Deputado rebate crítica à entrevista sobre política na Venezuela

Em resposta ao blog de Mario Vitor Rodrigues, do 'Estado', Chico Alencar (PSOL) nega que tenha tergiversado sobre o assunto

Chico Alencar *, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2017 | 23h27

No dia 13 de agosto, o publicitário e escritor Mario Vitor Rodrigues publicou em seu blog um texto em que comenta entrevista minha à revista Época sobre a questão da Venezuela.

Detalho: enquanto a Secretaria (nacional) de Relações Internacionais do PSOL declarou apoio ao governo de Nicolás Maduro, no dia 31/07, no dia seguinte o PSOL Carioca divulgou nota de apoio ao povo venezuelano, mas não ao governo daquele país irmão.

Declarei que faltou diálogo entre a direção nacional do partido e a seção do Rio de Janeiro. De fato, considero branda a crítica feita ao governo atual pela Secretaria de Relações Internacionais. Pontuo, por outro lado, que, na falta de uma discussão maior do partido sobre o tema, foi democrática a postura da secretaria ao divulgar a última posição tomada em conjunto, em 2015, bem como a seção carioca se contrapor.

No entanto, a análise supostamente "distanciada" do blogueiro termina ainda no primeiro parágrafo. "O intuito [de eu dizer que o governo Maduro é um assunto polêmico] foi, tão somente, tergiversar sobre o apoio manifestado pelo seu partido à sanguinária ditadura imposta por Nicolás Maduro", infere Mario.

Ora, se na mesma entrevista critico meu partido (dizendo que faltou diálogo entre os diretórios), a situação na Venezuela (que defino como "tragédia") e a própria esquerda, que afirmo que por vezes apoia sem restrições o processo bolivariano, onde tergiverso?

No terceiro parágrafo, por sua vez, o autor é mais direto: "seria Chico Alencar um caso de ignorância sincera ou trata-se apenas de um perfeito cara de pau?", questiona - de forma grosseira, aliás.

Segue o texto: "Com quase 30 anos na política, mais da metade deles no Partido dos Trabalhadores, o deputado carioca não merece o benefício da dúvida", delibera o publicitário. Faltou dizer, já que a ele não resta dúvida, se sou, em sua opinião, um ignorante político ou um "cara de pau".

Nunca me fechei a críticas, que desde minha atuação como professor sempre recebi de bom grado e me fizeram crescer como profissional, como cidadão e, na vida parlamentar, como representante do povo. Acredito que, em tempos de recrudescimento da intolerância em escala mundial, de maniqueísmo político e de polarização, mais do que nunca críticas e análises devem ser feitas com base em dados sustentáveis e em fatos, não em meras opiniões subjetivas.

Acrescente-se que não tenho qualquer dilema moral em ter atuado durante 18 anos no Partido dos Trabalhadores, legenda que deixei em 2005, quando os princípios e práticas que norteavam o partido se afastaram dos meus e de muitos outros filiados.

Concluo ratificando minha afirmação que deixou Mario Vitor entre confuso e indignado: "a democracia deve ser um valor absoluto da esquerda". Diferentemente do que o publicitário diz, o socialismo que almejamos não tem "natureza autoritária, violenta e inescrupulosa". Se a História nos ensinou que o autoritarismo burocrático do Leste europeu estava fadado ao fracasso, é imprescindível que nós, do Partido Socialismo e Liberdade, trabalhemos incansavelmente para aplicar nosso entendimento de um socialismo democrático, inclusivo e representativo das massas e das minorias. Não há mais modelos e é preciso ressignificar a própria democracia.

* CHICO ALENCAR É DEPUTADO FEDERAL 

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