Felipe Rau/Estadão
Profissionais de diversas áreas defenderam mais espaços na agenda  Felipe Rau/Estadão

Desacelere e cobre-se menos

O excesso de rigor com o próprio desempenho e a permanente preocupação com os desafios do dia a dia podem custar caro

Marcos Rogério Lopes, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

A executiva que revisa um memorando enquanto responde e-mails e toma decisões importantes pelo celular, o diretor de teatro, escritor e cineasta que parece viver mais do que 24 horas por dia para dar conta de tantas funções e o jovem de 16 anos que bombou com uma selfie mostrando sua estreia na faculdade de Medicina. Três exemplos fictícios de pessoas hoje admiráveis por estarem com o pé no acelerador, mas possíveis candidatas a problemas graves de ansiedade. 

O que você faz depois da meia-noite? Será que não dá para aproveitar seus minutos de folga para um trabalho extra? “Hoje em dia temos de equilibrar vários malabares ao mesmo tempo. Em vez de nos entendermos e percebermos o que realmente gostaríamos de fazer, mergulhamos em inúmeros compromissos, traçamos metas e mais metas e, no final, nos sentimos perdidos”, disse o psiquiatra da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Neury Botega.

Ele e outros especialistas de diversas áreas participaram no último dia 29 do Fórum Precisamos Falar Sobre Ansiedade, realizado pelo Estado em parceria com a Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap), na capital paulista. Opinião unânime foi a de que, ainda que existam formas diferente de reagir à pressão e aos desafios, desacelerar deveria ser o objetivo de todos.

“A ansiedade nos prepara para os desafios do dia a dia e nos alerta dos perigos”, explicou o psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas Luiz Vicente Figueira de Mello. Esse “serviço” da natureza começou a desandar, no entanto, quando o ser humano passou a utilizá-lo a todo momento, sem controle. “Alguém permanentemente ansioso perde a liberdade de ação e precisa de tratamento”, afirmou.

A pressão social, do mercado ou da família encontra em pessoas predispostas geneticamente o ambiente perfeito para a doença, que, se não tratada, pode levar à depressão.

Há doentes em todas as faixas etárias. Quando se formou, há 37 anos, Neury Botega não via jovens sofrendo problemas de adulto. “Eu hoje trato criança com síndrome do pânico.”

O drama não para por aí, disse Botega. Em situações extremas, a vítima perde a esperança na vida e sua visão de futuro se estreita. “Se até Deus me abandonou, pensa o paciente, o suicídio acaba sendo em sua cabeça a única saída.”

Noção de tempo

Para Figueira de Mello, é natural se sentir pressionado por prazos e bons desempenhos, mas “não precisa ser tão paulistano”. Ele é dono de um sítio no interior de Minas Gerais e admite sofrer quando precisa de trabalhos simples na região. Recentemente, um conserto de uma cerca que queria “para ontem” demorou semanas. “Cada lugar tem sua noção temporal”, justificou o médico.

Uma coisa é se cobrar, outra é não conseguir dormir ou ter problemas físicos por causa disso. “Quando a ansiedade começa a mandar em você é hora de buscar ajuda”, orientou o psiquiatra Daniel Martins de Barros, colunista do Estado

A vítima perde o comando quando as constantes preocupações passam a afetá-la com falta de sono, indisposição durante o dia, irritação e permanente desconforto. A ansiedade também trava o raciocínio, permitindo que uma ideia fixa se imponha sobre as outras, e pode causar tonturas, suor exagerado e palpitações. 

Preconceitos

Os sintomas aparecem, mesmo assim muitos fogem do tratamento. Às vezes, por puro preconceito. “Ainda há o pensamento de que só louco vai ao psiquiatra”, contou Martins de Barros, que lembrou outros mitos ouvidos em seu consultório, como medo de engordar, de ficar viciado ou de impotência sexual.

O tratamento permite que o paciente viva bem e, em alguns casos, tenha alta, livrando-se para sempre das crises. Mas há doentes crônicos, para os quais a medicação será dada a vida toda. 

Os psiquiatras comentaram que não adianta nada o sujeito se sentir bem e se jogar nas mesmas práticas que o levaram a agravar o quadro. Em outras palavras, comprar e tomar os remédios não pode se tornar mais uma em sua extensa lista de obrigações diárias. Talvez seja hora, além disso, de deixar mais espaços na agenda e sair de redes sociais que ocupam boa parte de sua atenção. 

