Desdita oficial

É natural - necessário até - que cause espanto e provoque protestos quando um presidente da República declara que acha um absurdo os políticos ficarem "subordinados a decisões de um juiz a cada eleição".

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Realmente, como disse o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, a atitude do presidente Luiz Inácio da Silva é "assustadora e incompatível com a responsabilidade do cargo".

Mas, conforme acrescentou o presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil, Fernando César Baptista de Mattos, "não é a primeira vez que comentários dessa natureza são feitos pelo presidente".

Nem será a última. Isso a despeito de há quatro dias ele mesmo, Luiz Inácio da Silva, ter dito em entrevista a uma rádio, que o Poder Judiciário deve ser respeitado e que, se erros forem cometidos por ele no curso da campanha, merece ser punido por isso.

Naquele mesmo dia havia ordenado ao ministério extremo cuidado com a lei eleitoral e condenando veementemente o uso da máquina pública em campanhas eleitorais.

Portanto, com todo o respeito devido à necessidade de se registrarem os protestos, é tempo perdido. A impressão que se tem é a de que o interlocutor em questão não as escuta. Ou se ouve, não registra.

Como de resto não parece reter no pensamento nem as próprias palavras ditas, as quais não conecta com os raciocínios pretendidos.

Prometeu, quando sair da Presidência, "gritar, perturbar" para mudar essa situação. Como opositor do governo Dilma? Como líder do movimento dos sem-juiz?

No caso da declaração do "juiz", obviamente quis dizer que a Lei Eleitoral não pode mudar a cada ano. Mas, isso se infere, porque no afã produzir o panfleto oral que supostamente mobiliza, simplifica demais e erra.

E aí sai o coordenador da campanha de Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, a dar as explicações.

Ponderando que o presidente só quis defender a reforma política. Poderia tê-lo feito ao longo de oito anos, tinha força para tanto.

Atacando o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, por ter dito que não se deve "brincar com a Justiça". Aconselhou o ministro a falar mais aos "autos e menos aos microfones".

Ora, se alguém fugiu às balizas republicanas foi o presidente ao debochar aos microfones das multas recebidas quando a Justiça falou nos autos e o condenou por campanha antecipada.

Bom entendedor. O apoio do ex-governador Anthony Garotinho a Dilma Rousseff foi fechado no ano passado diretamente pelo então ministro dos Transportes Alfredo Nascimento.

Ele explicou que apesar da aliança do presidente Lula com o governador Sérgio Cabral, inimigo de Garotinho, o palácio avaliava que Cabral não teria votos suficientes no Estado para eleger Dilma.

E foi franco: disse a Garotinho, candidato do PR ao governo, que o governo federal não poderia lhe dar um só voto. Mas teria meios de lhe tirar muitos se necessário fosse.

Meia palavra dita, tudo entendido, acordo fechado.

Roque. Da desistência do vice-presidente José Alencar de concorrer ao Senado decorre uma certeza e algumas hipóteses em matéria de desdobramentos.

O certo é que o presidente Lula pode viajar e se licenciar do cargo, se for o caso, sem que seja necessário o presidente do Senado, José Sarney, assumir a Presidência.

As hipóteses guardam relação com as eleições em Minas, Estado de Alencar. Sem ele no páreo, a vaga ao Senado pode ir para os petistas Patrus Ananias e/ou Fernando Pimentel.

Numa possibilidade remota, para o pemedebista Hélio Costa. Ou, quem sabe, o PT consegue ficar com uma vaga para o Senado, com a candidatura ao governo e, em troca, Hélio Costa fica com a vaga de vice na chapa de Dilma Rousseff.

Este último lance, que tiraria o lugar de Michel Temer, estaria reservado para o caso de Aécio Neves mudar de ideia e vir a compor a chapa puro-sangue com José Serra.

Seria o reforço mineiro governista para neutralizar a jogada oposicionista.

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