Descrente, população busca por desaparecidos

Números oficial de mortos é visto com desconfiança pelos que percorrem a região em meio à tragédia

, O Estadao de S.Paulo

30 Maio 2009 | 00h00

O número oficial de mortos e desaparecidos em Cocal se transformou em mera formalidade. A cada nova confirmação, a população se mostra cada vez menos confiante nas informações repassadas pela prefeitura e pela Defesa Civil. Até ontem, sete óbitos haviam sido confirmados, um corpo aguardava identificação e duas pessoas ainda estavam desaparecidas.O corpo de Maria Alessandra Pereira de Souza, de 16 anos, foi encontrado às 8h45, em Franco - um dos povoados mais atingidos. Um oitavo corpo, de criança, deu entrada no hospital municipal, mas as autoridades locais não forneceram informações. Duas crianças - que não estavam na lista de desaparecidos - também foram encontradas ontem.Durante o dia, a procura de familiares por desaparecidos era grande em um hotel ao lado da prefeitura, onde o Corpo de Bombeiros montou uma base de operações.No começo da tarde, o lavrador Francisco José Carvalho da Silva era um dos que buscavam por informações. Há quatro dias não sabe nada de sua mãe, Maria Horácio Carvalho, e seus quatro irmãos. A família morava no povoado de Angico Branco, completamente destruído pelo rompimento da Barragem de Algodões 1. "Até ontem (sexta-feira), tinha esperanças de encontrar eles vivos; agora não sei mais."A mãe e a irmã de Francisco não estão nas estatísticas oficiais, assim como os desaparecidos de outras famílias. Funcionária pública, Francisca Santos diz ter certeza de que o número de mortos é maior do que o divulgado. "Rodo a cidade inteira todos os dias. Em cada lugar que eu vou ouço a mesma coisa das famílias que têm parentes desaparecidos", diz.Ontem, um helicóptero Black Hawk, da FAB, foi enviado a Cocal para auxiliar as buscas. No final da tarde, os militares constatavam que cinco povoados - Franco, Tabuleiro, Cruzinha, Mapa e Dom Bosco - "simplesmente não existem mais". "É difícil calcular a extensão dos danos, mas essa população foi muito prejudicada", afirma o major da Aeronáutica Valney Antonio Osmari.A rotina dos 26 mil moradores se transformou no acompanhamento da movimentação das cerca de 200 pessoas vindas de fora, entre técnicos da Defesa Civil, soldados do Corpo de Bombeiros, Exército e Polícia Militar. Na praça central,dois geradores a diesel fornecem energia para a prefeitura e para uma TV que reúne os moradores durante a noite.No gabinete de crise, na prefeitura, fica a coordenação das ações de busca. A movimentação é grande. No resto da cidade, as únicas coisas que podem ser vistas são velas acesas.Dona de um bar no bairro de São Francisco, Lívia Maria de Souza desafia a lógica e mantém as portas abertas. Lá dentro, uma pequena lamparina ilumina a única mesa ocupada. "Aqui falta tudo, não tem como sobreviver, a não ser da roça", diz Lívia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.