Desafios das metrópoles: oportunidade privilegiada

Instituições multilaterais sólidas, como o FMI - Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, perderam sua legitimidade. Uma nova era está surgindo em que economias poderosas do sul passaram a se sentar na mesa principal. Mas, no momento, a influência dessas economias equivale apenas a um poder de dizer não, mais do que a capacidade de implementar alguma ação e encontrar soluções para desafios prementes. Para ser mais do que uma nação com "poder de veto", países como o Brasil terão que resolver problemas políticos internos muito importantes e se mostrar dispostos a assumir maiores responsabilidades no plano externo. Como sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, o Brasil terá a oportunidade privilegiada de mostrar para o mundo que está comprometido com a tarefa de vencer seus desafios domésticos e globais e emergir como um guia da governança progressista para o século 21.

Wolfgang Nowak e Priya Shankar*,

27 Setembro 2010 | 14h22

 

Na esteira da crise financeira global, o G-20 substituiu o G-8 como o mais importante fórum para a cooperação econômica internacional. Entretanto, grupos ad hoc, como o BRICs ou IBSA, floresceram e se tornam cada vez mais importantes como propulsores do engajamento internacional. Hoje, grandes decisões no âmbito global só são legítimas se tiverem o acordo das economias emergentes, como observamos nas negociações sobre o clima em Copenhague. No entanto, embora essas potências emergentes possam efetivamente se opor a decisões que consideram inaceitáveis, assumindo assim essa capacidade "de veto", elas ainda não conseguem propor e implementar soluções por si sós, como foi visto na recente tentativa de mediação com o Irã. Mas será apenas indo além da busca pelo prestígio e pela publicidade internacional e assumindo mais responsabilidades que o Brasil poderá efetivamente traduzir o poder econômico em ação política.

 

O desafio global para o próximo presidente brasileiro será a adoção de um enfoque integrado, ou seja, resolver problemas internos chave e ao mesmo tempo assumir maiores responsabilidades no plano global. Três preocupações de política doméstica podem ser sublinhadas aqui.

 

A primeira é diminuir o fosso entre ricos e pobres. O Brasil é respeitado por suas medidas para reduzir a pobreza, a desigualdade e a discriminação racial, como o Bolsa Família e o Estatuto sobre Igualdade Racial. Mas a distribuição de renda ainda é uma das mais desiguais em todo o mundo. O novo presidente precisa continuar o processo de reduzir essas diferenças e enfrentar as persistentes divisões de natureza racial e social.

 

Em segundo lugar, o Brasil tem que se empenhar mais para melhorar a educação, a inovação tecnológica e a infraestrutura. Isto será chave para incrementar e sustentar o crescimento econômico. Em terceiro lugar, a prosperidade relativa que os brasileiros desfrutam hoje é suplantada pela sensação de insegurança que continua afetando a sociedade. Embora o Brasil se esforce para acabar com a violência e o tráfico de droga, é preciso fazer muito mais para garantir a segurança dos cidadãos.

 

Existem dimensões globais para cada um desses problemas domésticos. O comércio e o engajamento econômico global podem contribuir para estimular o crescimento, que tem potencial para reduzir a pobreza e melhorar a mobilidade social. E também terá o impacto benéfico de reduzir a criminalidade. Da mesma maneira, a cooperação internacional e uma análise dos diferentes modelos globais e centros de educação e inovação podem ajudar o Brasil a se situar no centro do conhecimento global.

 

O tráfico de droga, que tem sido um importante tema de campanha nesta eleição, é parte de uma rede criminosa transnacional e só pode ser resolvido por meio de uma cooperação também transnacional. O Brasil, no passado mais recente, promoveu ativamente a estabilidade e a integração na América Latina, fortaleceu as relações com a África e promoveu importantes iniciativas globais, como "a ação contra a fome e a pobreza". A sua coordenação da Missão de Estabilização das Nações Unidas para o Haiti (Minustah) é uma grande mostra da sua determinação para assumir papéis mais importantes na segurança coletiva. É importante que o país continue a manter e desenvolver este ativismo global. Num mundo cada vez mais incerto, em que as ameaças se propagam pelas fronteiras com uma facilidade nunca vista, a segurança também precisa ser cada vez mais partilhada.

 

Assim, o Brasil precisa enfrentar seus desafios domésticos e ao mesmo tempo manter seu engajamento externo. Naturalmente, assumir responsabilidades implica custos maiores. O que não é facilmente justificado em nenhum contexto político interno, e o próximo presidente certamente vai enfrentar críticas. No entanto, o Brasil está bem colocado para essa transição, não só por causa dos ganhos econômicos, mas também em razão do tipo de poder característico que o país tem condições de exercer no cenário global.

 

Nas duas últimas décadas, o Brasil desenvolveu seu próprio modelo socioeconômico, uma "terceira via" diferente do enfoque americano ou de Chávez, e ofereceu soluções inovadoras para problemas vividos por populações e governos em todo o mundo. Nas Conferências sobre Governança Progressista realizadas durante este período, presidentes brasileiros propuseram resolutamente novas maneiras de pensar sobre assuntos relacionados à equidade, justiça e prosperidade. É aí que reside a real força do Brasil; não só como potência política e econômica, mas como um poder que lança novas ideias e oferece soluções criativas. O que vai beneficiar não apenas os cidadãos brasileiros, mas também outros em todo o mundo. Num momento em que o modelo social europeu passa por momentos difíceis, o Brasil poderia atuar como visão norteadora de uma nova democracia social para o século 21.

 

Estes temas, ou seja, estes desafios a serem enfrentados pelo novo presidente brasileiro e o papel que o Brasil poderá ter num mundo interdependente e multipolar, serão o foco da conferência Foresight no Brasil em março de 2011, organizada pela Alfred Herrhausen Society, fórum internacional do Deutsche Bank e pelo grupo de estudos Policy Network, com sede em Londres.

 

* Wolfgang Novak é Diretor Administrativo da Alfred Herrhausen Society e do Fórum Internacional do Deutsche Bank.

 

* Priya Shankar é Diretor de Projeto Sênior e Pesquisador da instituição Policy Network.

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