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Desembargador ameaça ir ao STJ para abrigar quadro em seu gabinete no Rio

Obra, que retrata um policial fardado atirando contra um homem negro crucificado, será leiloada em benefício da família de Amarildo

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2013 | 13h10

RIO - O "asilo artístico" concedido semana passada pelo desembargador Siro Darlan, da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, a um polêmico quadro do cartunista Carlos Latuff pode parar no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A obra, intitulada "Por uma cultura de paz", retrata um policial fardado atirando contra um homem negro crucificado.

Darlan abrigou a gravura no dia 2, após o Órgão Especial do TJ-RJ determinar a retirada do quadro da parede do gabinete do juiz João Batista Damasceno, da 1ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio. A decisão foi tomada após solicitação do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), encaminhada naquele mesmo dia à presidente do TJ-RJ,desembargadora Leila Mariano.

Entretanto, Darlan disse que na terça-feira, 10, foi comunicado verbalmente pelo corregedor do tribunal, desembargador Valmir de Oliveira Silva, de que o Órgão Especial também decidiu que o quadro deveria ser retirado de seu gabinete. Darlan, que não integra o Órgão Especial, solicitou que fosse informado oficialmente da ordem judicial, o que não havia acontecido até terça à noite.

"Essa decisão é uma ofensa contra a independência do magistrado. Meu gabinete não é público. Aqui só entra quem eu deixo. Além disso, o Órgão Especial não tem ingerência sobre mim. Assim que eu for comunicado oficialmente da decisão, vou entrar com mandado de segurança no foro correto, que é o STJ", afirmou o desembargador.

A confusão, porém, pode terminar antes de o caso chegar em Brasília. Darlan disse que pretende abrigar a obra de arte em seu gabinete até a data de seu leilão. O evento está previsto para ocorrer no próximo dia 24, na Casa da Gávea, na zona sul do Rio. A produtora Paula Lavigne foi convidada a comparecer ao evento.

O dinheiro arrecadado será revertido em benefício da família do pedreiro Amarildo de Souza, de 43 anos, desaparecido desde 14 de julho após ter sido conduzido por policiais militares de sua casa até à sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Favela da Rocinha.

"O quadro retrata um ato de violência, como o que ocorreu com Amarildo. Sou um mero guardião dessa obra de arte. Aliás, eu e Dom Quixote, que é o guardião dos sonhos impossíveis", ironizou Darlan, referindo-se a um quadro que retrata o herói do livro do espanhol Miguel de Cervantes, pendurado ao lado do "Por uma cultura de paz", em seu gabinete no TJ-RJ.

Procurado, o TJ-RJ não se manifestou.

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