Deputado diz que foi alertado sobre 'liberação de recursos'

Adriano Diogo (PT) conta que em 2005 o então secretário de Saúde lhe disse para tomar cuidado com 'desvio de finalidade'

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2011 | 03h04

Em meio à tensão dos debates do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo, terça-feira, o deputado Adriano Diogo (PT) revelou a seus pares: "Quando eu cheguei aqui na Assembleia o dr. Barradas me ligou e disse para eu me preocupar com as emendas. Ele disse: 'Adriano, você está chegando, toma cuidado com a liberação de emendas para que não haja desvio de finalidade, de recursos.' Foi um conselho de amigo".

Luiz Roberto Barradas Barata foi secretário estadual de Saúde por sete anos, nos governos Geraldo Alckmin e José Serra - desde 2003 até julho de 2010, quando morreu, vítima de infarto.

O telefonema de Barradas para o deputado foi em 2005, lembra Diogo, respeitado por seu destemor na resistência ao arbítrio, nos idos de 60. Nos primeiros dois anos de seu mandato (2003/2004) como deputado, ele licenciou-se para o cargo de secretário do Meio Ambiente (gestão Marta Suplicy).

"Fui para a Assembleia só em 2005", assinala Diogo. "Eu tinha uma dificuldade muito grande de entender o sistema de emendas. A orientação que eu tinha do governo era transferir emendas para a saúde. Para liberação teria que ir para a saúde."

Para o deputado Campos Machado, líder do PTB, as declarações de Diogo reforçam a suspeita de que desde aquela época já havia problemas com as emendas e que tal situação era de conhecimento do governo. "A revelação (de Diogo) confirma o que o Roquinho denunciou", avalia Campos, referindo-se ao deputado Roque Barbiere, de seu partido, que deflagrou o escândalo do mercado de emendas parlamentares na Casa. "Infelizmente não posso arrolar como testemunha o Barradas, só se for pelo Supremo Tribunal Celestial."

"Não abri um processo acusatório, mas disse com a maior sinceridade", ressalta Diogo. "O dr. Barradas tinha preocupação, ele é que tinha a caneta na mão e todos os instrumentos de controle para liberar ou não as indicações. Eu tinha amizade pessoal com o dr. Barradas. Ele tinha uma preocupação enorme com as emendas, por isso sugeriu que eu fosse criterioso. Desde então o grande dreno que eu tenho é mandar para saúde, de preferência para a própria secretaria. Segui sua orientação rigorosamente."

"Chegou o fim do ano eu procurei a Casa Civil", narra Diogo. "O dr. Barradas ligou: 'Embora você tenha enviado indicações, não tem mais prazo para tramitar. Uma emenda tramita de 90 a 120 dias, único jeito de liberar as emendas é indicar para a saúde. No fim do ano a destinação natural é a saúde. Você seja bem criterioso na distribuição das suas emendas para que não tenha problema de nenhum tipo.'"

Blindagem. Sobre a possibilidade de depor, Diogo foi taxativo. "Não tem problema nenhum, eu falei espontaneamente. Nunca fiz rolo, todos me conhecem. Agora, eu queria entender porque ele (Campos) não leva o Roquinho para depor. Por que blindaram (Barbiere)? O Bruno (Covas) fez uma denúncia, mas querem abafar. O Bruno sempre foi da Comissão de Finanças da Assembleia, sabia tudo lá."

"Na realidade não fazemos emendas, nós fazemos indicações", observa o petista. "Qualquer indicação que a gente faz tramita no governo e por muitos meses. O governo faz todo o filtro e avaliação. O governo tem condições de saber quem vai receber, se a entidade é idônea, se usou devidamente o recurso."

Diogo adverte: "O grande problema são as emendas não escrituradas, elas não entram no orçamento. Quem sabe tudo de emendas é o governo. Tem o controle total. Se tem malversação o governo tem condição de identificar. Eles (governo) devem estar preocupados, tanto é que não publicam as emendas".

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