E reduzir drasticamente o café. “A cafeína é um estimulante bastante prejudicial”, revelou Martins de Barros. Ele acrescentou que outras drogas podem aumentar o drama do ansioso. “Ocorre algumas vezes de as pessoas começarem a usar álcool e maconha para aplacar os desconfortos e acabam se tornando dependentes químicas.” 

Primeiros sinais

Para Martins de Barros, é possível perceber a predisposição genética já nas crianças e nos jovens. “No colégio, há o garoto que tira nota 10 e pensa: ‘Beleza, agora posso levar zero na próxima prova que fico na média’. E tem o outro que se sente na obrigação de repetir o 10, porque a cobrança vai ser maior. O sarrafo subiu.” 

Ele pediu atenção redobrada dos professores a alunos que se mostrem sempre dispersos, nervosos ou que abandonem tarefas pela metade. “Em diversos momentos, é, sim, necessário chamar os pais desse rapaz ou moça para conversar. O problema talvez esteja em casa.”

A fonte das preocupações pode ser pais que exigem bons desempenhos de seus filhos por esperarem realizações que eles não conseguiram. Um pouco de insegurança com um toque de esperança e finalizado com muita cobrança. “Nunca se mirou tanto o futuro e isso afeta diretamente a vida das crianças, o tempo todo avaliadas”, declarou a psicóloga Rosely Sayão.

Além da família, ela põe a culpa do estímulo à ansiedade em escolas e professores, que acabam cobrando dos alunos resultados superiores que servem para melhorar o conceito da instituição de ensino.

A psicanalista e professora da Faap, Maria Homem, disse que satisfazer aspirações alheias não é exclusividade dos mais novos. “Estamos condicionados a suprir desejos que não são nossos.” De acordo com sua análise, as propagandas, o culto às celebridades e a veneração da felicidade na internet criaram um roteiro do que deve ser almejado. Para ela, a sociedade contemporânea criou uma necessidade de aceitação que sufoca os indivíduos.

O historiador Leandro Karnal acredita que os jovens de hoje, como seus pais, precisam parecer sempre felizes e realizados nas postagens das redes sociais, criativos em tempo integral e donos de corpos perfeitos. “Vivemos a teologia do empreendedorismo. Com ela você aprende que basta o desejo para ser um pianista perfeito ou um Leonardo da Vinci. E, claro, ainda precisa ser magro! 

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Conheça os nove tipos de transtornos de ansiedade

Fobias específicas, como medo de altura ou aversão a sangue, são as categorias mais comuns relatadas

Raul Galhardi, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

Ficar preso no trânsito, falar em público, passar por uma entrevista para um novo emprego, paquerar, fazer compras. Esses são exemplos de situações cotidianas que para pessoas ansiosas podem constituir verdadeiros desafios. 

É preciso, entretanto, saber identificar os tipos de ansiedade existentes para que o tratamento adequado seja aplicado. Atualmente existem nove classificações, com um desdobramento, o ataque de pânico (palpitações, medo de morrer, calafrios, náusea), que, por ocorrer em várias situações, não foi categorizado isoladamente, explica Luiz Vicente Figueira de Mello, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas

A seguir, confira os nove tipos, definidos pela Associação Americana de Psiquiatria:

Transtorno de Pânico

Caracteriza-se por ataques de pânico recorrentes ou inesperados. Pode ser desencadeado por um episódio, como o retorno ao local onde ocorreu uma crise, ou espontâneo, sem causa identificada. 

Agorafobia

Medo ou ansiedade exageradas em locais com muitas pessoas, como transportes públicos. A pessoa tem a sensação de desfalecimento e teme que não dê tempo de alguém socorrê-la. 

Fobias Específicas

Medo ou sintomas ansiosos intensos em relação a objetos ou situações, como altura, animais, fenômenos naturais, sangue, locais fechados. Esses são os tipos mais encontrados.

Transtorno de Ansiedade Social (fobia social)

Medo ou nervosismo acentuados em relação a situações sociais quando o indivíduo é exposto a possíveis ou imaginárias avaliações por outras pessoas.

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Preocupações excessivas com atividades e eventos da vida cotidiana, ocorrendo na maioria dos dias, por pelo menos seis meses.

Transtorno de Ansiedade de Separação

Ocorre mais na primeira infância até o início da vida escolar. Consiste num sofrimento diante da ocorrência ou previsão de afastamento de casa ou pessoas próximas. 

