Desastre de Mariana, 2 anos: em busca da própria história e de reparação

Rompimento de barragem da Samarco deixou 19 mortos, destruição e perdas

Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h15

MARIANA - A maior tragédia ambiental do Brasil – que completa hoje dois anos – deixou, no rastro do mar de lama que se espalhou por 650 quilômetros entre Minas Gerais e Espírito Santo, 19 mortos, a localidade de Bento Rodrigues (em Mariana) submersa, as de Paracatu de Baixo (também em Mariana) e Gesteira (em Barra Longa) destruídas e perdas imateriais que continuam doendo em seus moradores. Desde então, as festas religiosas, as partidas de futebol descomprometidas, o bate-papo com os vizinhos e o trabalho na roça se esvaíram.

As cerca de 300 famílias desalojadas pela lama que se alastrou com o rompimento da barragem do Fundão, da mineradora Samarco, vivem agora na área urbana da Mariana, apartadas umas das outras, e enfrentam a hostilidade de muitos moradores da cidade (que ganharam novos vizinhos de uma hora para outra) e seus próprios demônios. A cena mais marcante é o distrito de Bento Rodrigues: uma localidade fantasma, com escombros e lama. Dos 19 mortos, 14 eram trabalhadores e 5, moradores locais.

Durante uma semana, o Estado percorreu locais centrais da tragédia em Minas e no Espírito Santo e conversou com pessoas que foram diretamente atingidas pelo rompimento. Apesar do risco de desmoronamento, ex-moradores voltam periodicamente ao local. 

“Eu venho quando quero e ninguém me impede. Eles (Defesa Civil) sabem que, se eu achar algo que era meu, vou pegar”, conta a agricultora Marinalva dos Santos Salgado, de 45 anos, que teve a casa soterrada e continua à procura de uma agenda que o marido deixou. “Ele viajava muito a trabalho. Estava doente, mas não me contava pelo telefone, só escrevia. Ele me deu a agenda e morreu três dias depois.”

O rompimento da barragem do Fundão em 5 de novembro de 2015 atingiu muito mais gente que os mortos e suas famílias: um total de 500 mil pessoas.

Estima-se que, com o rompimento da barragem, 39,2 milhões de m³ de rejeitos de minério tenham percorrido os Rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce até desembocar no Oceano Atlântico. O tsunami de lama afetou diversas comunidades ribeirinhas mineiras e capixabas pelo caminho. Contaminou a água, tirou o trabalho de pescadores que dependiam dos rios para sobreviver, matou animais e plantas.

Após o rompimento da barragem, um Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC) assinado entre a Samarco e suas controladoras, Vale e BHP, com a União e diversas autarquias federais e estaduais, criou a Fundação Renova, responsável pela reparação dos danos decorrentes. As ações passaram a ser definidas pelo Comitê Interfederativo, que reúne também órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Agência Nacional de Água (ANA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do governo federal.

À espera. Até agora, poucos foram indenizados. Boa parte dos pagamentos – 70% a pescadores – ainda está em negociação. A Fundação entregou pouco mais de 8 mil cartões de auxílio financeiro, que é pago mensalmente, a cerca de 20 mil pessoas. O reassentamento das vilas está marcado para 2019, mas as obras nem começaram. 

Dos R$ 11,1 bilhões previstos até 2030 no orçamento da Fundação, R$ 2,5 bilhões foram gastos. Além de um processo criminal contra 22 pessoas, que está paralisado por ordem judicial, há ao menos outros 74 mil em andamento, além de uma ação civil pública que reúne os atingidos em Bento Rodrigues.

A previsão de recuperação total dos estragos ambientais é 2032. Ainda não há laudos definitivos sobre todos os impactos, e os órgãos monitoram a área afetada para verificar se os peixes estão ou não aptos para o consumo humano e como a quantidade de espécies foi impactada. Os estudos, de acordo com a Renova, devem ser finalizados até o início do ano que vem e compartilhados com os órgãos ambientais.

A Renova cercou 511 nascentes na Bacia do Rio Doce e promete recuperar em dez anos, conforme prazo fixado pelo TTAC, 5 mil nascentes. Ainda há o debate sobre o que será feito com os rejeitos. Na barragem, esse material tinha areia e argila. Depois do rompimento, isso se juntou a solo, sedimento, árvores e o que mais estava no fundo do rio – o que dificulta a destinação dessa mistura. 

