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O convite partiu da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), entidade presidida pelo cardeal D. Cláudio Hummes M?RCIO FERNANDES/ESTADÃO

Deputados da oposição são convidados para evento paralelo ao Sínodo da Amazônia

O convite partiu da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), entidade presidida pelo cardeal D. Cláudio Hummes, relator-geral do sínodo. Ele chamou deputados de partidos como PT, PSB e Rede Sustentabilidade para participar de atividades

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 17h17

BRASÍLIA - Deputados de oposição ao governo Jair Bolsonaro se organizam para viajar ao Vaticano a fim de denunciar violações de direitos humanos na Amazônia Legal, durante o Sínodo dos Bispos. Conforme revelou o Estado, o papa Francisco vetou a presença de políticos com mandato no encontro, mas entidades ligadas à Igreja convidaram os parlamentares brasileiros para um evento paralelo.

O convite partiu da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), entidade presidida pelo cardeal D. Cláudio Hummes, relator-geral do sínodo. Ele chamou deputados de partidos como PT, PSB e Rede Sustentabilidade para participar das atividades da tenda 'Casa Comum'.

Espaço aberto e coletivo, conexo ao sínodo, a tenda é organizada por entidades católicas, entre elas a Repam, a Cáritas, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Movimento Católico Global pelo Clima - e não diretamente pela Santa Sé. No encontro restrito aos bispos, o papa proibiu, além dos políticos, militares de participarem das assembleias e reuniões, apesar de esforços diplomáticos do governo brasileiro para ter voz no encontro global de bispos.

Os deputados foram convidados para falar no dia 14 de outubro, um dia após a canonização de Irmã Dulce. Eles pretendem apresentar na tenda um relatório sobre a situação dos diretos humanos na Amazônia Legal. O texto, em fase final de elaboração, é coordenado pelo deputado Helder Salomão (PT-ES), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Outros deputados assinaram o documento, entre eles os líderes da oposição, Alessandro Molon (PSB-RJ), e da minoria, Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Nenhum é alinhado a Bolsonaro.

O documento preparado por Salomão inclui o relato de três visitas recentes feitas pela comissão para fiscalizar ocorrências na Amazônia: a disputa por terras quilombolas no entorno da base de lançamentos espaciais em Alcântara (MA), o massacre nos presídios de Manaus (AM) e a morte do cacique Emyra Wajãpi, na terra indígena da etnia no Amapá. A comissão se opôs ao acordo com os Estados Unidos para exploração da Base de Alcântara (MA), denunciou "falhas crassas" na segurança, "condições insalubres" e "provável prática de tortura" nas cadeias manauaras e contestou o inquérito sobre a morte do cacique Wajãpi, que teria se afogado, segundo a Polícia Federal - o conselho das aldeias locais denunciou um suposto assassinato cometido por garimpeiros invasores, o que a investigação não confirmou.

Deputado pede a Maia que autorize viagem

Helder Salomão vai pedir ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a formação de uma comitiva para viajar em missão oficial, com despesas custeadas pelo Legislativo. Segundo o petista, sem o aval de Maia, os deputados até podem viajar ao Vaticano, mas levariam falta nas atividades parlamentares, com desconto salarial. "Se o deputado não viaja em missão oficial, não poderá falar em nome do parlamento brasileiro", pondera o petista.

Além dele, também foram convidados pela Repam para ir ao Vaticano, entre outros, nomes como Airton Faleiro (PT-PA), Camilo Capiberibe (PSB-AP) e Joênia Wapichana (Rede-RR) - única indígena no Congresso e presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas.

A tenda Casa Comum vai sediar em Roma encontros entre os padres, bispos e cardeais que participam do sínodo, leigos e religiosos - que levarão 50 representantes dos povos indígenas da Amazônia. As atividades da tenda vão além das oficiais, que são restritas à lista de participantes do sínodo.

A tenda será instalada num ambiente cedido por padres carmelitas, da Igreja de Santa Maria em Transpontina, perto da Praça São Pedro. No espaço, haverá palestras, debates, vigílias, peregrinações, apresentações de costumes tribais e exposições de documentários e fotografias sobre temas como violência contra índios no Brasil, impactos negativos da mineração e a vida da irmã missionária Dorothy Stang, assassinada há 14 anos, em Anapu (PA).

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Ninguém pode dizer 'isso não me afeta' sobre incêndios na Amazônia, defende papa

'Não é (um problema) apenas daquela região, é um problema mundial', completou o pontífice

Das agências, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 16h42

VATICANO - O papa Francisco disse que os incêndios na Amazônia são um problema global que devem ser enfrentados por todos e defendeu que o Sínodo dos Bispos deve propor soluções "antes que seja tarde demais". O pontífice participou nesta quinta-feira, 3, de uma audiência no Capítulo Geral da União Romana da Ordem de Santa Úrsula.

