos dois soldados, entre os onze presos, são moradores do Morro da Mineira. "No dia da morte do meu filho, um soldado me empurrou no chão e disse 'sou da Mineira mesmo'", disse a mãe de uma das vítimas, que colabora com a polícia nas investigações. Em depoimento, um soldado, que mora em uma outra favela da zona norte do Rio, confessou ter guiado a guarnição até à Mineira, mas negou conhecer os traficantes.   De acordo com o delegado, o caminhão com 11 militares entrou no Morro da Mineira. Os militares contaram que procuraram um lugar seguro para se abrigar e que o sargento, um morador da Baixada Fluminense de 25 anos, há cinco no Exército, iniciou uma negociação por meio de sinais com os traficantes. Um criminoso apareceu desarmado e levou as vítimas até os demais criminosos. A cena foi presenciada por vários moradores que confirmaram a informação a investigadores.   A polícia não acredita que o fato de duas das vítimas terem passagens pela polícia seja determinante nas investigações. Wellington, quando era menor, foi detido para averiguação e recebeu ligações de dois supostos gerentes do tráfico da Providência. David foi detido há mais de dois anos por porte de arma e corrupção de menores. Apesar da ocupação parcial do Exército no morro, investigadores revelaram que o tráfico continua atuando. O Exército só ocupou alguns pontos da favela. O tráfico apenas se deslocou", disse um policial.

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