Após dois anos, ainda há muitas perguntas sem respostas, dúvidas e muito por fazer. Enquanto isso, a mineradora Samarco quer retomar suas operações. Com atividades paralisadas, a empresa tenta provar às autoridades que é capaz de atuar em segurança. Hoje, sobrevive de aportes de suas controladoras, que já destinaram à empresa US$ 430 milhões (cerca de R$ 1,41 bilhão). Antes da tragédia, a Samarco empregava cerca de 6 mil funcionários. Hoje, são 1,8 mil, sendo que 800 estão com o contrato suspenso. 

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Marinalva dos Santos Salgado, 45 anos, agricultora, moradora de Bento Rodrigues, teve a casa completamente soterrada pela lama. Ao fugir da inundação, Nalva levou apenas a roupa que tinha no corpo. Dois anos depois da tragédia, ela não conseguiu recuperar nenhum objeto pessoal. Ainda tem esperança de achar um caderno deixado por seu marido três dias antes de morrer.

Nalva nos guia em silêncio pelas ruas do antigo vilarejo de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, destruído após o rompimento da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, há dois anos.

Na cidade fantasma, monocromática, cor de lama, o único barulho que se ouve é o dos passos. Uma rajada de vento faz farfalhar a vegetação. Uma folha de amianto bate contra uma janela quebrada, aumentando a sensação de desterro.

“Aqui era o bar do meu pai”, ela aponta para as ruínas de uma construção de esquina, com um balcão afundado. “Essa casa do lado também era do meu pai, pra aluguel”. Nalva segue pela estrada de terra. “Aqui era o posto de saúde e, logo ali depois, a escola”.

É difícil distinguir a vila descrita por Nalva entre paredes semienterradas na lama, ferro retorcido, eletrodomésticos abandonados e uma vegetação rasteira que se espalha descontrolada. O pouco que foi poupado pela lama não sobreviveu aos saques registrados nos dias subsequentes. Mas ela continua gravada em sua mente.

“Atrás desse tapume é a igreja”, conta ela, se referindo à Igreja de São Bento, construída originalmente em 1718 e destruída pela lama. “Aqui eu fui batizada, batizei meus filhos e meus netos.”

O acesso às ruínas do templo é restrito. Funcionários da Fundação Renova estão por ali, trabalhando. Nalva pergunta: “Já acharam o sino?”. Diante da negativa, ela prossegue: “E a Nossa Senhora?” Nada também. “Ela é toda de ouro, mas a gente pintou ela para não ser roubada. Se alguém levar, nem vai saber o valor que tem”, explica.

Nalva levou três meses para ter coragem de voltar a Bento Rodrigues depois do rompimento da barragem. O dia da tragédia, diz, não sairá nunca mais de sua mente. Não houve alarme, nem aviso antecipado, só a lama chegando e varrendo tudo.

“Eu estava ali, no ponto do ônibus, quando ouvi o barulho ”, ela mostra uma esquina empoeirada. “Sai correndo até a minha casa, que ficava ali adiante, mas, quando eu cheguei lá, a lama já entrava pelas janelas. Só deu tempo de sair correndo.”  Para ela, só não morreram mais pessoas por conta da interferência divina – foram quatro mortos em Bento. “Foi Deus”, constatou. “Não era pra ter ficado ninguém vivo aqui.”

No lugar onde ficava a casa de Nalva, existe apenas mato seco. Não sobrou mais nada. Nenhum vestígio da construção, onde ela viveu por décadas com o marido, os filhos e os netos, dividindo o quintal com mais duas casas, dos pais e do irmão. Hoje, vivem todos em Mariana, separados.

“Tem uma coisa que eu queria achar aqui, só uma coisa: uma agenda”, ela fala. “Nem te conto a história dessa agenda. Meu marido que deixou pra mim. Ele viajava muito a trabalho, estava doente, mas não me contou, não tinha coragem de falar por telefone. Mas ele sabia que ia morrer. Ai ia escrevendo na agenda o que estava acontecendo. Quando voltou pra casa, me deu a agenda. Morreu três dias depois.”

