'Depois de nos procurar, muitas desistem'

Querendo ou não a gente vive num mundo machista, por isso esse cuidado é importante. A mulher precisa se sentir acolhida ali, para que siga dando novos passos na sua luta

Beatriz Esteves Senra*, em depoimento a Aline Reskalla, especial para o Estadão

07 de agosto de 2021 | 05h00

Trabalho em uma equipe de quatro pessoas responsável pelo acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica. Acredito que o mais importante nessa tarefa é ter empatia e entender o lado da vítima, não fazer julgamentos.

Querendo ou não a gente vive num mundo machista, por isso esse cuidado é importante. A mulher precisa se sentir acolhida ali, para que siga dando novos passos na sua luta.

Nosso trabalho é acolher, escutar a história de cada uma, entender a situação, informar a vítima sobre seus direitos. Chegar a denunciar já é muito difícil. Ainda é muito comum, mesmo depois de nos procurar, muitas mulheres desistirem. Também dizem: 'Não quero prejudicá-lo'. 

Enfim, uma das vantagens da Lei Maria da Penha é que, se existe a agressão física, o processo segue independentemente de qualquer decisão da vítima. É uma lei importantíssima, o ideal seria não precisar dela, mas a realidade é bem diferente: nossa sociedade tem o machismo enraizado.

*Beatriz Esteves Senra é psicóloga da Câmara de BH

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Maria da Penha: os 15 anos da lei que respeita a mulher

Para juíza, trata-se de um retrato de uma sociedade machista. Desafio é diminuir número de vítimas. Psicóloga vê uma carência de delegacias. Mais transformações ainda são necessárias

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 10 de agosto de 2021 | 16h17

A Lei Maria da Penha, o principal marco do enfrentamento à violência contra mulheres no Brasil, completa 15 anos neste sábado, 7. Entre os méritos, a legislação passou a reconhecer a existência de machismo estrutural e mudou a forma de o Estado compreender as vítimas. Mesmo assim, o País ainda enfrenta desafios para reduzir o alto patamar de crimes e implementar políticas públicas de proteção, acolhimento e igualdade para mulheres.

A análise acima está presente em depoimentos de vítima, psicóloga, delegada, promotora e juíza, ouvidas pelo Estadão, que atuam em casos de violência contra mulheres. "A Maria da Penha é considerada uma das três maiores leis de proteção à mulher do mundo", afirma a juíza Marixa Fabiane Rodrigues. "Mas é importante lembrar que ela só veio depois que o Brasil foi condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos pela omissão das autoridades, após tentativas de homicídio que a própria Maria da Penha sofreu do marido."

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil notificou 1.350 feminicídios em 2020, ou um caso de assassinato a cada 6 horas e meia. Três a cada quatro vítimas tinham entre 19 e 44 anos e a maioria (61,8%) era negra. Também houve registro de 230.160 agressões contra mulheres. Uma violência a cada 2 minutos.

Segundo especialistas, os desafios se acentuaram com a pandemia de covid-19, pois o isolamento social forçou mulheres a ficarem mais próximas de agressores. "Buscamos alternativas para que as mulheres pudessem denunciar sem sair de casa", diz a delegada Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) de São Paulo. Na capital paulista, um estudo da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, divulgado nesta sexta-feira, 7, mostra que a maioria das vítimas atendidas era branca (51%). De 6,4 mil mulheres, 19,4% não tinham renda.

"Os dados comprovam que a violência atinge todas, indistintamente, e que a raiz destas agressões é estrutural em nossa sociedade", diz a secretária municipal Claudia Carletto.

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