Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Desmatamento impede recuperação de represa

Sem vegetação, margem do Rio Jaguari sofre erosão e leito é assoreado; processo barra chegada de água ao Cantareira, em SP

Fabio Leite e Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2015 | 03h00

CAMANDUCAIA - A destruição da mata ciliar do Rio Jaguari ao longo de seu trajeto sinuoso por dentro da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas, é hoje a maior vilã da recuperação das represas do Sistema Cantareira.

Sem a vegetação nas suas margens, que deram lugar a imensas plantações de arroz, eucaliptos e a pastagens de gado, o Jaguari sofre um grave processo de erosão que causa o assoreamento do leito do rio e impede que as chuvas na região serrana cheguem aos reservatórios.

O resultado da destruição da mata ciliar do rio ao longo do tempo, segundo especialistas, é justamente a diminuição do volume de água que chega ao Cantareira. Segundo monitoramento da Fundação SOS Mata Atlântica, a região tem apenas 21,5% da cobertura vegetal nativa.

“Sem matas ciliares nas encostas dos rios, a própria chuva acaba sendo prejudicial para o manancial. Em vez de infiltrar no solo, a água corre pela área desmatada, levando sedimentos e assoreando o leito do rio”, explica Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica.

A vegetação das margens funciona como um filtro, retendo a chuva para os lençóis freáticos, que estocam água e aos poucos alimentam o rio. Mas, até próximo de suas nascentes, o Rio Jaguari já perdeu sua mata nativa para plantações de pínus e eucaliptos, culturas consideradas nocivas em áreas de proteção ambiental, justamente por consumirem muita água do solo.

“Os eucaliptos são chamados de secadores de lagos, eles competem com a gente porque consomem muita água e por isso crescem rápido. Pior do que eles, só as áreas de pasto, que impermeabilizam completamente o solo”, afirma Paulo Henrique Pereira, secretário de Meio Ambiente de Extrema.

Desde 2005, o município mantém o projeto Conservador das Águas, que já cercou mais de 6 mil hectares de áreas de preservação permanente que margeiam córregos pagando donos de terra pelo serviço ambiental prestado. Ainda assim, Extrema tem apenas 15% de mata nativa preservada.

Destruição. E a destruição da mata ciliar do Rio Jaguari chega até a Serra da Mantiqueira, em Camanducaia. Fazendas de eucaliptos e pínus tomaram toda a região no alto da serra, onde estão as nascentes do manancial.

“O pínus não é ruim, não. Ele ajuda a manter o solo úmido”, diz Joel Caetano, de 26 anos, administrador de uma fazenda com mais de 120 mil metros quadrados de plantação.

A destruição das matas ciliares é crime ambiental que pode dar 3 anos de cadeia. O Código Florestal estabelece como área de preservação permanente a faixa que, a partir da máxima margem de cada rio, riacho, córrego ou represa, vai de 30 a 100 metros. Nas áreas rurais de Camanducaia as pastagens e fazendas de gado ocupam a margem do Jaguari. “Os bois ficam nessa margem só até o final da tarde, porque o capim está bem verdinho”, diz Ronaldo Baptista, de 39 anos, que cuida de 150 gados em um sítio em Camanducaia.

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