Desaparecimentos em Vigário Geral continuam sem solução

Passado um mês desde o desaparecimento de seus filhos, mulheres da comunidade de Vigário Geral, na zona norte do Rio, tentaram fazer hoje um protesto pela falta de solução para a suposta morte dos oito rapazes levados por traficantes da favela vizinha de Parada de Lucas, mas tiveram de enfrentar a ameaça das balas. Traficantes de Lucas, que travam uma guerra de mais de uma década com os de Vigário, atiraram para o alto quando o grupo de mães e moradores chegou à divisa das duas favelas. Policiais civis que acompanhavam a movimentação, na tentativa de dar segurança aos moradores, recomendaram que o protesto fosse feito em outro local, provocando ainda mais revolta."Pediram para a gente sair para evitar confronto. Por que não chamam reforço, o "caveirão", um helicóptero e invadem logo esse lugar para achar os corpos? Viemos aqui para sermos recebidos a tiros e a polícia não pode fazer nada", gritava uma das manifestantes no meio da rua que liga as duas favelas, quase deserta no final da manhã, bem em frente a uma escola pública e ao posto da Polícia Militar, que estava com as portas fechadas, apesar de haver policiais no interior.Após algumas rajadas de tiros, os policiais civis conseguiram garantir a segurança das mães para chegarem à área pantanosa, onde elas acreditam que foram jogados os corpos dos jovens.Denise Alves, mãe de um dos desaparecidos, Douglas Alves Tavares, de 16 anos, empunhou uma enxada e começou a cavar desesperadamente, até ser contida pelas companheiras. "Vou mostrar a eles o que eu quero que façam para achar o corpo do meu filho e a polícia não faz", dizia chorando. Marcos DPaula/AEAlguns manifestantes usaram enxadas com a intenção de procurar os corpos das vítimas em terreno baldio entre as favelas de Vigário Geral e Parada de LucasA maioria das outras mães escondia o rosto, com medo de represálias. Uma delas é a mãe de Vanderson Marques, de 18 anos, um dos levados pelo bando do traficante conhecido como Furica na noite do dia 13 de dezembro. Ela conta que, por causa da luta para solucionar o crime, tem sofrido ameaças. "Os traficantes de Lucas passam na minha rua dando tiro, jogam bombas. Precisa de ameaça pior do que essa? Isso é pior do que uma palavra. Eles só falam que vão voltar e nos pegar. Não durmo mais", contou a mãe de Vanderson. Ela disse que a polícia não faz buscas há mais de duas semanas. "Um mês e não temos resposta. A polícia só diz que é questão tempo e o tempo vai passando. Eles não falam como está o caso", queixou-se.Assim como as outras mães, ela não tem mais esperanças de encontrar o filho vivo, mas quer o corpo para dar fim à angústia de não saber o que realmente aconteceu. "Ter um filho arrancado dos braços e nunca vais ver é muito duro. Não desejo nem para as mães deles (os traficantes de Lucas) o que estou passando".InvestigaçãoDe acordo com a investigação da polícia, os jovens desaparecidos tinham envolvimento com o tráfico de Vigário e foram mortos por rivais de Lucas guiados por um menor de 16 anos, que foi detido pela polícia. A mãe de Vanderson insiste que ele apenas estudava e trabalhava vendendo bebidas no sinal. "Ninguém se interessa porque é filho de marmiteiro. Se fosse filho do Garotinho e da Rosinha, eles já tinham procurado."O delegado Carlos Henrique Machado, titular da Delegacia de Homicídios e responsável pela investigação do caso, está de férias. O delegado substituto, Luiz Henrique Marques, disse que o inquérito só foi remetido esta semana da delegacia de Braz de Pina (38ºDP) para a especializada, mas recusou a idéia de que a polícia esqueceu o caso. "Estamos fazendo diligências determinadas pelo promotor do caso. A Polícia Civil fez buscas num lago na comunidade cheio de plantas, mas é muito difícil. Ainda não terminou esse trabalho. O inquérito está sendo tocado com garra. É um caso bárbaro, de repercussão, a polícia não pode esquecer", disse o delegado. Ele informou que, ao reassumir a investigação na segunda-feira, Machado fará um balanço da investigação.

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