Desafio é consolidar imagem positiva do País

Mesmo sem carisma de Lula, próximo governo terá de mostrar transparência e confiabilidade na gestão do pré-sal e na administração da macroeconomia

Riordan Roett*, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2010 | 00h00

Não há dúvida de que um aspecto importante do destaque conquistado recentemente pelo Brasil no cenário mundial deveu-se a três fatores. O primeiro é a personalidade do presidente Lula.

Inesperadamente, ele se revelou uma figura popular de sucesso dotada de espírito e humor no cenário internacional.

 

O segundo foi o crescimento econômico global até o final de 2008, que permitiu que o Brasil explorasse a demanda asiática por suas exportações.

 

O terceiro foi a decisão de dar prosseguimento a várias políticas do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso na área da gestão fiscal, e de continuar as reformas na área dos bancos e do desenvolvimento social (Bolsa-Família).

 

Nos oito anos do governo Lula, a classe C cresceu de maneira impressionante, favorecendo o surgimento de uma classe média brasileira ávida por consumir, o motor fundamental da recuperação econômica do país da crise financeira de 2008-2009 nos países industrializados. Como o presidente gosta de dizer, o Brasil foi o último grande país a entrar na crise e o primeiro a sair dela.

 

Qual será a próxima fase do desenvolvimento global para o Brasil? O novo governo não terá um líder tão carismático. Um dos pontos cruciais será a preservação do impulso criado pela crescente importância do país, que dependerá da capacidade do próximo presidente de confirmar e consolidar a atual imagem econômica do Brasil.

 

Isso significará manter políticas como a meta inflacionária, reafirmar a autonomia do Banco Central e continuar o programa de reformas - fiscal, da educação, da infraestrutura física e da flexibilidade do trabalho. São estes os elementos básicos que permitirão melhorar a produtividade e a competitividade do país.

 

A gestão das descobertas de petróleo no pré-sal será importante para a projeção de uma imagem de transparência e confiabilidade. Quanto à imagem do Brasil no exterior, o próximo presidente precisará agir rapidamente afim de acelerar os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

 

O público lembra ainda que, recentemente, a Índia por pouco não conseguiu se preparar para os Jogos da Comunidade Britânica . O Brasil é capaz de cumprir suas obrigações no plano internacional, mas o tempo é escasso. Entretanto, a gestão da economia é apenas uma das responsabilidades do próximo governo.

Agora, espera-se que o Brasil mantenha sua liderança no plano internacional. Lula estabeleceu uma presença positiva nas reuniões do G-20, realizada em Washington no final do governo George W. Bush, e nas outras reuniões do Grupo, na Grã-Bretanha, nos EUA e no Canadá.

 

Preparando-se para a próxima cúpula de chefes de Estado marcada para novembro, na Coreia do Sul, os presidentes dos bancos centrais e ministros das Finanças do G-20 reuniram-se no fim de outubro na cidade sul-coreana de Gyeongju. Por algum motivo, os representantes brasileiros não estiveram presentes.

 

Ausência notada. Talvez em razão da intensificação da campanha eleitoral ou por estarem convencidos de que muito pouco seria conseguido, mas a ausência do Brasil foi notada. A ausência das autoridades da área financeira do Brasil foi considerada estranha, porque o ministro das Finanças, Guido Mantega, havia afirmado recentemente que caiu por terra o conceito de uma moeda internacional, uma vez que os governos de todo o mundo estão preocupados em baixar as respectivas taxas cambiais e aumentar a própria competitividade.

 

A cúpula da Coreia do Sul representa a continuação de uma tendência a incluir os principais países emergentes em uma discussão política muito ampla sobre as questões mais fundamentais do globo. A reunião de Gyeongju é mais um passo na tentativa de superar as divergências referentes às prioridades das principais economias e abrandar as tensões das atuais disputas.

 

Os participantes da cúpula concordaram que deveriam desistir de enfraquecer suas moedas e permitir que o mercado exerça sua influência no estabelecimento das taxas cambiais. Além disso, decidiram conceder aos países que mais crescem a possibilidade de se manifestarem amplamente no Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

Brasil, China e Índia agora poderão exercer uma influência maior na orientação das políticas do Fundo, e participar da elaboração da futura agenda do G-20. Trata-se de uma enorme responsabilidade, e o Brasil precisará trabalhar intensamente com seus pares, demonstrando que as economias emergentes encaram com toda a seriedade e responsabilidade o exercício da liderança internacional. Durante os mandatos de Lula, o Brasil assumiu um papel de líder entre os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Em abril deste ano, Brasília foi a sede da segunda cúpula do grupo. Espera-se que continue sendo uma voz forte nas conversações globais sobre comércio, mudanças climáticas e a nova arquitetura financeira. No próximo governo, será essencial que o perfil internacional do Brasil continue se expandindo e consolidando nos planos regional e internacional.

 

Embora o grupo Bric continue simbolizando a emergência de novos atores globais, a presença regional do Brasil deverá ser uma das principais prioridades para o Planalto também. A União das Nações Sul-Americanas (Unasul), o Conselho Sul-Americano de Defesa e outras iniciativas são o resultado da atuação do Brasil nessa área e deveriam continuar tendo o apoio do novo governo. Não há outro candidato na região capaz de despertar o respeito de que o Brasil agora desfruta entre seus vizinhos.

 

Haverá uma escolha para o novo governo, com relação aos vizinhos. Há regimes que são democráticos e merecem apoio determinado; há regimes que preferem enfraquecer a governança democrática. O governo do Brasil deveria deixar claro que apóia aqueles que acreditam na democracia, na liberdade de expressão, em eleições livres e regulares.

 

Esse será um programa complicado para o próximo governo, mas o Brasil provou que está preparado para exercer a liderança em termos regionais e internacionais. Os últimos 16 anos demonstraram a admirável capacidade de duas administrações democráticas de estabelecer prioridades e corresponder às expectativas globais. A próxima administração precisará continuar apoiando a próxima fase de desenvolvimento do país. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

 

*É CIENTISTA POLÍTICO AMERICANO ESPECIALIZADO EM AMÉRICA LATINA, CONDECORADO COM A ORDEM DO RIO BRANCO PELO GOVERNO BRASILEIRO EM 2001

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