Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Desabrigados pela lama enfrentam preconceito e desconfiança em Mariana

Crianças de distritos devastados pelo rompimento da barragem da Samarco são chamadas de ‘pé de lama’ na escola, enquanto seus pais são vistos como ‘aproveitadores’ por quem dependia da mineração para viver. Segundo os atingidos, a discriminação é ‘diária’

Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, ENVIADOS ESPECIAIS

29 Outubro 2016 | 19h30
Atualizado 30 Outubro 2016 | 12h28

MARIANA - Seus filhos são chamados de “pés de lama” na escola. Quando fazem compras, recebem olhares de discriminação ao apresentar seus cartões de débito, fornecidos pela Samarco. Tiveram de ler no principal jornal local que eram “aproveitadores” e exploravam a mineradora. Passado um ano do dia em que tiveram de correr pela vida, deixando para trás todos os bens, os moradores do subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, são discriminados como se fossem eles a causa da tragédia que atingiu o município.

O Estado começa neste domingo, 30, uma série especial sobre o primeiro ano da tragédia causada pelo rompimento, em 5 de novembro de 2015, da Barragem de Fundão, da Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billinton, que deixou desabrigadas 1.500 pessoas – 236 famílias de Bento, 108 de Paracatu de Baixo e 8 de Gesteira, em Barra Longa –, além de prejudicar a economia e o abastecimento de água de 27 cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo. Ainda hoje, a lama da barragem continua a tingir o Rio Gualaxo do Norte, que deságua no Rio do Carmo e segue para o Doce.

No centro de Mariana, nas praças durante o dia e nos bares à noite, pipocam histórias atribuídas a moradores de Bento. “O cara tinha uma vaca, agora fala para a Samarco que eram cem”, disse à reportagem o dono de um bar. “O rapaz disse que tinha um cofre cheio de dinheiro em casa que a lama levou. Acharam o cofre e não era nada disso”, emendou um cliente na conversa. 

Essas histórias não só chegam aos ouvidos das vítimas como também são ditas diretamente a elas. Em janeiro, um jornal da cidade, que aceita colaboração de colunistas externos, publicou texto que dizia: “Todos estão aproveitando do ocorrido para extorquir dinheiro e levar alguma vantagem”. O autor do texto se retratou por escrito após o Ministério Público propor ação pública contra ele. 

“A gente se sente refugiado aqui, como naquelas imagens de refugiados que vemos na TV. Estamos em um lugar que não queríamos, e tem gente que não nos queria aqui também”, afirmou a recepcionista de consultório Maria das Graças Quintão dos Santos, de 59 anos. “A gente evita sair de casa. Só sai para trabalhar e voltar. Ou para visitar as ruínas de Bento.”

Na rua, a discriminação é diária. “Você entra no mercado para comprar as coisas do dia e, quando mostra o cartão (da Samarco), eles dizem: ‘olha o povo do Bento’. Eu tinha renda de R$ 8 mil. Como vou ser um ‘aproveitador’ com um salário mínimo?”, questionou o construtor civil Alexandre Juliano Vieira, de 39 anos, um dos atingidos. 

O problema aumenta na escola. “As crianças devem mudar de colégio no ano que vem. Vão para uma escola só delas. Estavam se acostumando, mas tem gente que está chamando elas de pé de lama”, afirma o trabalhador rural Francisco de Paula Felipe, de 47 anos.

O promotor público de Direitos Humanos de Mariana, Guilherme Meneghin, investiga a criação de um abaixo-assinado exigindo a saída dos alunos de Bento da escola para onde foram enviados, no centro, que dividem com as demais crianças da cidade. A portaria de abertura do inquérito cita o “preconceito por parte de alguns moradores de Mariana contra os atingidos que recebem auxílio financeiro da Samarco”.

Brigas. Os atingidos pela lama passaram os últimos 12 meses recorrendo à Justiça para combater a discriminação e cobrar ações da mineradora. São audiências mensais no Fórum de Mariana. Além de Bento Rodrigues, há ainda ex-moradores dos distritos de Paracatu de Baixo, em Mariana, e de Gesteira, da vizinha Barra Longa. Esses eventos começam às 14 horas e, não raramente, só acabam na madrugada do dia seguinte. “São audiências para discutir a ação emergencial. Precisamos, logo, começar a tratar das indenizações”, afirma o promotor Meneghin. Eles também discutem os problemas em reuniões semanais, em uma comissão de atingidos. 

Um dos problemas discutidos na semana passada foi justamente os cartões da Samarco, que tanto atraem as críticas dos moradores de Mariana. “Os cartões estão vencendo. O acordo de ajuda era por um ano, e está vencendo agora. O pessoal está meio preocupado, porque ninguém sabe se vão renovar”, afirma o trabalhador rural Felipe. Além do cartão, os moradores já receberam um adiantamento da indenização final, que ainda não foi discutida. Foi uma ajuda de R$ 20 mil, dinheiro que não resolveu a vida de ninguém.

