Desencontro marcado

PT e PSDB são sem sombra de dúvida as duas grandes forças políticas antagônicas da cena brasileira, quanto a isso não há quem discorde embora haja quem goste e quem desgoste.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Há anos discute-se uma junção dos dois num hipotético governo de excelências, livre de pressões fisiológicas.

Debate que a realidade insiste em desmentir constantemente pelo acirramento da divergência entre petistas e tucanos que já lutaram juntos contra a ditadura, mas desde a ruptura - final da década dos 70 - disputam o poder sem dar sinais de que possa haver convergência.

Pois bem, a última pesquisa Datafolha mostra que o eleitorado de um modo geral está pouco ligando para a briga dos dois.

Em uma mesma eleição escolhe o candidato a presidente de um partido, de outro para governador, de um terceiro para senador e assim por diante até completar rol de postos eletivos a serem preenchidos, sem se preocupar com a uniformidade partidária.

O voto cruzado não é novidade nem tem razões tão misteriosas ou profundas. Apenas na ditadura os generais inventaram durante certo período o voto vinculado, obrigando o eleitor a escolher candidatos a governador, senador e deputado (não havia eleição para presidente) de um mesmo partido.

A ideia era conter a onda oposicionista que começara a se expressar em 1974. O resultado da eleição de 1982 contrariou a expectativa: a maioria preferiu marcar "PMDB de ponta a ponta".

O motivo mais óbvio pelo qual o eleitor mistura Geraldo Alckmin com Marta Suplicy, Dilma Rousseff com Aécio Neves, Sergio Cabral com seu arqui-inimigo Marcelo Crivella e assim por diante, é o descompasso entre a vida real e o ambiente cenográfico em que vivem os partidos, apartados da população.

Fazendo bobagem em cima de bobagem no Congresso, tratando a administração pública como casa da sogra e abrindo cada vez mais espaço para soluções personalistas e retrocessos carismáticos.

De onde para o autoritarismo é um pulo.

Dois na gangorra. Há uma explicação para a reação imediata e incisiva do PT ao uso da imagem de Lula no programa do PSDB. Principalmente cenas em que aparece em situação de amabilidade com José Serra.

Segundo análise de um mandachuva da campanha dias atrás, o pior momento para o PT foi aquele início em que Serra elogiava Lula sem parar. "Não havia argumentos convincentes para responder. Íamos dizer o quê, que Lula não merecia os elogios?"

Agora ocorre parecido. Quando o PSDB põe Lula no ar para acentuar o fim do governo, é difícil o PT rebater, dado que o governo de fato acabará em poucos meses.

O argumento de que a lei não permite o uso da imagem de político em programa de partido ao qual ele não esteja formalmente coligado, não tem grande fundamento quando o político em questão é presidente da República.

Símbolo nacional, como o hino ou a bandeira.

Mas o PT entende que precisa reagir e busca a melhor maneira de fazer isso.

O tom mais eficaz até agora é o que acusa Serra de querer pegar uma carona no sucesso de Lula, pois não rejeita nem aceita os agrados, mas lembra ao eleitor que o adversário cisca em terreiro alheio.

Guardadas as proporções, Serra faz o que Lula fez com a estabilidade da moeda.

Buraco negro. A autoria da quebra do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, caminha para o mesmo destino da origem do dinheiro com que os "aloprados" do PT comprariam um dossiê contra José Serra.

Quatro anos depois, ninguém sabe de onde saiu o dinheiro apreendido e fotografado pela Polícia Federal.

Dificilmente alguém um dia saberá quem violou o sigilo do tucano na Receita Federal. A funcionária dona da senha identificada diz que emprestou sua identificação para duas colegas e estas informam que a senha foi deixada ao alcance de outras pessoas.

Desse modo todo mundo pode ser culpado e ninguém pode ser punido.

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