Desocupação de prédio do INSS acaba em confusão no Rio

A reintegração de posse de um prédio abandonado do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), na Lapa, no centro do Rio, ocupado por sem-teto há cinco anos, provocou confusão e revolta hoje. Um morador foi detido e o trânsito ficou tumultuado na região por todo o dia em conseqüência do bloqueio da rua Riachuelo, uma das principais vias do bairro, em frente ao prédio invadido. A ação de desocupação começou às 7 horas e durou mais de 10 horas.Um efetivo de 85 homens das policiais Militar e Federal foi deslocado para o local. O momento de maior tensão ocorreu por volta das 13 horas, com a chegada de uma equipe do batalhão de Choque da PM. Revoltados com a ação policial, cerca de 10 moradores - a maioria mulheres e crianças - sentaram no meio da rua, para impedir a saída de um dos três caminhões, carregados de pertences dos sem-teto, entre roupas e imóveis. O material foi levado para um depósito da prefeitura.O grupo foi retirado à força pelos policiais militares e o cozinheiro desempregado Walker José Gonçalves Rodrigues, 23 anos, acabou sendo detido por desacato à autoridade. "É uma situação humilhante. O governo faz muito propaganda na televisão e no rádio para mostrar que faz isso e aquilo, mas, na prática, o que ele nos oferece para morar é a rua", afirmou, aos prantos Maria Darcy de Oliveira, 38 anos, que dividia com o marido e os quatro filhos um quarto no edifício do INSS. Segundo ela, o imóvel, de 13 andares, estava abandonado há 10 anos e, há cinco, vinha sendo ocupado por 50 famílias de sem-teto, com renda mensal média de R$ 200. Cada família pagava R$ 100 para as despesas de condomínio e manutenção do edifício.Com o nome de "Revolta dos Malês", em homenagem à rebelião de negros mulçumanos contra a elite de senhores de escravos, em Salvador, na Bahia do século 19, a ocupação dos sem-teto mantinha ainda uma creche para 40 crianças. "Esse foi um dos primeiros passos para uma reforma urbana digna neste País. E agora? Não tenho vergonha de responder: vamos morar na rua", lamentou o jornalista aposentado Clóvis Scarpino, de 71 anos, pai de Clarissa, 2 anos.Antes de serem expulsos à força pela PM, os moradores gritaram palavras de ordem e cantaram a Internacional Socialista e "Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, de 1968, que virou hino da juventude contra a ditadura militar. A ação de despejo foi comandada pelo Departamento da Ordem Política e Social da Polícia Federal (Dops).O advogado dos sem-teto, André de Paula, classificou a desocupação de "ato terrorista" e "ilegal". Segundo ele, a liminar favorável ao despejo foi concedida pelo juiz da 22ª Vara Cível Federal, Washington Juares de Brito Filho, há 34 dias. "Pela lei, uma liminar tem 30 dias para ser cumprida. Por tanto essa liminar já caducou e jamais poderia ser cumprida", protestou Paula, que hoje mesmo entrou com recurso no Tribunal Regional Federal para cassar a liminar.O procurador federal do INSS, Guilherme Caldas Cunha, alegou que a demora em pedir que a polícia cumprisse a ação de despejo foi proposital. Cunha explicou que durante um mês o INSS tentou negociar uma saída conciliada, mas os sem-teto resistiram. "Fomos generosos. Ninguém foi apanhado de surpresa, mas nós temos 50 milhões de segurados que dependem da receita do INSS para receber seus benefícios e este imóvel é um bem que não podemos abrir mão", disse Cunha. Depois de desocupado, o prédio será lacrado e leiloado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.