“Tem muita gente triste, com depressão. A pessoa tem isso e vai ficando ruim, com problemas de saúde. Antes, raramente morria alguém. Depois da tragédia, três moradores de Bento já morreram. Para mim, foi de tristeza. Não estavam se acostumando. É capaz de a gente voltar para o novo Bento doente”, conclui Felipe.

Desemprego atinge 25% da população

A Samarco informou, por meio de nota, que “relatos de casos de discriminação contra impactados chegaram ao conhecimento da empresa”. “Em todas as reuniões de diálogo com a comunidade tem sido discutida a importância de se evitar qualquer tipo de conduta deste tipo”, disse a empresa. A reportagem questionou se a empresa avaliava ter alguma responsabilidade sobre essa situação, mas a Samarco não respondeu.

O Estado tentou, por dois dias, contato com o prefeito de Mariana, Duarte Júnior (PPS), mas ele não atendeu. A assessoria de imprensa da prefeitura disse que não tinha informações sobre a transferência dos alunos vindos de Bento Rodrigues para outra escola. 

Demissões. A cidade de Mariana tem taxa de desemprego de 25%, segundo a prefeitura - mais do que o dobro do índice nacional. São 13 mil pessoas. “Uns 70% têm relação direta com a paralisação da Samarco. A empresa tinha muitas empresas terceirizadas que tiveram seus contratos suspensos, estas foram obrigadas a demitir seus trabalhadores”, informou a administração municipal. 

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Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, ENVIADOS ESPECIAIS

29 Outubro 2016 | 19h30

MARIANA - Antes da tragédia, seu bar constava no guia turístico da cidade. Um grande feito, dada a vocação de Mariana, com suas igrejas históricas, para o turismo. Localizado bem ao lado da placa que indicava que a rua fazia parte da Estrada Real, rota turística entre cidades de Minas e Rio, e também da igreja de Bento Rodrigues, erguida no século 18, o “Bar da Sandra” era famoso pela coxinha e, segundo contam os clientes, pela hospitalidade. 

“Teve uma vez que estávamos falando sobre os atingidos, e ouvi uma mulher dizer ‘deviam ter morrido todos’. Ela não sabia quem eu era. Eles acham que estamos explorando a Samarco”, lamenta Sandra Domertides Quintão, de 44 anos, a dona do bar. Seus grandes olhos azuis denunciam cada vez que se emociona. Ficam vermelhos, mas as lágrimas não chegam a cair.

Morando em uma das casas alugadas pela Samarco em Mariana com o marido e a filha, Ana Amélia, de 3 anos, Sandra tenta tocar a vida. “Saí suja de casa, correndo. Perdi tudo”, afirma. Mas a receita das famosas coxinhas estava na cabeça. E elas têm sido feitas na cidade, vendidas na feira ou por encomenda.

“Graças a Deus, está indo bem. Tem bastante pedido. As funcionárias dessa moça (que desejou a morte dos atingidos) começaram a fazer encomendas. Até que um dia ela fez também”, diz a comerciante, demonstrando não ter guardado rancor.

As memórias do bar, e da rotina da vida em Bento Rodrigues, jorram durante a conversa com ela, sem obedecer uma ordem linear. “Já teve gente que nasceu e morreu no meu carro”, conta, detalhando os percalços do cotidiano em uma vila distante da cidade grande. 

Do bar guarda a lembrança dos clientes. “Vinha motoqueiro, gente de jipe, cavaleiro, turma de todo canto. Meu bar era a parada obrigatória na cidade.” O local existe ainda nas fotos que ela carrega, todas doadas por clientes que guardaram registros do estabelecimento em meio às fotos de passeios turísticos. “Começaram a me dar. Dá para ver o piso, que era de pedra, feito por escravos. Eu quero que a minha casa nova tenha esse piso de novo. Quero que a Samarco me dê meu piso”, afirma. Um cliente também pintou um quadro com a fachada do lugar e doou a tela. 

Mudança. Sandra lamenta que a filha nunca brincará na vila onde ela e as primas cresceram. “Aqui na cidade não tem espaço.” Para dar à menina um pouco da liberdade que experimentou quando criança, conseguiu convencer a Samarco a trocar a casa onde vivia por outra, mais ampla, que fica na frente de uma praça, no bairro Independência, em Mariana. “Soube que iam alugar essa casa e corri”, diz, enquanto empurra a filha no balanço da praça. “Agora dá para a família se reunir no fim de semana. Éramos todos vizinhos.”

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Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, ENVIADOS ESPECIAIS

29 Outubro 2016 | 19h30

MARIANA -  Os distritos destruídos pela lama da Samarco tinham ao menos 66 imóveis - terras e casas - que pertencem a pessoas que não moravam naqueles lugares. Eram sítios, roças, casas de fim de semana. Também atingidas pela tragédia, em maior ou menor escala, essas pessoas passaram os dez meses seguintes ao desastre tendo de comprovar que haviam sido lesadas pela mineradora.