O papa se referiu à situação da Amazônia ao fazer uma análise sobre a situação atual mundial,"cada vez mais interconectada e habitada por povos que fazem parte de uma comunidade global". "Por exemplo, o problema dos incêndios na Amazônia, não é apenas daquela região. É um problema mundial, assim como o fenômeno migratório não se refere a apenas alguns países, mas a toda a comunidade internacional", afirmou. 

"Estamos todos mais próximos dos grandes desafios que devemos enfrentar. Atualmente, ninguém pode dizer 'isso não me afeta', completou. A declaração foi feita às vésperas do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, que acontece de 6 a 27 de outubro, no Vaticano, e discutirá novas formas de evangelização na floresta tropical.

O cardeal brasileiro Claudio Hummes, relator geral da assembleia desta quinta-feira, defendeu que a Igreja Católica faz parte da "história e identidade" da Amazônia há quatro séculos e, por isso, deve ajudar a apresentar soluções para a região. A celebração deste Sínodo sofreu críticas do governo Bolsonaro, que considerou o encontro como uma interferência na soberania do País.

Em seu discurso, Hummes explicou que o Sínodo falará sobre a crise climática, a crise ecológica como resultado da degradação, poluição e devastação do planeta, especialmente na Amazônia. Também tratará da crescente crise social que afeta principalmente os povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e aqueles que vivem nos subúrbios das cidades amazônicas. 

 

 
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    Sínodo da Amazônia reflete 'polarização do Vaticano'

    Reunião dos 250 bispos da Igreja Católica começa no domingo, 6, com divergências radicais entre conservadores e progressistas

    Ocimara Balmant, especial para o Estado

    03 de outubro de 2019 | 15h00

    SÃO PAULO - A partir de domingo, 6, 184 bispos se reunirão para o Sínodo da Amazônia, que discutirá durante 20 dias, no Vaticano, a presença da Igreja Católica na região. A questão ambiental estará no centro das discussões - até por conta dos incêndios que devastam a floresta -, mas o olhar dos clérigos se voltará também para temas que refletem o momento de polarização do Vaticano.

    Conservadores e progressistas divergem radicalmente em dois assuntos que virão à tona no Sínodo: a ordenação de homens casados e a maior participação das mulheres na Igreja. Os dois temas estão no documento preparatório para o Sínodo porque a escassez de padres impede a expansão da Igreja na região amazônica.

    Se a Igreja vai adequar suas diretrizes sobre esses assuntos, só se saberá quando o papa proferir a exortação apostólica - e isso não tem data estipulada para acontecer. Mas o fato é que este Sínodo acontece em um momento em que Francisco é "espremido" pelos dois lados.

    Na extrema direita da Igreja - para usar termos comuns à polarização -, cardeais pedem que ele renuncie e conclamam os fiéis a jejuarem para que as "heresias" pregadas pelo pontífice não sejam aprovadas. No outro extremo, os progressistas alemães estão prestes a realizar o Caminho Sinodal para discutir se o celibato obrigatório é a melhor maneira de um padre viver no século 21 e por que as mulheres não podem ser ordenadas como diáconas ou padres.

    Estar no meio desse embate é exatamente o grande mérito deste pontificado, afirmam os teólogos.

    "O caráter mais profético de Francisco é que ele se torna um homem de diálogo quando a sociedade ocidental parece ter desistido de dialogar", afirma Francisco Borba, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

    Em termos eclesiásticos, isso significa que Francisco faz a síntese das duas tendências: reconhece a necessidade de um arejamento doutrinal, mas mantém posicionamentos como a valorização do misticismo e a pregação de que gênero é apenas o biológico.

    "Ao tentar fazer uma síntese em um momento de aumento de polarização, o papa começa a encontrar objeções dos mais conservadores, que achavam que estavam se fortalecendo no pontificado de Bento XVI, e desagrada também o grupo progressista, que descobre que o progressismo dele não era o progressismo que imaginavam", explica Borba.

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    O caráter mais profético de Francisco é que ele se torna um homem de diálogo quando a sociedade ocidental parece ter desistido de dialogar
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    Francisco Borba, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP

    Ao primeiro grupo, que pede sua renúncia e o acusa de herege, Francisco não responde. Aos alemães, escreveu uma carta dirigida aos fiéis na qual disse "compartilhar a preocupação sobre o futuro da Igreja na Alemanha", todavia também alertou sobre o risco de se colocar em pauta processos que podem prejudicar a unidade da Igreja.

    "A Igreja universal vive em e das Igrejas particulares, assim como as Igrejas particulares vivem e florescem em e da Igreja universal, e se encontrarem-se separadas do corpo eclesial por inteiro, se enfraquecem, secam e morrem", disse.

    Polarização é estridente, mas representa minoria

    A opinião dos estudiosos é de que Francisco sabe que, tanto de um lado quanto de outro, apesar do barulho que fazem, esses grupos são minoria.

