Denúncia de propina põe em risco a permanência de ministro do Esporte

Governo vai avaliar explicações de Orlando Silva sobre recebimento de propina para decidir futuro

Karla Mendes e Eduardo Bresciani

17 Outubro 2011 | 03h03

BRASÍLIA - A denúncia de que teria recebido dinheiro de propina na garagem do Ministério do Esporte aumentou a situação de fragilidade do titular da pasta, Orlando Silva (PC do B). Já envolvido em denúncias anteriores de desvios no Programa Segundo Tempo, carro-chefe da pasta, Orlando era visto como alvo da reforma ministerial que a presidente Dilma Rousseff pretende fazer em janeiro de 2012. Agora, poderá deixar a função antes deste prazo caso venham à tona novas acusações ou não consiga demonstrar inocência nos esclarecimento que prestará ao Congresso nesta semana.

O policial militar João Dias Ferreira, ex-militante do PC do B, reiterou ontem a denúncia feita à revista Veja e proferiu novos ataques ao ministro. Em seu blog pessoal, Ferreira chamou o ministro de "bandido" e disse que apresentará às autoridades provas do esquema de corrupção no programa Segundo Tempo. "Bandido é você e sua quadrilha que faz e refaz qualquer processo do ministério de acordo com sua conveniência", disse, retrucando Orlando Silva, que usou o mesmo termo contra ele para desqualificar a denúncia.

O militar comanda a Associação João Dias de Kung Fu e é presidente da Federação Brasiliense da modalidade. As duas entidades firmaram convênios com o Ministério do Esporte. Segundo Dias, o esquema existe desde a gestão de Agnelo Queiroz, atual governador do Distrito Federal, quando Orlando respondia pela secretária executiva do ministério.

Em entrevista ao Estado ontem, o ministro rebateu novamente as acusações e desafiou João Dias a apresentar documentos que o incriminem. "Este farsante não tem e não terá nenhuma prova porque está mentindo". Orlando não quis comentar os ataques publicados na internet pelo policial. "Não vou me rebaixar a uma pessoa deste nível. O diálogo com este marginal só pode ser feito no Judiciário."

Dilma. O Planalto evita fazer julgamentos antecipados sobre a situação de Orlando Silva, mas acompanha os desdobramentos da denúncia. O Estado apurou que causou profundo incômodo à presidente Dilma Rousseff o fato de a denúncia ter sido feita por um ex-correligionário do ministro e beneficiário direto de convênios com o governo.

O ministro afirmou estar confortável para permanecer no cargo, mas ressaltou que a decisão cabe à presidente. Destacou que, devido à realização de grandes eventos como a Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, a pasta que ocupa passou a ter mais importância, tornando-se, assim, alvo de disputas na Esplanada. "Sei que tem um jogo político e que o ministério onde atuo aumentou a cobiça."

Ele reiterou sua disposição de ir ao Congresso prestar esclarecimentos. O líder do PC do B na Câmara, Osmar Júnior (PI), vai apresentar hoje um requerimento. A audiência, que deve ser conjunta nas comissões de Fiscalização Financeira e Controle e Turismo e Desporto deve acontecer ainda nesta semana.

Mira. Outro integrante da cúpula do ministério foi envolvido no caso por João Dias ontem. Em seu blog, o policial afirmou que, por ordem de Orlando Silva, o secretário nacional de Esporte de Alto Rendimento do ministério, Ricardo Leyser, teria tentado localizá-lo na sexta-feira. "O que ele queria comigo? Fazer mais um daqueles acordos não cumpridos?", provocou Dias.

Leyser negou qualquer tentativa de contato, pessoal ou por telefone.

"Como, se estou em Guadalajara desde quarta-feira? Estou acompanhando os jogos Pan- Americanos. Pode verificar se tem alguma ligação dos nossos celulares aqui, não vai ter, se tem ligação no hotel, não vai ter", afirmou o secretário ao Estado. "Como eu o procurei? Por teletransporte?", ironizou.

O secretário questionou ainda a acusação feita pelo policial de que o ministro teria recebido propina na garagem do ministério. "Não parece uma coisa razoavelmente plausível de acontecer, nem no Ministério do Esporte, nem outro ministério. A garagem tem gente, tem movimento, tem segurança, tem câmera. Se um ministro ou secretário executivo desce, todo mundo conhece, não tem a menor possibilidade de acontecer isso", disse.

Desempenho. Na visão de aliados, a situação do ministro depende muito do seu desempenho perante os parlamentares. "Temos que aguardar a audiência, mas ele fez bem em se oferecer para ir à Câmara, mostra que ele está disposto a esclarecer", disse o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN). "Ele tomou uma posição firme, deu uma resposta positiva, pediu à Polícia Federal para investigar e vai ao Congresso nesta semana. Acho que é uma postura positiva porque ele não se escondeu."

O presidente do PC do B, Renato Rabelo, atribui os ataques de João Dias a uma "tentativa intimidatória contra o partido". Afirmou que o partido não interfere na rotina da pasta, mas ressaltou a confiança em Orlando Silva. O presidente do diretório do partido no DF, Augusto Madeira, disse que João Dias não é militante, apesar de ter se candidato a deputado distrital em 2006.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.