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Depoimento: 'Quem parou a Espanha não foram grevistas barbados. Mas Lolas, Cristinas e Marías'

Pesquisadora brasileira vivendo em Barcelona conta como foi a greve de mulheres que colocou o questionamento do machismo no centro de todos os debates

Marta Orsini*, Especial para o Estado

09 Março 2018 | 17h17

As mãos estavam encolhidas no bolso do casaco. Enquanto eu caminhava apressada, com o rosto afundado no cachecol, avistei, lá do alto da ponte, dois trens parados. As pessoas, atônitas, se aglomeravam nas plataformas, olhando fixamente os monitores. As portas dos vagões, escancaradas, e os avisos sonoros, repetidos à exaustão, indicavam que, tão cedo, ninguém conseguiria ir a lugar algum.

Em vez de franzir a testa, sorri. Isso mesmo, esta paulista do ABC, que cresceu ouvindo disparates sobre greves, estava absolutamente maravilhada com o que estava testemunhando. Não, não era só por causa do respeito predominante ao simples direito de protestar. O que me maravilhava é que quem estava parando a Espanha não eram grevistas barbados e de voz grave. Desta vez, eram Lolas, Cristinas y Marías.

Precisei viver mais de 40 anos para testemunhar um movimento sem precedentes, convocado e protagonizado apenas por mulheres. Nesta quinta-feira, 8, Dia Internacional da Mulher, mais de 5 milhões cruzaram os braços em todo o país, cada qual à sua maneira. A maioria fez greves totais ou parciais ao longo do dia, mas também houve uma pequena parcela, de homens, que aderiu à paralisação.

Desta vez, no entanto, eles não estavam em palcos, ávidos por gritar palavras de ordem. Neste histórico 8 de março, muitos ficaram em casa, fazendo atividades domésticas e de cuidados, enquanto suas companheiras, irmãs, mães, filhas ou amigas ocupavam as ruas.

Depois de me acomodar em um dos vagões, onde permaneceria durante quase 1 hora até que o trem saísse do lugar, vi outra mulher chegando, de roxo, a cor do feminismo. Também com um sorriso no rosto, ela me cumprimentou com um olhar de cumplicidade. Trocamos algumas palavras e nos despedimos calorosamente quando desci na estação de Sarrià.

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Ao cruzar com centenas de passageiros, não escutei qualquer comentário raivoso ou indignado. Mesmo com os atrasos causados pela presença de manifestantes nos trilhos, o clima era de total tranquilidade. Mais tarde, a caminho de uma histórica passeata pelo famoso Passeig de Gràcia, o ambiente amistoso se mantinha.

A mesma solidariedade que vi em agosto, após os atentados de Barcelona, estava nos rostos e nos gestos. Mas, desta vez, a mobilização não era pela comoção causada por um único caso brutal, mas por milhões. Nesta quinta-feira, as pessoas afetadas por esse tipo de violência tão minimizado deram um passo incrível: conseguiram, por fim, colocar o questionamento do machismo no centro de todos os debates.

Marta Orsini é jornalista com doutorado em Comunicação e Gênero pela Universidade Autônoma de Barcelona. Mora na Espanha há 10 anos, trabalhando como tradutora, pesquisadora e professora.

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