    "É óbvio que esse ruído de polarização afeta os processos internos de convergência da Igreja, mas o papa segue firme em sua forma sábia de conciliar capacidade de inovação e compromisso com a tradição. Tanto é que está fazendo de forma corajosa, lúcida e antecipada um debate socioambiental contextualizado, como é o Sínodo da Amazônia", diz Moema Miranda,  antropóloga e assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam).

    A pesquisadora acredita que a proposta deste Sínodo seja uma atitude extremamente progressista.

    "Francisco vai unir a leitura de fé da Igreja, com a sabedoria dos povos ancestrais e os avanços científicos. No documento preparatório do Sínodo, o papa diz que não devemos ser apenas amigos dos indígenas, mas devemos nos deixar evangelizar por eles. Isso é menos progressista do que defender a ordenação de mulheres? Acho que não."

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    O papa diz que não devemos ser apenas amigos dos indígenas, mas devemos nos deixar evangelizar por eles. Isso é menos progressista do que defender a ordenação de mulheres? Acho que não
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    Moema Miranda, antropóloga e assessora da Repam

    Paciência histórica

    Mas, se Francisco ousa na questão socioambiental, porque segue a passos lentos nos questionamentos da Igreja da Alemanha, que tem perdido fiéis aos milhares e vê na ordenação de mulheres e no fim do celibato obrigatório um caminho para se reerguer?

    "Porque o papa não quer uma ruptura com o corpo da Igreja. E isso, numa instituição de 2 mil anos, exige uma certa paciência histórica", explica Maria Clara Bingemer, professora titular do departamento de Teologia da PUC-Rio. "Após o Sínodo da Família, Francisco já abriu o discernimento das igrejas locais sobre a eucaristia para os casados de segunda vez. Depois deste Sínodo da Amazônia, é capaz de ter abertura de uma brecha para a ordenação de padres casados, como quer a Alemanha. Mas é tudo muito lento, mesmo."

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    o papa não quer uma ruptura com o corpo da Igreja. E isso, numa instituição de 2 mil anos, exige uma certa paciência histórica
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    Maria Clara Bingemer, professora titular do departamento de Teologia da PUC-Rio

    À Igreja Alemã, acredita, vai caber esperar.

    "O papa entende a angústia dos cardeais alemães que veem suas igrejas esvaziando, e sabe que as questões são urgentes. Mas, ao mesmo tempo, acredita que deve haver uma maneira de fazer que não cause um cisma. Também não quer tomar uma decisão apressada, que seja revogada no próximo pontificado."

    Francisco completou 82 anos, e as especulações sobre quem vai assumir o trono de Pedro já começaram. Se não há exatamente uma bolsa de apostas com nomes, os dois lados da balança se mobilizam. Ultraconservadores querem alguém que "volte a Igreja aos eixos", mas o próprio papa tem se empenhado para um "governo de continuidade".

    Um levantamento do vaticanista Thomas Reese mostra que, quando Francisco foi eleito papa, 62% de todos os cardeais eram da Europa e dos Estados Unidos. O "papa do fim do mundo" mudou o cenário. Hoje, o porcentual de europeus e estadunidenses - grupo que concentra os ultraconservadores - caiu para 49%. Enquanto isso, cresceu o número de latino-americanos, africanos e asiáticos com poder de voto no próximo conclave.

    "A gente acredita que o Espírito Santo inspire, mas é sempre bom preparar o conclave", brinca a teóloga da PUC. "Não se pode deixar tudo nas costas do Espírito Santo."

    Para entender: Sínodo x Concílio

    • A palavra "sínodo" vem de duas palavras gregas: "syn", que significa "juntos", e "hodos', que significa "estrada ou caminho'. Na Igreja Católica, Sínodo é uma espécie de encontro de bispos, convocado de tempos em tempos pelo papa, para discutir temas predeterminados por ele. O sínodo tem caráter consultivo. Após o Sínodo, o papa emite um documento chamado "exortação apostólica", no qual resume e aprova as principais conclusões dos bispos durante as reuniões. O Sínodo da Amazônia é o quarto do pontificado de Francisco.
    • Já o Concílio consiste em uma reunião formal de representantes da Igreja para tomar decisões dogmáticas e pastorais com vistas a ajudar no crescimento da Igreja, na eliminação de erros e na difusão das verdades da fé. Um concílio, portanto, tem caráter decisório. Em 2 mil anos de existência, a Igreja reconhece 21 Concílios e ainda acrescenta o chamado “Concílio de Jerusalém”, reunião narrada nos Atos dos Apóstolos. O último concílio foi o Vaticano II. Nos seus três anos de trabalho, o Concílio, aberto por João XXIII e concluído por Paulo VI, revolucionou o modo como a Igreja se via e como ela via o mundo. Para se ter uma ideia, só após o Vaticano II as missas passaram a ser rezadas na língua de cada país - antes eram celebradas sempre em latim.

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