Mutismo Seletivo

Fracasso persistente para falar em situações sociais específicas. A duração mínima é de um mês. De rara incidência. 

Transtorno de Ansiedade 

Induzido por Substância/Medicamento. O quadro predominante são ataques de pânico ou forte ansiedade com sintomas autonômicos; falta de ar e inquietação.

Transtorno de Ansiedade Devido a Outra Condição Médica

Tensão e ataques de pânico relacionados a uma patologia que pode ocorrer, com expectativa catastrófica. É mais comum após uma intervenção médica ou depois de procedimento que ponha em risco a vida da pessoa. 

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Como evitar que a preocupação paute a sua vida

Ajuda profissional pode ser necessária para diagnosticar problemas e mudar hábitos prejudiciais

Raul Galhardi, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

A sociedade contemporânea é uma fonte permanente de ansiedades. Desemprego, trabalho precarizado, relacionamentos superficiais, criminalidade urbana, catástrofes climáticas, hiperatividade e hipertransparência estimuladas pelas redes sociais e pelo trabalho. O indivíduo é bombardeado constantemente por estímulos nesse panorama daquilo que o filósofo Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida”. Um mundo em constante e veloz transformação como nunca se viu antes. 

Uma civilização na qual é preciso estar em constante movimento, como se as pessoas estivessem em cima de uma camada de gelo fino. Sem tempo para pensar, mas apenas para produzir. É o que o filósofo coreano Byung-Chul Han, no seu livro “Sociedade do Cansaço”, chama de “sociedade do desempenho”. Um grupo narcísico, sem tantos laços comunitários, voltado apenas para a produção constante sem reflexão, em que empreendedorismo é a palavra da vez e a gratificação é constantemente adiada, causando um esgotamento do sujeito. 

Diante desse cenário angustiante, como os indivíduos podem lidar com tamanha pressão em suas vidas? “Ansiedade é preocupação, preparação para o futuro. É antecipar o que vai acontecer. Quando ela começa a mandar em você, ou seja, quando os sintomas começam a interferir de forma a prejudicar a vida cotidiana (acadêmica, profissional, pessoal, etc), é a hora de procurar ajuda”, diz o psiquiatra do Hospital das Clínicas Daniel Martins de Barros

“O bom ansioso gosta de colocar tudo numa planilha e tentar controlar o futuro. Quando ele percebe que não é capaz de fazer esse exercício de Deus, ele começa a sucumbir e é geralmente aí que ele procura ajuda”, afirma Neury Botega, psiquiatra da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Segundo ele, existem duas atitudes básicas para o médico: o diagnóstico preciso e o manejo do tratamento. Às vezes, embora o diagnóstico esteja correto, é necessário ainda convencer o paciente. E se ele não aceitar um tratamento ou remédio? “É comum a resistência, ou acharem que, por terem de aumentar a dose, estão mal de saúde. Essa impressão na psiquiatria é muito impactante”. Ele conta que no caso de outros problemas clínicos, como diabetes, é diferente, pois a pessoa não irá deixar de tomar seus remédios em situações assim.

Como falar de ansiedade com um ansioso, então? Primeiro, ouvir bastante e ficar em silêncio. “Senão a gente pode entrar numa espécie de debate intelectual para ver quem consegue debelar o transtorno. Isso é algo que acontece muito na clínica. O caminho não é travar debates, mas acolher, ouvir, para não passarmos a impressão de que vamos resolver o problema com uma prescrição”, afirma Botega. A mensagem que deve ser enviada é a de construção de um ambiente menos ansioso. “Muitas vezes o paciente também deixa o psiquiatra nervoso. A ansiedade, como uma emoção, é contagiante”, diz. 

O tripé

Para o profissional da Unicamp, o tratamento está baseado num tripé. A primeira coluna é o medicamento. A segunda é a psicoterapia e a terceira, a mudança de hábitos. 

A psicoterapia é importante para mudar hábitos muito arraigados e para esclarecer os significados das ações do paciente, porque muitas vezes o que a pessoa mais precisa enxergar ela não está vendo. 

O psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas Luiz Vicente Figueira de Mello defende que a psicoterapia cognitiva comportamental é a mais adequada para a ansiedade. Segundo ele, é feita uma análise funcional durante o tratamento para ver como o indivíduo reage em relação ao estresse, sendo importante que a pessoa tenha a consciência de como seus atos interferem no seu cotidiano e do custo-benefício deles. 

