Deputado acusado no caso Abadía

Cidinha Campos (PDT) acusou em plenário Eduardo Cunha (PMDB) de ter feito negócios com traficante

Fabiana Cimieri e Rodrigo Pereira, O Estadao de S.Paulo

11 Outubro 2007 | 00h00

A deputada estadual Cidinha Campos (PDT) acusou ontem, no plenário da Assembléia Legislativa do Rio, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) de vender ao megatraficante Juan Carlos Ramírez Abadía uma casa em Angra dos Reis. Segundo a deputada, o empresário Daniel Maróstica, operador do colombiano, teria comprado a casa atribuída a Cunha de um laranja do deputado por US$ 800 mil (cerca de R$ 1,6 milhão), em dinheiro, e meses depois revendido ao mesmo laranja por US$ 700 mil. "Um deputado federal negocia com o maior traficante do mundo duas vezes: uma para vender a casa e outra, depois, para comprar a mesma casa. Fez sem querer? Ele não sabia? Bom, ele sabia que tinha de declarar, pois um deputado federal não pode comprar uma casa - ou vendê-la por US$ 800 mil - e não declarar ao Imposto de Renda", discursou. Cidinha atribuiu a negociata a Alexandre D?Thuin da Cunha Gomes, que seria proprietário da GAP Administração e Participações Limitada - empresa que efetuou a compra e a venda suspeitas. Ele é filho do fiscal da Receita Estadual Francisco Roberto da Cunha Gomes, a quem Cidinha chamou de "Olho-de- Boi" e afirmou ser um testa-de-ferro do deputado. A deputada suspeita que os dois sejam primos e considera "estranho" terem o mesmo advogado, Carlos Kenigsberg. Recentemente, Francisco foi investigado numa CPI da Assembléia que apurou a queda na arrecadação do ICMS no Rio. Segundo Cidinha, a suspeita da negociata vem de longa data e teria sido comprovada com a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Alexandre e do pai. Ela disse ainda que a informação de que Cunha seria o verdadeiro proprietário do imóvel foi repassada pelo advogado do narcotraficante, Sergio Alambert. O advogado teria contado que Abadía vendeu a casa com prejuízo por considerar que ela ficava num local muito visado, uma vez que o Condomínio do Frade é ponto de encontro da alta sociedade carioca. O advogado de Abadía ainda teria dito que o deputado informou isso no depoimento nesta semana na Polícia Federal de São Paulo. Procurado, Alambert confirmou que Maróstica comprou a casa em nome de Abadía de "um Alexandre, dono da Gap", por contrato de gaveta. Mas descartou a possibilidade de o cliente ter falado do deputado e disse que a revenda foi feita "à revelia do Abadía". "O Maróstica vendeu sem que ele soubesse e isso o deixou chateado", concluiu. O advogado de Maróstica, Julio Clímaco Júnior, negou que ele tenha mencionado o nome de Cunha nos autos. "Só posso afirmar que vários bens foram comprados." O deputado Eduardo Cunha também descartou com veemência todas as acusações: disse que nunca comprou, não recomprou casa em Angra nem tem condições de ter imóvel no balneário. Ele também negou ter prestado depoimento à PF. "Tenho foro privilegiado e posso escolher dia, hora e local, mas nunca depus sobre esse assunto. Renuncio a meu mandato se provarem que eu fui depor", afirmou. Cunha confirmou conhecer Kenigsberg, mas negou ter qualquer relação com o fiscal. "Sei lá se o conheço. A única pessoa que conheço é o advogado, que, por acaso, também era advogado dele." Quando acolheu a denúncia contra a quadrilha de Abadía, no dia 14 de setembro, o juiz federal Fausto Martin de Sanctis determinou a venda do imóvel de Angra em leilão. No despacho, Abadía é apontado como "proprietário de fato" da casa e Daniel Maróstica como "responsável pela aquisição" da casa que está no nome de Alexandre.

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