Denise Abreu está na berlinda desde a tragédia da Gol

Diretora da Anac, que entregou carta de demissão nesta sexta, teve em sua gestão atitudes um tanto 'curiosas'

24 Agosto 2007 | 17h12

A diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu, que entregou nesta sexta-feira, 24, uma carta de demissão ao presidente da agência, Milton Zuanazzi, vive há 11 meses na berlinda. Desde o acidente com o Boeing da Gol, no final de setembro de 2006, em que 154 pessoas morreram, ela vem sendo criticada por suas atitudes um tanto "curiosas".   Veja, abaixo, os momentos mais marcantes deste período:   - Queda do Boeing da Gol (outubro de 2006): Dias após o choque aéreo entre o avião da Gol e um jato na Serra do Cachimbo, no meio da Selva Amazônica, Denise afirmou, em uma reunião com parentes das vítimas da tragédia, que seria um milagre se alguém tivesse sobrevivido. Questionada sobre a falta de tato, a diretora respondeu: "Fiz um raciocínio com eles (familiares). Se uma aeronave a 11 mil metros de altitude colide com o solo, é difícil encontrar algum corpo inteiro".   - Pista principal de Congonhas (fevereiro de 2007): O juiz Ronald de Carvalho Filho, da 22ª Vara Cível Federal de São Paulo, proíbe a operação de aeronaves modelos Fokker 100 e Boeings 737-800 e 737-700 no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, após ocorrência de derrapagem em dias de chuva. A medida veio como resposta ao Ministério Público Federal (MPF), que queria interditar a pista principal do aeroporto até que fosse feita a reforma total do local. Apesar do perigo, Denise decide recorrer da decisão, pois, isso afetaria os interesses dos usuários e das empresas que operam esses aviões. Logo depois, a medida foi revisada, o que foi muito comemorado pela diretora. "É um alívio para o Estado brasileiro. (...) Congonhas é o coração da aviação civil no País. E o desembargador que recebeu o nosso agravo fez um arrazoado brilhante (...) reconhecendo que a competência para a verificação técnica da pista é da Anac. E nós seguimos regras internacionais", afirmou.   - Charuto (março de 2007): Em meio à crise aérea que se seguiu após a queda do avião da Gol, com greves de controladores de vôo e atrasos e cancelamentos de decolagens na maioria dos aeroportos do País, a diretora da Anac é vista e fotografada fumando um charuto e se divertindo em Salvador, na festa de casamento da filha de Leur Lomanto, também diretor da Anac. Participaram da celebração, além de dirigentes da Anac e da Infraero, executivos da Varig, da BRA e da Gol. Tal imagem, registrada por fotógrafo do Estadão, torna-se símbolo das críticas ao comportamento da Anac, que desde o acidente da Gol é relacionada ao descaso com o problema dos passageiros durante a crise aérea. Questionada na semana passada, na CPI do Apagão Aéreo do Senado, sobre o ato, ela afirmou: "Fui exposta à nação como uma mulher insensível. Não fumo charuto. Nunca fumei charuto. (O ex-premiê britânico Winston) Churchill, sim, fumava charuto. Ele veio de família humilde e foi um grande estadista".   - Condecoração após acidente da TAM (julho de 2007): Um Airbus A320 da TAM vindo de Porto Alegre não consegue brecar na pista principal de Congonhas e acaba colidindo com o prédio da TAM Express, que fica fora do aeroporto. Na tragédia, considerada a maior da história da aviação do País, 199 pessoas morrem. Apesar disso, três dias após o acidente o presidente da Anac, Milton Zuanazzi, e três outros diretores, Denise Abreu, Leur Lomanto e Josef Barat, são condecorados pelo vice-presidente da República, José Alencar, com a medalha do mérito Santos Dumont. A premiação é concedida a civis e militares com relevantes serviços prestados à Aeronáutica.   - Acusação de ex-presidente da Infraero (agosto de 2007): O ex-presidente da Infraero José Carlos Pereira afirma, em entrevista a um jornal, que a diretora da Anac tentou tirar da Infraero o controle do setor de cargas dos Aeroportos de Congonhas e Viracopos para beneficiar o empresário Carlos Ernesto de Campos, da Tead Terminais Aduaneiros. "A Denise é terrível. Se eu não estivesse saindo da Infraero, ia comprar uma grande briga com ela", afirmou Pereira. Denise rebate as acusações e anuncia que irá processá-lo por acusação caluniosa.   - Suspeita de uso de documento falso (agosto de 2007): O ministro da Defesa, Nelson Jobim, anuncia a instauração de um processo administrativo disciplinar para investigar responsabilidades por documento sem valor legal que fez a Justiça liberar a pista do Aeroporto de Congonhas. Jobim revela à comissão do Senado que existe um e-mail de um funcionário da Anac mandando, por ordem da diretora Denise Abreu, dar publicidade à norma da agência sobre a pista e o uso do reverso em Congonhas. O documento, que serviu como base para a liberação da pista principal de Congonhas, foi levado à Justiça pela própria Denise no início deste ano.   - CPIs do Apagão Aéreo (agosto de 2007): Em depoimento à CPI do Senado, Denise diz que não vê motivos para renunciar ao cargo e nem se sente responsável pela crise aérea. "Meu mandato foi delegado pelo Senado Federal e não tenho razões para renunciar. Não entendo que tenha qualquer tipo de responsabilidade nas circunstâncias que denotam crise e que levaram a tragédias lastimáveis, que marcaram o País." Questionada sobre os passes livres que recebia nas empresas aéreas, a diretora nega que tenha feito viagens de interesse pessoal. Mesmo assim ela confirma ter feito 35 viagens bancadas pelas companhias aéreas. "Usei 15 passes da Gol e 20 passes da TAM. Eram viagens para o Rio, na época da transição do Departamento de Aviação Civil para a Anac." Para uma investigação mais ampla, os senadores aprovam a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da diretora. Ela, no entanto, encara a medida como "retaliação política". Mais comedida na acareação da CPI da Câmara, na última quinta-feira Denise reitera que não irá pedir demissão de seu cargo. Tal posição, porém, é abruptamente mudada nesta sexta-feira com o anúncio da carta de renúncia.   Matéria ampliada às 19h19

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