Por isso, explica, nenhum morador pretende ceder o terreno  à mineradora Samarco após o reassentamento, como chegou a ser proposto. “As ruínas são nossas”

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Inimagináveis cinco metros de lama

Luzia Queiroz, de 52 anos, e o marido, Caetano Paulino da Silva, de 33 anos, moradores de Paracatu de Baixo, atingidos pelo tsunami de lama

Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Sempre que têm uma oportunidade, Luzia Queiroz, de 52 anos, e o marido, Caetano Paulino da Silva, de 33 anos, voltam a Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (MG), que também foi destruído pela lama.

Nos fins de semana, costumam se reunir com os antigos vizinhos para fazer churrasco. “A gente continua vindo aqui, mesmo sem água, sem luz, sem esgoto, sem nada”, conta Luzia, andando pelo terreno do que um dia foi a sua casa. “Porque isso aqui é nosso. A terra é nossa.”

Os dois lembram bem do dia da tragédia. Eles já sabiam que uma tsunami de rejeitos tinha invadido Bento Rodrigues, mas, mesmo assim, tiveram dificuldade de acreditar que chegaria a Paracatu.

Mas chegou. E em duas frentes, formando uma verdadeira pororoca. 

A marca na parede da Igreja e, em frente, na altura do segundo andar da escola municipal, são a prova de que a lama chegou a inimagináveis cinco metros soterrando completamente a parte central do vilarejo, onde aconteciam as festas religiosas e de onde partiam as procissões e as cavalgadas.

Atrás da igreja ficava o campo oficial de futebol, onde o time local jogava nas datas festivas. A trave do gol, quase completamente soterrada é outro testemunho silencioso do alcance da destruição.

A casa de Luzia e Caetano, que ficava em um terreno mais alto, não foi completamente soterrada, como a de Nalva. Mas ficou igualmente inabitável. “Vivemos o Mar Vermelho: vimos a Terra Prometida, mas não conseguimos chegar lá”, conta Luzia. “Perdemos tudo, perdemos nossa identidade”

Luzia sente falta do céu limpo, nas noites quentes em que a família toda dormia junto, no terraço da casa.  “Se eu estendesse as mãos, dava para pegar as estrelas.” Ela também sente falta das festas religiosas da comunidade e do convívio diário com amigos e parentes.

Agora, vivendo provisoriamente em Mariana, cada um mora em um lugar diferente.

“Isso aqui era viver, respirar; não uma casa agarrada na outra, as crianças todas presas dentro de casa”, diz fazendo um gesto amplo com o braço, abrangendo o vilarejo. “Meu sogro não tem mais terra, hoje ele planta nos vasos.”

A mudança de um cotidiano rural para um dia a dia urbano deixou suas marcas na comunidade.

“Muita gente adoeceu, de fibromialgia, de coluna, de depressão, de tristeza”, resume Luzia.

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - A lama que soterrou vilarejos, envenenou o Rio Doce e chegou até o Oceano Atlântico também destruiu parte da história de Minas Gerais. Três igrejas construídas nos séculos XVIII e XIX em Mariana e Barra Longa foram invadidas pela tsunami de rejeitos. Muitas imagens sacras se perderam.

Para tentar recuperar parte desse patrimônio, a Fundação Renova criou uma reserva técnica em Mariana que já recebeu 2.134 peças ou fragmentos de peças dos acervos das igrejas, encontrados nos próprios vilarejos e também ao longo de todo o curso do Rio Doce.

As peças estão sendo limpas e recuperadas por uma equipe de especialistas e, dependendo do caso, serão devidamente restauradas e, no futuro, devolvidas às suas comunidades.

Mas o trabalho mais difícil, segundo a restauradora Mara Fantini, responsável pelo projeto, é o de recuperação do patrimônio imaterial das comunidades atingidas.

“Tudo o que encontramos dentro das igrejas trazemos para cá, sem fazer juízo de valor”, explicou Mara. “Não temos como julgar o que é importante para eles.”

Uma garrafa pet de refrigerante cheia de água foi um dos itens aparentemente inócuos levados pelos especialistas para a Reserva Técnica.

“Quando os moradores viram, se emocionaram muito”, conta Mara Fantini, ela mesma emocionada. “Era a água benta que o padre tinha deixado com a comunidade poucos dias antes da tragédia.”

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Para atender às pessoas que perderam suas casas na destruição de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira – e que até hoje estão morando provisoriamente em casas alugadas pela Samarco em Mariana –, a Secretaria Municipal de Saúde criou uma rede de atenção psicossocial, formada por psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais, sob o comando de Sérgio Rossi, de 32 anos, coordenador de Saúde Mental da secretaria.