Fomos nós, as vítimas, que tivemos de comprovar o que estávamos falando, o que tínhamos”, diz o mecânico Mauro Marcos da Silva, de 47 anos, um dos 66 que ficaram sendo os atingidos “não reconhecidos” pela mineradora.

Silva tem uma oficina mecânica na principal rua de Mariana e mora na cidade. Tem também uma loja de roupas com sua mulher. O trabalho foi suficiente para comprar uma casa em Bento Rodrigues. O lugar era usado nos fins de semana, mas também servia de depósito para as lojas. “A gente ia lá à noite, durante a semana. E nos fins de semana para descansar. Era muito bom.” 

Estava em Mariana, na oficina, no dia da tragédia. Soube pelo telefone, avisado por um amigo. “Ele ligou e perguntou onde estavam meus pais. Respondi que estavam em Mariana. Ainda bem”, lembra. Mesmo assim, correu para Bento, para ver, sem poder fazer nada, a lama levar tudo. Passados os primeiros dias da tragédia, quando era feito o cadastramento dos atingidos, preencheu as fichas indicadas pela Samarco. E, aí, a angústia que já sentia aumentou. “Eles disseram que minha casa era de fim de semana e eu não tinha direito à indenização”, acusa. “O acidente foi em uma quinta-feira. Se minha casa era de fim de semana, como foi levada junto?”, faz graça. 

“Depois, eles disseram que a assistência era para as pessoas necessitadas e eu era um empresário. E, como empresário, não devia ficar mendigando o dinheiro da Samarco”, afirma Silva, vestindo macacão de mecânico e com graxa de motor até os cotovelos. “Respondi que não estava ‘mendigando’ nada, só buscando meus direitos.”

O reconhecimento dos prejuízos veio por meio de uma ação coletiva ingressada pelo Ministério Público contra a mineradora. Foram duas audiências até agora, em setembro e em outubro, que obrigaram a empresa a reverter seus entendimentos. “Tive de levar foto do carro que eu perdi. Eles primeiro tinham avaliado em R$ 3.500, mas eu tinha pago R$ 12 mil. Depois, o perito disse que valia R$ 17.900.”

A Samarco informou que casos individuais não são tratados publicamente, mas que a audiência citada ajudou a acelerar processos.

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Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, Enviados especiais

29 Outubro 2016 | 19h30

MARIANA - O barracão que um ano atrás, tinha virado ponto turístico por abrigar animais resgatados da lama, mantido pela Samarco aos pés da rodovia que ligava Mariana à mineradora, agora é alugado por outra empresa. Os animais sumiram dali.

Parte deles foi transferida para uma fazenda da região, mantida também pela Samarco. Oito dos cavalos que estão lá são da auxiliar de vendas Janaína Cecília das Flores, de 40 anos, e do marido dela, Alexandre.

Janaína tem uma pilha de pastas na casa que a Samarco alugou para ela, no distrito de Bandeirantes, em Mariana. Documentos, processos judiciais e fotos de seu antigo lar. Depois de a mineradora cuidar dos animais até agosto, Janaína conta ter sido procurada pela empresa. “Eles chamaram todos nós lá no centro de convenções (de Mariana)”, lembra. “Disseram que não teriam mais como manter os animais no barracão e estavam se dispondo a comprar os bichos. Mas era pegar ou largar. Eles montaram computadores e impressoras lá mesmo, para fazer os contratos de venda. Tinha um avaliador que ia dando o preço de cada animal.”

Nem Janaína nem o marido queriam vender os cavalos. “Não queria que nada disso tivesse acontecido. Queria estar na minha casa, que eu adorava”, conta. Mas se viu sem saída. “A gente tentou negociar, mas eles não quiseram.” Assim, a contragosto, vendeu os bichos. “A gente tinha um cavalo manga-larga paulista de R$ 4.500. Eles avaliaram em R$ 2 mil.” 

Ao todo, 20 proprietários teriam fechado os contratos com a mineradora. Mas o relato da transação fez o Ministério Público mover uma ação contra a Samarco. Em caráter liminar, o MPE pediu a anulação de todos os contratos, para assegurar um preço justo. A Justiça acolheu o pedido. Agora, os atingidos esperam a audiência de conciliação do caso, marcada para a próxima sexta.

Além dos oito cavalos na fazenda, há três outros que estão na casa onde Janaína vive hoje. “Não temos como dar ração, remédios e outros cuidados e nos manter com o cartão da empresa. Pedi para um veterinário ver uma das éguas, que está com infecção, e demorou 20 dias”, reclama. “Desde o dia deste acidente, não conseguimos trabalhar direito e só gastamos dinheiro. Vivemos o dia correndo atrás das coisas referentes à Samarco.”

A Samarco informou que a venda dos animais era opcional e os valores tinham sido definidos por empresa terceirizada. Agora, um acordo será intermediado pelo Ministério Público.

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