Também é necessário o cultivo de hábitos que acalmem. Ioga, meditação, respiração diafragmática, atenção plena concentrada em algo durante um tempo, mesmo que pouco, são alguns exemplos de práticas a serem adotadas. “Nós precisamos aprender a criar essas ‘ilhas zen’, que podem durar dois, três minutos. Sem mudança de hábito é ilusão achar que só o medicamento vai resolver”, diz Botega. 

Outros fatores que influenciam no distúrbio são o meio no qual o indivíduo vive e sua predisposição genética. Ambientes rurais, por exemplo, tendem a serem menos favoráveis à manifestação de doenças ansiosas, assim como pessoas predispostas geneticamente costumam apresentar mais sintomas do que o restante da população. Por fim, Botega deixa o recado: “Não tem como fugir. Pulou da frigideira, cai na fogueira. Basta estar vivo. Nós não nascemos para nos tornarmos Dalai Lamas”. 

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Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS

Apesar dos altos índices de ocorrência da doença, pacientes mostram resistência aos remédios

Raul Galhardi, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

O Brasil sofre uma epidemia de ansiedade. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o País tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno. O tabu em relação ao uso de medicamentos, entretanto, ainda permanece. 

Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, confirma. “As duas frases que eu mais ouço na clínica são ‘eu não queria tomar remédio’, na primeira consulta, e ‘eu não queria parar de tomar os remédios’, na consulta seguinte. A gente tem muita resistência porque existem muitos mitos: ficar viciado, bobo, impotente, engordar”.

Barros explica que todo remédio pode ter efeitos colaterais e eles serão receitados quando existir uma relação de custo-benefício a favor do paciente. “Tudo é assim na medicina e na vida”, diz. 

Neury Botega, psiquiatra da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que há 30 anos os médicos dispunham de recursos inadequados para tratar a ansiedade. “Ou usávamos drogas bem pesadas, como barbitúricos, ou as que existem até hoje, como as faixas pretas, os benzodiazepínicos. Por isso, nós vimos várias tias, avós, viciadas em remédios e essa é uma das imagens gravadas quando pensamos em tratamentos psiquiátricos”. 

A partir de 1990, a fluoxetina, mais conhecida comercialmente como Prozac, torna-se popular. Para Botega, isso muda totalmente o paradigma do tratamento da ansiedade. “Hoje, para tratá-la, na maioria das vezes usamos medicamentos que aumentam a atividade de um neurotransmissor chamado serotonina. É o nosso Bombril: mil e uma utilidades”.

Em relação ao tempo de duração do tratamento, não há protocolos claros para a ansiedade, como existem para a depressão. “Ele pode durar um tempo ou ser necessário pela vida inteira. Ansiedade é como pressão alta: quando descontrola, às vezes é para sempre. Você pode controlar com atividade física, meditação, terapia, mas ela vai estar sempre ali te ameaçando”, diz Martins de Barros. De acordo com ele, os casos variam bastante: há desde indivíduos que terão alta e nunca mais precisarão de remédios até outros que dependerão de medicamentos para o resto da vida. 

Medicalização

O historiador e colunista do Estado, Leandro Karnal, aponta outro lado da questão e vê uma medicalização do comportamento humano. “Se o aluno não consegue acompanhar as aulas, dão remédio para ele. Nem todo mundo que não presta atenção tem déficit de atenção. A aula pode ser chata mesmo”, argumenta.Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, chama a atenção para o que ela intitula de “epidemia de diagnósticos”, que envolve leigos e profissionais de saúde. Para ela, cada um de nós hoje usa a lógica médica para olhar para o outro e dizer: “Essa pessoa é chata; essa pessoa tem TOC; fulano surtou”. “Nós vivemos à base de diagnósticos e, quando fazemos isso, apagamos a pessoa que está por trás dele”. 

Saúde no Smartphone 

Aplicativos com versões gratuitas podem auxiliar no tratamento. Conheça alguns: 

 

 

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A obrigação de ser e parecer feliz o tempo inteiro

Ao mirar as ‘vidas perfeitas’ exibidas nas redes sociais, pessoas comuns se sentem frustradas, dizem especialistas

Felipe Siqueira, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

O historiador e doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e colunista do Estado, Leandro Karnal, afirma que, no mundo moderno, existe uma obrigatoriedade de se alcançar a felicidade. “Até para conseguir emprego, eu tenho que ser feliz o tempo todo, intensamente.” 

