Desequilíbrio partidário

Não é lícito tratar hoje como oposição futura os candidatos e partidos inferiorizados nas pesquisas de intenção de voto. Mas, a uma semana das eleições, já há uma contabilidade razoavelmente segura a indicar que, se eleita Dilma Rousseff, o chamado governo de continuidade terá força numérica, tanto na Câmara quanto no Senado, para promover reformas constitucionais.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

No entanto, essa expressão numérica não se traduzirá numa força linear e permanente, dadas as diferenças ideológicas e os interesses políticos antagônicos entre os dois principais partidos da base governista - PT e PMDB. Por isso, é de se prever que este último exerça atração natural sobre DEM e PSDB para alianças pontuais contra o PT.

Trocando em miúdos, a oposição engordará o PMDB quando este divergir de seu parceiro em temas que dividam o governo, como ocorrerá quando se discutirem reformas mais estratégicas para o País.

Esse pensamento já é explícito no DEM, por exemplo, que não será "extirpado" pelo processo eleitoral, como gostaria o presidente da República, mas chegará ao Congresso gravemente amputado e dependente - ora do PSDB, ora do PMDB, conforme a circunstância.

No Senado, a história se repete: a oposição de hoje não deverá somar mais que 26 senadores, configurando um quadro partidário de maioria desequilibrante e um governo de "rolo compressor", imune até a CPIs, cuja aprovação depende de 27 senadores.

Sem voz

Com uma bancada de, no máximo, 43 deputados, segundo seus próprios cálculos, o DEM não terá força numérica na próxima legislatura sequer para pedir verificação de quórum na Câmara. Também será um pedinte na fila para integrar as comissões. O desânimo é grande inclusive com a perspectiva de novas baixas, se aberto o caminho para troca-troca partidário, conforme tudo indica que ocorrerá.

Efeito Roriz

Independentemente da votação do Supremo Tribunal Federal (STF), a Lei da Ficha Limpa já cumpriu seu objetivo de influir nas eleições deste ano e estabeleceu um padrão de exigência assegurado para as próximas. Para alguns ministros do Supremo envolvidos no julgamento da constitucionalidade da lei, a renúncia de Joaquim Roriz tem por base as pesquisas que indicam perda de votos por dúvidas geradas no eleitor quanto à validade do dispositivo. Na dúvida, indicam as pesquisas, melhor não votar no candidato, o que significa que o eleitor está decidindo por conta própria como agir.

Gato escaldado

A iniciativa do PT de recorrer ao STF para revogar a exigência de duas identidades para a votação tem por base a altíssima abstenção registrada em 2006, quando 20% dos eleitores não foram às urnas no segundo turno (23,9 milhões). E, no primeiro turno, 16,7% (21 milhões). Esse índice aumentaria com a nova exigência, teoricamente onde Dilma Rousseff tem votação mais expressiva: na Região Nordeste. Outra preocupação do PT é com as vítimas das enchentes de junho em Alagoas e Pernambuco, Estados que, juntos, têm mais da metade do eleitorado de Minas.

Debate decisivo

São dois ainda os debates com os quatro presidenciáveis: o da Record, hoje, e o da Globo, quinta-feira. Mas é para este último que se voltam todas as atenções e a concentração dos candidatos que estão bloqueando as agendas nos dois dias que antecedem as eleições para se prepararem.

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