Se na população em geral os transtornos mentais costumam atingir 1% dos indivíduos, o percentual chega a 10% entre os atingidos pela lama. Do total de aproximadamente 1.300 atingidos, de 150 a 200 estão em acompanhamento constante. Depressão, isolamento social e abuso de álcool e drogas são os problemas mais recorrentes.

“Logo no primeiro mês vimos que não daria para atender a demanda, que seria preciso ter um grupo específico”, conta Rossi. “Usamos como modelo o trabalho feito em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, depois do incêndio da Boate Kiss.”

O especialista explica que as pessoas que tiveram suas casas e seus vilarejos destruídos pela lama estão vivendo sob intenso sofrimento social.

“Além de terem enfrentado um evento traumático, que foi o rompimento da barragem e a fuga da lama, é preciso lembrar que Bento é um vilarejo que existia há mais de 200 anos. Paracatu a mesma coisa. A relação familiar, o convívio com os vizinhos, o trabalho no campo: todo o modo de vida dessas pessoas foi brutalmente encerrado”, afirma Rossi.

“Dois anos já se passaram e ainda não há perspectiva sobre quando vão se estabelecer em uma nova comunidade. A vida na cidade segue uma dinâmica social a qual não estão acostumados. Eles são agricultores. ‘Passarinho na gaiola’ é a metáfora mais recorrente”, enumera.

Como se não bastasse tudo isso, os atingidos começaram a ser hostilizados na cidade por conta de uma lógica torpe. Eles têm os aluguéis das casas e apartamentos em Mariana pagos pela Samarco. E recebem um cartão de alimentação no valor de R$ 1.200.

A interrupção do funcionamento da mineradora por conta do rompimento da barragem fez o percentual de desemprego na cidade subir de 5% para quase 25%. E quem acaba pagando o pato são os atingidos, que recebem auxílio.

“Houve um processo de hostilização”, atesta Rossi. “As pessoas entendem (o cartão e o pagamento do aluguel) como benefício, não reparação. É mais fácil responsabilizar os atingidos do que direcionar isso contra a empresa.”

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Duarte Eustáquio Gonçalves Junior, 37 anos, prefeito de Mariana (PPS), promete entrar na Justiça com pedido de indenização por conta do descalabro que se instalou na cidade desde o rompimento da Barragem do Fundão e a destruição dos vilarejos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. O desemprego, que historicamente nunca ultrapassara os 6%, está em 23,5% por conta da inatividade da mineradora. A arrecadação caiu de R$ 27 milhões por mês para R$ 17, 5 milhões. As contas da Prefeitura simplesmente não fecham.

“O meu sentimento é que desde o dia do rompimento da barragem, vivemos uma tragédia continuada”, diz Duarte, que tinha acabado de assumir o cargo quando a tragédia ocorreu.  “Todo dia tem uma dificuldade diferente.”

Para o prefeito, a empresa falhou no caso do rompimento da barragem e os responsáveis devem responder por seus erros. “Não havia sirenes, ninguém foi avisado”, lembra. “Se tivesse acontecido à noite, teria exterminado a população.... Sou muito cristão e acho que houve interferência divina”

Mas, lembrou o prefeito, a Samarco não era integrada apenas pelas pessoas responsáveis pela tragédia.

“O pessoal da limpeza, técnicos, motoristas, engenheiros também trabalhavam lá e estão sofrendo (desempregados, por conta da inatividade da Samarco)”, diz.

Das 18 mil pessoas desempregadas hoje na cidade, 60% eram ligadas, direta ou indiretamente, à Samarco. Só de ICMS, a empresa pagava R$ 10 milhões por mês – dinheiro que deixou de entrar nos cofres públicos. O aumento do número de desempregados tem um impacto direto nos serviços gratuitos de educação, saúde e assistência social.

“Acho que houve um grande erro neste acordo firmado: pensaram até no reflorestamento de toda a calha do Rio Doce, o que está certo, claro, mas ninguém se preocupou com a vida das pessoas de Mariana”, afirma Duarte. “Estamos vivendo entre a Cruz e a espada: os responsáveis precisam ser punidos, mas sem o retorno da mineração, temos uma segunda tragédia.”