Isso, segundo ele, fica muito evidente nas redes sociais. As pessoas miram-se nos posts de mais sucesso feitos na internet, sempre com situações invejáveis, muito humor e sem graves problemas. Aquele jeito de viver torna-se uma meta inalcançável e passam a buscar uma utopia. 

A partir desse hábito, as pessoas comuns começam a fazer questionamentos internos, moldando seus gostos com coisas conquistadas por outros. “Por que a minha vida é monótona, repetitiva? Por que meus filhos não são, apesar de amados por mim, tão fascinantes quanto os que são fotografados no Instagram, por que não tenho as férias perfeitas ou o Natal perfeito?”, detalha Leandro Karnal. 

A psicanalista e professora doutora da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap) Maria Homem explica que a vontade de alcançar o bem-estar a partir das coisas exibidas pelos outros surge a partir de uma lógica capitalista e consumista. “O modo de vida (levado hoje em dia) é à base do desejo, mas um desejo (de coisas) do outro. Você é levado a querer alguma coisa que alguém mostra que é muito bom”, diz a professora.

De acordo com ela, é preciso cuidado para que não exista um desejo colonizado. “A gente se transforma em uma máquina produtiva de desejo e de trabalho para consumir objetos que revelam que eu estou desejando certo e estou mostrando para os outros que estou bem desejante”, explica. 

O historiador Karnal lembra também que a ansiedade se dá, justamente, pela confusão de não se saber diferenciar o que se quer ter e o que se precisa, de fato, possuir. “É fruto do descompasso entre o real e o imaginário.” 

Segundo ele, a sociedade exige que todos tenham corpos perfeitos e sempre ótimos desempenhos. “Somos incapazes de conviver com coisas que nossas avós e nossos avôs aceitavam muito bem: o fato de que as pessoas engordam após o casamento”, brinca Karnal, exemplificando apenas um dentre vários motivos que podem levar as pessoas a entrar em um ciclo de ansiedade. 

Ele finaliza dizendo que o mundo exige que todos sejam descobridores de terras, “um Cristóvão Colombo”, que chegou às Americas em 1492, “ou um novo Leonardo Da Vinci”, artista italiano do período do Renascimento. “E, ainda, magro”, finaliza. 

Comum

De acordo com especialistas médicos, todas as pessoas têm ansiedade. E isso não é algo negativo, ao contrário. Esse sentimento, que pode em grau maior ser caracterizado como uma doença, foi muito importante, por exemplo, para o desenvolvimento da humanidade. E é essencial até os dias atuais, para antever perigos. 

Se não existisse ansiedade na época em que a Terra era ocupada pelos primeiros hominídeos, a evolução não aconteceria. Eles muito provavelmente não teriam conseguido escapar das ameaças da pré-história porque é a preocupação que permite antecipar problemas e pensar em soluções de forma rápida. “Se houvesse psicanálise quando estavam por aqui os homens de Neanderthal, saberíamos que eles sofriam por causa da dificuldade de encontrar comida e abrigo”, comenta Leandro Karnal. 

Hoje, por causa do excesso de estresse nas grandes cidades, homens e mulheres apresentam mais sintomas ligados ao transtorno durante a rotina, sem que exista, de fato, um perigo à vista. Nesses casos, o sentimento se transforma em um transtorno. Um exemplo disso é a TAG, abreviação para Transtorno de Ansiedade Generalizada. Os pacientes ficam preocupados com tudo o tempo inteiro, sem folga. 

É o que explica o psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas Daniel Martins de Barros. “(No passado) Quando se encontrava um leão, o ‘alarme’ disparava e (quando acabava a situação de perigo) voltava ao normal. Agora, com violência, boletos, desemprego, a gente está o tempo todo com esse bipe ativado”, explica. “Um sistema que foi feito para disparos eventuais está sempre ligado”, completa.

Quem tiver problemas recorrentes por causa da preocupação e do estresse, diz Martins de Barros, deve procurar um psicólogo ou um psiquiatra, para entender a origem do transtorno. Segundo ele, com a medicação correta e mudanças de hábitos é possível viver bem, apesar da ansiedade. 

Sono tenso pôs em risco curso de doutorado

Ter ansiedade pode, dependendo do caso, impossibilitar ações comuns do cotidiano, como prestar atenção em uma aula, escrever um texto para um trabalho ou simplesmente dormir. 

