Thiago Teixeira/AE
Thiago Teixeira/AE

Desigualdade de renda entre cidades cai 32%

Na última década, ganhos dos moradores de 95% dos municípios, principalmente os mais pobres, cresceram mais que a inflação

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Mateiros, no sudeste do Tocantins, era um vilarejo sem luz elétrica em 2000. Uma ponta de mapa na divisa com Maranhão, Piauí e Bahia, lugar esquecido e seco, sem plantação ou criação de valor. Dez anos depois, Mateiros é conhecida como a capital do Jalapão, o deserto mais cenográfico do Brasil. E um polo agrícola emergente.

Graças ao ecoturismo, e a dezenas de milhares de hectares plantados de soja, milho e arroz, a renda média de seus habitantes subiu de R$ 117 para R$ 1.110 por mês entre 2000 e 2010, um pulo de 1.667%, já descontada a inflação. Do 5.417.º lugar entre as cidades do Brasil, passou a ser a 53.º mais rica. Seu PIB per capita bateu em R$ 45 mil por ano.

Transformações tão revolucionárias são raras, mas em 95% dos municípios houve ganhos de renda reais na década passada. E eles foram proporcionalmente maiores entre as localidades mais pobres. Como consequência, a desigualdade de renda entre os municípios caiu 32%, ao longo dos últimos dez anos.

Em 2000, a renda média dos 1.110 municípios mais ricos era 4,7 vezes maior do que a dos 1.110 municípios mais pobres. Em 2010, segundo novos dados do Censo, essa proporção caiu para 3,2 vezes. Em moeda atualizada, a renda média dos 20% de municípios que compõem a base da pirâmide brasileira era de R$ 155 por habitante por mês em 2000. Por causa do crescimento da economia, das transferências governamentais à população pobre e dos aumentos sucessivos do salário mínimo, além da inflação, essa renda média dos municípios em situação mais precária pulou para R$ 263. Foi um ganho médio de R$ 108 por habitante.

Ao mesmo tempo, a renda dos 20% de municípios que estão no topo da pirâmide nacional variou de R$ 725 para R$ 839. Foram R$ 114 a mais no bolso dos seus moradores, mas, proporcionalmente, o salto da renda dos mais pobres foi quatro vezes maior. Encurtaram, portanto, as distâncias econômicas e sociais entre o topo e a base.

Como regra geral, quanto mais pobre o município, maior foi seu ganho de renda. E não é difícil entender o porquê. A base de comparação é tão pequena que injetar R$ 100 por mês por habitante equivale a um aumento de 78% na renda média dos 550 municípios que compõem os 10% mais pobres do País.

No interior do Centro-Oeste, esses R$ 100 foram aportados, por exemplo, pela expansão da fronteira agrícola. No Norte e Nordeste, os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, incrementaram os ganhos dos mais pobres. Somem-se os aumentos reais do salário mínimo e seu efeito sobre aposentadorias e pensões e está explicada grande parte do aumento da renda na base da pirâmide.

Distribuição. Olhando-se o mapa da evolução da renda municipal entre 2000 e 2010 fica evidente onde os ganhos foram mais dramáticos. As áreas azuis representam os municípios cuja renda diminuiu ao longo da última década. Eles estão distribuídos por todo o mapa, mas têm menor incidência no Norte e Nordeste. Nessas duas regiões, mais localidades viram sua renda per capita subir acima da média.

O crescimento médio dos municípios da Região Norte foi de 107% reais, ante 87% da média nacional. De 449 municípios dessa parte do País, 210 (o equivalente a 47%) cresceram acima da média dos municípios brasileiros, e 37 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. O destaque foi Mateiros (TO), dono do maior crescimento não apenas no Norte, mas em todo o Brasil.

O Nordeste foi a região cuja renda média municipal mais avançou na década: 118% acima da inflação. Nada menos do que 70% dos municípios nordestinos (1.256) cresceram acima da média nacional. Só 24 perderam renda. Proporcionalmente, o maior salto se deu em Centro do Guilherme, no oeste maranhense: de R$ 152 para R$ 543, ou 562% de aumento real.

O crescimento médio dos municípios da Região Sudeste foi de 58%, o mais baixo do País. De 1.666 municípios da região, apenas 391 (23%) cresceram acima da média dos municípios brasileiros. Nada menos do que 152 tiveram redução da renda média entre 2000 e 2010. Álvaro de Carvalho, em São Paulo, registrou a maior alta. Sua renda média pulou 437%, de R$ 179 para R$ 576.

O crescimento foi proporcionalmente maior no interior do que nas capitais. A média de aumento real da renda dessas cidades foi bem baixa: 36% em 10 anos. Mesmo aquela onde o rendimento cresceu mais, Rio Branco (AC), teve um incremento de 62%, inferior à média nacional.

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