O prefeito conta que procurou conversar com a Samarco e seus maiores acionistas, Vale e BHP, para que elas o ajudassem a garantir os serviços essenciais à população. Mas sua ideia foi rechaçada.

“Diante disso, só me resta entrar com uma ação de indenização contra a Vale e a BHP”

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Guilherme de Sá Meneghin, de 34 anos, cita “A República”, de Platão: “Justiça é o que convém ao mais forte.”

Disposto a não deixar que a máxima se repetisse no caso do rompimento da barragem de Mariana, o promotor foi um dos primeiros, ainda no dia da tragédia, a correr para garantir os direitos mínimos dos moradores de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, vilarejos completamente destruídos pela lama.

Foi Meneghin quem, já em novembro de 2015, logo após a tragédia, conseguiu bloquear judicialmente R$ 300 milhões das contas da Samarco para o pagamento de futuras indenizações às vítimas. Foi ele também quem inicialmente garantiu a entrega de um cartão de alimentação para os atingidos.

“Na minha visão, um dos atos mais covardes cometidos pela Samarco foi a suspensão da entrega dos cartões quando, momentaneamente, foi definido que não tínhamos mais competência sobre este tema”, afirma.

Por fim, ele garantiu que a Fundação Renova – criada pela Samarco para tratar da reparação da tragédia – fosse obrigada a arcar com os custos da contratação de uma equipe de especialistas para assessorar os atingidos nas complexas negociações sobre engenharia de barragens, indenizações e reassentamento.

“A tragédia não aconteceu apenas no dia 5 de novembro de 2015”, diz ele. “Ela continua acontecendo. Há uma perpetuação diária da violação dos direitos dessas pessoas sobretudo na forma como a empresa as trata.”

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Roberto Waack, de 57 anos, é o presidente da Renova, a fundação que tem como principais acionistas a Vale e a BHP e foi criada para reverter os danos causados pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana, Minas Gerais.

Da indenização e reassentamento dos moradores dos vilarejos no entorno da barragem à recuperação da água de todo o  Rio Doce, passando pelo reflorestamento de parte de Minas e Espírito Santo, a missão não é nada simples.

“A primeira frente, do auxílio emergencial, do cartão alimentação, começou logo após o rompimento da barragem e continua; já são oito mil pessoas recebendo”, conta Waack. Ele admite que há pessoas que ainda não receberam o cartão e que a situação está sendo revista caso a caso.

“Numa segunda frente, temos o ressarcimento dos danos pela falta de água a cerca de 450 mil pessoas. Desse total, 180 mil já receberam e outras em fase final”, relata. A terceira frente de pagamento de indenizações é a mais complexa, porque envolve o cálculo dos danos morais e materiais. “É difícil estimar todas as atividades econômicas de cada um, a pesca, a pousada, o agronegócio, fora os danos morais. Mas este levantamento já foi concluído e os processos de pagamentos já começaram.”

Waack admite que o processo foi demorado. “Demorou sim. Mas não é um processo trivial”, afirma. “Por exemplo, 80% dos pescadores (que viviam da pesca no Rio Doce e afluentes) são informais. Eles não têm como comprovar suas perdas. Seria justo deixá-los de fora? Claro que não ou estaríamos deixando de fora os mais vulneráveis. O mesmo se aplica aos agricultores, areeiros. Tivemos que buscar outras formas de comprovar isso. Esse tipo de desafio que enfrentamos é difícil de ser entendido pela sociedade em geral e principalmente pelos atingidos.”

Waack sabe que há uma hostilidade de parte da população atingida em relação à Renova, mas não acredita que seja algo generalizado. “Não dá para imaginar que as pessoas estejam satisfeitas, confortáveis. Não estão. Elas querem receber o dinheiro e têm razão. A gente reconhece a indignação e acha natural e justificável, mas estamos fazendo tudo para superar o problema o mais rapidamente possível.”

O presidente da Renova garantiu que, embora o reassentamento dos atingidos em novos terrenos ainda não tenha começado, o cronograma está mantido e os novos vilarejos de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira serão entregues em 2019.

Sobre a recuperação ambiental, Waack explica que existem várias frentes em andamento e algumas já concluídas. “A estabilização dos rejeitos está assegurada; não há mais rejeitos saindo da região”, afirma.