Esse é o caso de André Drago, de 34 anos, antropólogo. Ele explica que, quando tinha que entregar trabalhos para um curso de doutorado, não conseguia dormir direito porque estava sempre pensando no texto. “Eu tranquei o começo do curso por seis meses por causa da ansiedade”, admitiu. 

Ele recebeu o diagnóstico de transtorno de ansiedade aos 30 anos e, a partir de então, começou a tomar remédios. Por ter seguido corretamente o tratamento, já conseguiu parar com as medicações. 

No caso de Jamyle Pereira Neves Silva, de 36 anos, advogada, o diagnóstico veio quando ela tinha 28 anos. O distúrbio a prejudicou nos estudos, na fase escolar, e posteriormente a fez deixar um emprego em sua área. “Saí do trabalho, mas não adiantou”, disse. Os sintomas da ansiedade já atrapalhavam todo o seu cotidiano.

Tanto Drago quanto Jamyle viram a doença se agravar para a depressão, mas se recuperaram graças aos tratamentos. 

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Crianças são pressionadas por pais e escolas, segundo Rosely Sayão

Psicóloga explica que as cobranças não permitem que os mais novos aproveitem o presente

Felipe Siqueira, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

As crianças e os adolescentes estão entre as principais vítimas da ansiedade. De acordo com a psicóloga Rosely Sayão, eles passam por pressões tanto dos pais quanto das escolas e são impedidos de viver de forma saudável as etapas de desenvolvimento necessárias. Tudo é à base do futuro, ou seja, saber em qual faculdade estudar, qual curso escolher, ter um bom desempenho no vestibular. 

 Para ela, esse excesso de exigências é bastante prejudicial porque, sem viver e focar o presente, a criança fica ansiosa e, consequentemente, começa a ter doenças que antes faziam parte apenas das vidas dos adultos. “O futuro é consequência de como você vive o agora”, explica a psicóloga. 

Rosely conta que não é dado ao jovem no ambiente escolar o direito de aprender, errar, tentar, experimentar. É cobrado por resultados o tempo todo. E esse peso, em vez de ser amenizado, é intensificado em casa. Os pais se avaliam de acordo com as conquistas e ações dos filhos e as escolas medem o próprio desempenho a partir dos resultados alcançados pelos seus alunos. Isso, segundo ela, faz com que professores e instituições de ensino cobrem mais do que ofereçam. 

Além das pressões sofridas em casa e nas salas de aula, meninos e meninas têm outro problema, proveniente do mundo moderno. O excesso de tecnologias à disposição. 

“Imagina o que significa ter todas as informações a respeito de todas as mazelas da vida humana. Crianças ficam sabendo do assassinato de outras crianças, do suicídio de colegas”, diz. “Há um constante estímulo à ansiedade”, completa. 

Além do exagero de informações não indicadas à idade, Rosely explica que as pessoas se dedicam muito ao mundo virtual. “As crianças estão no mesmo pátio do colégio e conversando entre si por meio de mensagem instantânea (não pessoalmente). Isso vai trazendo uma alienação de si”, fala. 

Exposição e juventude

Rosely Sayão afirma que vivemos atualmente em uma “sociedade do espetáculo” e que isso afeta drasticamente crianças e adolescentes. 

“Os jovens são estimulados desde cedo a aparecerem, serem youtubers”, comenta. “Aí quando vem uma crítica (por conta de um vídeo postado, por exemplo), a criança não sabe como lidar, o que é natural”, diz. 

Para a psicóloga, existe também um culto exagerado à juventude na sociedade. Segundo ela, faltam pessoas experientes em torno das crianças porque hoje ninguém quer ser adulto, de pais a avós. “Todos buscam parecer jovens o tempo todo, parece uma ofensa ser velho”, afirma a psicóloga. “Quando vejo um pai batendo em um filho estou vendo uma briga de meninos”, exemplifica.

“O adulto diz para a criança: não suba aí, e fica no mesmo lugar em que estava. Ela é pequena, não tem a autorregulação e autocontrole, tem impulsividade, curiosidade. Claro que vai subir onde não deve. E o adulto diz logo depois, dando uma bronca: ‘Mas eu não falei para você não subir ai?’ Isso é uma atitude absolutamente juvenil”, analisa Rosely. 

Ela defende a valorização dos idosos e da capacidade que eles têm de passar parte dos conhecimentos que acumularam. “Meu cabelo branco é um ato político”, declara Rosely. 

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