Fábio Motta/AE
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Desgastado, Cabral entrega negociações com bombeiros a novo comandante

Governador opta pelo silêncio enquanto movimento dos bombeiros ganha simpatia da população

Luciana Nunes Leal e Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo

08 de junho de 2011 | 18h48

RIO - Desgastado pelo crescente apoio da população ao movimento dos bombeiros por reajuste salarial, o governador Sérgio Cabral decidiu sair de cena. Além de entregar a negociação com os grevistas ao novo comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Sérgio Simões, Cabral tem evitado o assunto e nesta quarta-feira, 8, faltou a um encontro com empresários organizado pela Petrobrás, na sede da Federação de Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

 

Depois de uma hora de espera, os convidados se irritaram com a informação de que o governador não estaria presente. A assessoria de imprensa alegou "problemas na agenda interna". Na noite de segunda-feira, 6, em reunião com secretários e deputados estaduais, Cabral foi alertado por seu estrategista de comunicação Renato Pereira de que a reação do governador no fim de semana, quando determinou a prisão de 439 bombeiros que invadiram o quartel-central do Corpo de Bombeiros e chamou os manifestantes de "vândalos", não seria bem recebida pela população e poderia causar danos à imagem do governo.

 

Políticos aliados do governador também detectaram que a população vê uma atitude intransigente do governo, embora reconheça a radicalização dos bombeiros. Alguns colaboradores chegaram a sugerir que Cabral suspendesse a prisão da grande maioria dos manifestantes e mantivesse presos apenas os líderes. O governador, no entanto, argumentou que não voltaria atrás na decisão e não cederia aos rebeldes.

 

Nos dois dias seguintes, Cabral optou pelo silêncio sobre o episódio, enquanto o movimento dos bombeiros ganhava a simpatia da população. Policiais e outros funcionários públicos que passam em frente à Assembleia Legislativa, onde os bombeiros estão acampados, tem manifestado solidariedade aos grevistas.

 

Da parte do governo, o coronel Sérgio Simões é o negociador oficial, embora submeta cada passo ao seu superior, o secretário de Saúde e Defesa Civil, Sérgio Côrtes. Nos mês passado, Côrtes se reuniu com representantes das associações de classe, mas agora atua apenas nos bastidores. Aliados de Cabral como o presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Mello (PMDB), que tem participado das negociações, atribuem a radicalização dos bombeiros a "oportunistas políticos". "Estamos negociando, mas achar que todos vão apertar as mãos de uma hora para outra é ingenuidade. Não vai ser resolvido em um dia, dois dias, nem em uma semana", disse Mello.

 

Negociações. O comandante dos bombeiros, coronel Sérgio Simões, se reuniu nesta quarta-feira, pelo segundo dia seguido, com representantes das 12 associações e clubes de cabos e soldados para debater as reivindicações dos militares. No entanto, líderes dos manifestantes que desde domingo acampam em frente à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) deixaram claro que nenhuma das entidades representa o movimento.

 

O grupo definiu três porta-vozes. Entre eles, a mulher do cabo Benevenuto Daciolo, guarda-vidas apontado como o principal líder da greve desde que o movimento começou, há três meses. Ele e outros sete líderes estão isolados dos demais militares presos, no Grupamento Especial Prisional (GEP) dos bombeiros em São Cristóvão, na zona norte do Rio.

 

Além da mulher de Daciolo, a corretora de seguros Cristiane Daciolo, representam a partir de hoje o movimento o capitão Lauro César Botto e o cabo Laércio Soares.

 

Segundo Cristiane, o grupo mantém a posição de não negociar com o comandante dos bombeiros enquanto todos os militares presos não forem soltos. A Associação de Cabos e Soldados, por sua vez, garante que é a representante legal da classe, mas é desautorizada pelos manifestantes que lideraram a invasão ao Quartel Central, na sexta-feira, 3./COLABORARAM TIAGO ROGERO E BRUNO BOGHOSSIAN

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