Para a limpeza dos rejeitos já lançados nos primeiros cem quilômetros do Rio Doce foi elaborado um plano de manejo para 17 diferentes regiões, cada uma delas com uma atividade específica. “Numa outra frente temos a recuperação das nascentes, 500 por ano, e a restauração florestal, que começa no ano que vem e vai plantar 40 mil hectares em dez anos”, diz.

Outro ponto crítico é o monitoramento da qualidade de água no rio.  Embora muitos moradores continuem bebendo água mineral, Waack garante que as condições de potabilidade da água já foram recuperadas e voltaram à situação prévia ao desastre.

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h01

MARIANA - Dois anos depois do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana (MG), que lançou lama por toda a extensão do Rio Doce, surgem os primeiros indícios do retorno de animais silvestres às margens do rio e de seus afluentes.

Segundo a presidente do Ibama, Suely Mara Vaz de Araújo, dada a extensão e a gravidade da tragédia, esta é uma boa notícia. A outra boa notícia é que a água destinada ao abastecimento já está sendo tratada e é potável.

“Os efeitos ambientais de um desastre desse porte são complexos e de grande magnitude”, diz ela. “No que diz respeito ao meio ambiente, passamos de uma fase de emergência para a de recuperação ambiental propriamente dita.”

A construção de barramentos em Bento Rodrigues garantiu a contenção da lama e impediu que uma nova tragédia acontecesse. Começa a ser aplicado agora um plano de manejo dos rejeitos, com soluções específicas para cada um dos trechos afetados do Rio. 

No que diz respeito à mata nativa nas margens dos rios, a contenção da lama foi concluída e, agora, começa a replantio de espécies nativas. Dos 109 afluentes pesquisados, apenas 20 ainda estão em situação preocupante.

“Considero esse resultado razoável; melhor do que o da última vistoria”, diz Suely. “Vale lembrar que no que diz respeito à recuperação florestal, temos décadas de trabalho pela frente. É uma tragédia muito grande e seus efeitos são dramáticos.”

Ao longo do Rio Doce foram instalados mais de 50 estações de controle: trata-se do rio mais bem monitorado do país, com novos dados sendo gerados o tempo todo em tempo real.

“São 42 programas sócio-econômicos e ambientais”, resume Suely. “Alguns programas estão andando bem e outros estão atrasados. Mas estão andando. É muita coisa a ser feita: temos ações previstas até 2032. Estamos tentando garantir que tudo seja feito de forma adequada. Mas a restauração de tudo isso ainda demora.”

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Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h04

MARIANA - Os vilarejos de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, destruídos pela lama, têm uma história que remonta há pelo menos duzentos anos. São vilas, ou arraiais, criados para a produção agrícola que sempre sustentou a mineração.

“A agricultura sempre esteve articulada à exploração mineral, é um suporte fundamental”, afirma o historiador Francisco Eduardo de Andrade,  da Universidade Federal de Ouro Preto. “Desde o final do século XVII há roças, plantios de gênero para a alimentação dos exploradores que adentravam o sertão. Essas roças vão se tornando pontos de pouso e abastecimento para as tropas e têm também função militar de confrontar grupos indígenas mais hostis.”

Embora isso não esteja ainda comprovado historicamente, existe a possibilidade de alguns desses vilarejos terem sido também quilombos. “As referências a quilombos na área de Mariana no século XVIII são muito disseminadas, principalmente nessa região a nordeste da sede do município, onde estão Bento e Paracatu”, explica. “Havia um grande ajuntamento de escravos na região, por conta da mineração e da agricultura”

O ciclo do ouro na região teve seu auge na primeira metade do século XVIII, dando lugar a uma predominância da extração do ferro. “A extração do ferro se difunde de maneira muito significativa ao longo do século XIX.”

A história da mineração na região também se confunde com a da expansão do catolicismo. Numa das regiões mais ricas do país, a igreja se fez presente com mão de ferro, para catequizar índios e escravos.

“Mas nem sempre o catolicismo serve ao controle”, diz. “Ele é um elemento constitutivo da identidade das pessoas que moram nas minas. O catolicismo têm flexibilidade suficiente para integrar tanto o europeu, quanto o africano e o índio. O catolicismo foi uma grande saída para a sobrevivência de muitos africanos, propiciando uma união comunitária em busca da superação do cativeiro ou de um cativeiro mais digno.”

Em Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, as igrejas ainda mantêm essa função comunitária, de unir a população, de criar redes de segurança, de forjar sua própria identidade.

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