Denise, o ''''humilde'''' Churchill e o charuto

Diretora mudou a origem do estadista britânico para justificar fotografia

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2017 | 00h00

Sem sombra de modéstia, a diretora Denise Abreu começou o depoimento na CPI do Apagão Aéreo no Senado apresentando uma extensa lista de funções já desempenhadas, se disse injustiçada e deu até uma explicação para a fotografia em que foi flagrada fumando charuto numa festa, no mesmo dia em que um motim de controladores de vôo paralisou aeroportos do País. A festa era do casamento da filha de Leur Lomanto, colega de diretoria de Denise na Anac. "Fui fotografada e exposta como mulher insensível aos transtornos da população. Triste coincidência: não fumo charuto. Churchill, este sim fumava charuto e veio de família humilde e nem por isso deixou de ser grande estadista", disse.A diretora da Anac explicou que aceitou um charuto oferecido por Lomanto "para reverenciar os filhos". "Educadamente participei do ritual." A foto foi publicada pelo Estado na edição do dia 1º de abril. Em relação a Churchill, Denise cometeu um erro fundamental. Neto do sétimo Duque de Marlborough, Sir Winston Spencer-Churchill provinha de uma das mais aristocráticas famílias britânicas. Sua mãe era filha de um milionário americano. Diferentemente das declarações da diretora da Anac, Churchill não tinha antepassados "humildes". Nasceu no palácio de Blenheim, luxuosa propriedade da nobreza britânica. Fumante contumaz de charutos, foi primeiro-ministro de seu país entre 1940 e 1945.Em texto lido por ela na abertura da sessão, Denise reclamou de ter sido tachada de "terrível", termo usado pelo brigadeiro José Carlos Pereira, ex-presidente da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) ao se referir à diretora da Anac. Ontem, diante de Denise, ele reafirmou: "Quando resolve defender uma posição ela é terrível". O vice-presidente da CPI, senador Renato Casagrande (PSB-ES), tentou amenizar. "Terrível no sentido de brilhante?", perguntou ao brigadeiro que, retrucou: "Não, não. Terrível mesmo. Ela defende com muita violência, muita veemência. Joga pesado". No extenso currículo apresentado por ela e que consumiu 13 minutos de sua fala, Denise disse que, muitas vezes, foi convidada "por professores ou amigos" para cargos públicos e citou, entre outros, o presidente nacional do PMDB, Michel Temer, e os governadores, ambos já mortos, André Franco Montoro e Mário Covas. Ela também mencionou o nome do "amigo" José Dirceu, que a levou para a Casa Civil no primeiro ano do governo Lula. "Devo ter algumas qualidades que devem ter sido detectadas por várias pessoas." Um dos poucos momentos de descontração da sessão de ontem foi quando o brigadeiro criticou o sistema colegiado da Anac, que vigorou até duas semanas atrás e no qual os cinco diretores da agência tinham o mesmo poder de decisão. "A doutora Denise pode não gostar, mas não acredito na eficácia de diretoria colegiada. Ninguém é de ninguém. As pessoas não conseguem se entender e ninguém é responsável por nada. Considerando essa situação, as pessoas teriam que morar juntas, dormir juntas para tomar decisões conjuntas", disse arrancando risos. Denise se manteve séria, comportamento adotado durante todo o depoimento. Luciana Nunes Leal, Ana Paula Scinocca, BRASÍLIA, e Ariel Palacios, BUENOS AIRES

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